Sabedoria indígena guarda um terço do carbono irrecuperável do planeta
Os territórios indígenas armazenam mais de um terço do carbono irrecuperável do planeta — aquele que, se liberado na atmosfera, não poderia ser recuperado a tempo de evitar um colapso climático. Esse estoque não é mantido por políticas públicas nem por acordos internacionais. É sustentado por sistemas de governança indígena construídos ao longo de gerações, como explica um novo estudo global publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications.
Os dados reforçam ainda que 60% dos mamíferos terrestres têm mais de 10% de sua distribuição nessas mesmas terras — o que coloca os territórios indígenas no centro de qualquer estratégia séria de conservação da biodiversidade.
O estudo, conduzido pela Conservation International com comunidades de 43 territórios, ouviu povos indígenas da África, Ásia, Américas e Pacífico sobre como manejam seus territórios e quais mudanças são percebidas ao longo das décadas. Os resultados revelam a eficácia do conhecimento tradicional na conservação de florestas, rios e fauna, mas também documentam a velocidade com que esse sistema está sendo destruído.
Entre 2018 e 2024, os territórios indígenas perderam 2 bilhões de toneladas métricas de carbono irrecuperável, equivalente às emissões anuais de cerca de 1,7 bilhão de carros movidos a gasolina. Mineração, expansão agrícola e incêndios respondem pela maior parte dessa perda. Não por acaso, 61% das pessoas indígenas entrevistadas relataram impactos diretos de indústrias extrativas, como mineração, exploração madeireira, agricultura comercial e projetos de infraestrutura.
Terras indígenas protegidas
O Brasil aparece no estudo com um exemplo concreto. O povo Mamoadate, no Acre, protege ativamente árvores frutíferas silvestres e palmeiras essenciais para a fauna local, trabalho ativo para a manutenção e recuperação de espécies. A diferença é que existe há muito mais tempo e não depende de financiamento externo para funcionar.
Esse padrão se repete em outras regiões. No Equador, comunidades Kichwa restringem a caça de fêmeas de anta, onça-pintada e outras espécies para evitar a redução de suas populações — um protocolo de manejo faunístico transmitido oralmente, sem ficha técnica, mas com resultado mensurável na manutenção das populações animais. No México, comunidades Zapotecas organizam comitês de monitoramento territorial e brigadas contra incêndios florestais.
Na Indonésia, famílias Batak Toba proíbem o desmatamento próximo a rios para prevenir erosão e proteger fontes de água doce. Na Rússia, comunidades Yukaghir vedam ruídos e perturbações próximos aos rios durante a temporada de desova do salmão.
Agricultor ensina práticas de cultivo sustentável para crianças na Guiana (John Martin /Divulgação)
O que esses casos têm em comum é a lógica subjacente: normas coletivas sobre o uso da terra e dos recursos naturais, estabelecidas a partir da observação direta da natureza e transmitidas por vínculos intergeracionais com o território. "O que vocês chamam de gestão do uso da terra já foi planejado desde a origem, porque nossos avós conhecem a terra e a administram de acordo com a lei de origem", disse um representante do povo Uitoto, da Colômbia, em entrevista ao estudo. "Já existe um ordenamento, por isso nos perguntamos por que reorganizar algo que já foi organizado antes."
Os 96% de entrevistados que afirmaram que suas comunidades reservaram terras ou águas para usos sagrados ou culturais destacam que conservação e cultura não são categorias separadas nesses sistemas. As mesmas tradições que preservam idiomas, rituais e identidades também protegem florestas, rios e espécies. Áreas designadas para uso sagrado funcionam, na prática, como refúgios de fauna e reservas de floresta primária — sem que isso precise estar escrito em nenhuma lei.
"Os territórios indígenas protegem o clima e a vida silvestre em uma escala alcançada em poucos lugares; frequentemente armazenam mais carbono e abrigam mais espécies do que áreas protegidas pelos governos nacionais", afirma Sushma Shrestha, diretora de ciência indígena da Conservation International e principal autora do estudo. A pesquisadora é direta ao explicar o mecanismo: "O alto armazenamento de carbono e a biodiversidade presentes nesses territórios não são coincidência. Eles existem graças à presença contínua dos povos indígenas, e não apesar dela."
Mudanças na terra ao longo do tempo
Todas as pessoas indígenas entrevistadas pelo estudo relataram ter observado mudanças no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. Secas e eventos climáticos extremos foram os impactos mais frequentes mencionados. Para muitas comunidades, as alterações já estão afetando a própria capacidade de aplicar o conhecimento tradicional.
"Havia pequenos sinais, como observar as formigas para saber quando iria chover, mas as pessoas já não podem confiar no conhecimento tradicional porque ele se baseava em padrões, em algo que acontecia todos os anos", relatou um representante do povo Wapichan, da Guiana. "Agora esses padrões desapareceram."
A erosão não é apenas climática. Sem reconhecimento legal de seus direitos territoriais, comunidades indígenas ficam expostas à grilagem e à invasão por projetos extrativistas. Pesquisas anteriores indicam que os povos indígenas e comunidades locais administram tradicionalmente pelo menos metade das terras naturais do planeta, mas seus direitos estão formalmente reconhecidos em apenas 19% desses territórios. A lacuna entre o que é gerido e o que é protegido juridicamente deixa a maior parte dessas terras vulnerável.
O financiamento segue a mesma lógica torta. Existe um consenso crescente, no plano internacional, sobre a necessidade de apoiar a conservação liderada por povos indígenas — mas os recursos raramente chegam diretamente às organizações indígenas. O dinheiro tende a circular entre governos e grandes ONGs, chegando às comunidades, quando chega, já filtrado por camadas de intermediação.
"O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo e, ainda assim, por muito tempo foi ignorado, minimizado ou relegado ao segundo plano", diz Johnson Cerda, coautor do estudo e responsável pelo trabalho da Conservation International com povos indígenas e comunidades locais. "Com este estudo, os povos indígenas levantam suas vozes e compartilham suas experiências. Esperamos que formuladores de políticas públicas, em nível nacional e internacional, invistam nesse conhecimento e incorporem essas práticas em suas decisões."
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