Rubens Menin Very Very Old Port: um vinho do Porto de 150 anos
Rubens Menin gosta de um desafio. Começou cedo, fundando aos 23 anos a construtora MRV, que se tornou a maior da América Latina. Hoje tocada por Rafael, o primogênito de seus três filhos, tem um braço internacional, a Resia. Em seguida veio a financiadora imobiliária Inter, que cresceu até tornar-se um gigante dos bancos digitais nacionais. O império Menin inclui ainda a Itatiaia — uma das maiores rádios do país, especializada em esportes —, a Log, de logística, a incorporadora Sensia e a plataforma de locação de apartamentos Luggo.
Em 2018, o workaholic inquieto abraçou três desafios quase simultaneamente. Tornou-se sócio majoritário da SAF, que assumiu o controle de seu time do coração, o Atlético Mineiro. Assinou o contrato da operação do braço brasileiro da rede de televisão americana CNN e ainda resolveu produzir vinhos do Douro, a belíssima e histórica região vitivinícola portuguesa, onde comprou seis quintas que compõem sua mais nova holding, a Menin Wines.
Entre todos os seus negócios, são as duas marcas da holding que o deixam mais irrequieto: a H.O. Wines, comprada dos herdeiros do banqueiro António Horta Osório, e a joia da coroa, a Menin Douro Estates, à beira-rio. Vão bem e crescem em prestígio e vendas, mas o enófilo Menin é muito sensível ao escrutínio da mídia especializada, dos confrades donos das maiores adegas do Brasil e de conhecidos em geral. “É um negócio mais próximo de mim, do meu círculo, sabe?”, explica.
Assim como outros empresários brasileiros que empreenderam em vinícolas na Europa, Menin é um forasteiro que chegou há pouco à região dominada há séculos por dinastias como Roquette (Quinta do Crasto) e por descendentes de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a mítica Ferreirinha, que no século 19 ajudou a transformar o Douro numa potência vinícola (Quintas do Vallado e do Vale Meão).
Garrafa de vinho do Porto: embalagens de luxo para vinhos de alta gama (Divulgação/Divulgação)
Menin lançou-se a produzir vinhos de mesa de alta gama como Portos (que são mais doces, porque se interrompe a fermentação antes das leveduras transformarem todo o açúcar em álcool), cujo consumo declina desde meados do século passado.
O empresário decidiu ir na contramão do mercado, que os condenou como produto fora de moda. Contratou Tiago Alves de Sousa, enólogo faro fino, não só para vinificar Portos como para garimpar barricas encostadas em adegas ou oferecidas por vinhateiros precisando fazer caixa. Colecionaram vasto acervo de vinhos velhos com o qual criaram blends precisos, vendidos em embalagens de luxo.
Poucos dias atrás, o empresário tomou a ousada decisão de lançar, com grande pompa, o Rubens Menin Very Very Old Port, com 150 anos de idade, em uma garrafa de cristal de 500 mL lapidada como uma joia, fruto do blend das mais antigas barricas garimpadas por Alves de Sousa.
Nenhuma das 200 garrafas será exportada ao Brasil — estão à venda no e-commerce da Menin a 10.000 euros cada. Ele sabe que haverá poucos compradores: o objetivo é posicionar sua marca no topo da pirâmide.
Estratégia similar foi aplicada a seus dois tintos topo de gama, o Maria Fernanda e o Dona Beatriz (os nomes homenageiam a filha e a esposa, respectivamente). Ambos são monoparcelas e feitos de uvas das vinhas velhas das íngremes encostas ao pé de sua casa, rentes ao rio, de parcelas onde misturam-se mais de 50 castas diferentes. O maior patrimônio que tem o Douro, segundo ele. História e tradição tornam-se, por meio de um storytelling muito bem-feito, sua principal ferramenta de branding.
Por melhor que esteja conduzindo esse processo de valorização de suas terras, o empresário sabe que isso não basta para recuperar os milhões investidos. O maior motor de vendas que há aqui é o enoturismo. Por isso ele vai transformar um casarão histórico próximo em luxuoso hotel com 23 a 26 suítes, com projeto de Sergio Rabelo. “Quero que seja superatual, mas guarde o estilo da região, sabe?” Menin está lutando para o governo liberar a construção de uma ponte que encurtaria o trajeto da cidade do Porto até lá. Também tem planos de abrir ao público o píer e reformar a antiga estação de trem desativada, na fronteira entre a propriedade e o rio, transformando-os em uma espécie de receptivo turístico fluvial. “Sou um otimista. As vinhas velhas durienses são talvez o grande tesouro de Portugal.”
Alexandra Forbes, do Douro (Portugal)
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