Safra vê Hapvida mais exposta ao fim da escala 6X1 e Rede D'Or mais protegida
A possível aprovação no Senado da a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas deve ter efeitos distintos entre as empresas de saúde listadas na Bolsa de Valores.
Segundo análise do Banco Safra, a Hapvida (HAPV3) é a companhia mais exposta aos impactos operacionais da proposta, enquanto a Rede D'Or (RDOR3) aparece como a mais bem posicionada para absorver os custos adicionais sem comprometer sua rentabilidade.
O banco estima que o impacto líquido sobre o Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) das empresas sob sua cobertura varie entre 0,5% e 4,6%, um efeito considerado administrável.
Apesar da pressão adicional sobre os custos trabalhistas, os analistas afirmam não enxergar mudanças que alterem as teses de investimento do setor e mantiveram inalteradas todas as recomendações e preços-alvo.
"A RDOR continua sendo nossa principal escolha devido à menor exposição relativa, enquanto a HAPV se destaca como a empresa mais exposta operacionalmente", escreveram os analistas.
Efeitos sobre Oncoclínicas, Fleury e Qualicorp
A diferença entre as companhias está relacionada principalmente à capacidade de absorver custos e repassá-los aos clientes. No caso da Rede D'Or, o Safra destaca a ampla utilização do regime 12x36 nas operações hospitalares, o poder de precificação junto às operadoras de saúde e a capacidade financeira para atravessar períodos de pressão inflacionária sobre os custos.
Já a Hapvida apresenta a maior relação entre despesas com pessoal e Ebitda entre as empresas analisadas, de 1,47 vez, o que amplia sua sensibilidade a mudanças na legislação trabalhista. O banco ressalta, contudo, que esse é apenas um dos fatores observados dentro de uma dinâmica operacional mais ampla.
Além da Hapvida, o relatório aponta que a Oncoclínicas apresenta o maior impacto projetado na tabela de sensibilidade elaborada pelo banco, refletindo uma combinação de maior exposição relativa e menor flexibilidade para reajustar preços.
Por outro lado, Fleury, Dasa e Mater Dei aparecem em posição intermediária e, segundo os analistas, possuem condições de absorver a mudança ao longo do período de transição graças ao poder de precificação, ao modelo de negócios e à capacidade financeira.
A Qualicorp registrou o menor impacto absoluto em razão do quadro de funcionários mais enxuto após sua reestruturação e da predominância de jornadas 5x2.
A avaliação ocorre em um momento em que a PEC 221/19 avança no Congresso. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 27 de maio, com ampla maioria em duas votações — 472 votos a 22 na primeira e 461 a 19 na segunda — e agora deve ser análisado pelo Senado.
A proposta prevê uma transição em duas etapas. A primeira começa 60 dias após a promulgação e determina o fim estrutural da escala 6x1, reduzindo a jornada semanal de 44 para 42 horas e garantindo dois dias de descanso por semana. A segunda fase ocorre 12 meses depois, quando a carga horária cairá para 40 horas semanais. No total, o período de adaptação será de 14 meses.
Escala 12X36 preserva o setor de saúde, diz o Safra
Para o setor de saúde, um dos principais fatores de mitigação está na preservação da escala 12x36 por meio de convenções coletivas. Segundo o Safra, grande parte das funções assistenciais — como técnicos de enfermagem, equipes de pronto-socorro e profissionais de UTI — já opera nesse modelo e, portanto, não seria diretamente afetada pelas novas regras.
"O impacto parece administrável e esperamos que as empresas encontrem maneiras de mitigar o efeito por meio da reorganização dos horários, repasse gradual dos preços e ajustes operacionais", afirma.
O banco destaca ainda que a estimativa representa um cenário conservador, pois considera a necessidade de ampliar quadros de funcionários para compensar a redução da jornada.
Na prática, as empresas contam com alternativas para reduzir o efeito financeiro, incluindo a migração de parte dos trabalhadores para escalas 12x36, uso de banco de horas, horas extras, ganhos de produtividade por automação e renegociação gradual de contratos com operadoras e clientes corporativos.
Mesmo no cenário mais conservador modelado pelo Safra — em que as empresas conseguem repassar apenas 25% do aumento de custos aos clientes — o impacto líquido sobre o Ebitda permanece abaixo de 3,5% para todas as companhias analisadas. Em um cenário de repasse de 75%, o efeito cai para cerca de 1% ou menos.
Entre os riscos apontados pelos analistas estão eventuais mudanças no texto durante a tramitação no Senado, atrasos no calendário legislativo e o repasse de custos por fornecedores terceirizados.
No caso da Hapvida, por exemplo, o relatório destaca a existência de cerca de 52 mil trabalhadores terceirizados em áreas como limpeza, segurança, alimentação e logística, cujos reajustes contratuais podem gerar pressão adicional sobre as despesas operacionais ao longo do tempo.
"As empresas com negociações ativas do CCT em 2026 devem ser as primeiras a aproveitar a oportunidade de migração, enquanto outras podem enfrentar um período de transição mais longo. As premissas de repasse também acarretam riscos de execução, uma vez que o momento e a magnitude dos ajustes de preço por meio de renegociações de contratos B2B variam de acordo com a empresa e o canal", finaliza o banco.
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