Saúde mental vira obrigação nas empresas — e cria novo mercado bilionário no RH
A saúde mental deixou de ser um tema interno de RH e passou a ser uma exigência formal para as empresas no Brasil.
A atualização da NR-1, norma do Ministério do Trabalho, passa a exigir que companhias mapeiem riscos psicossociais a partir de 2026. A mudança atinge empresas de todos os tamanhos, inclusive aquelas com poucos funcionários.
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É nesse cenário que a startup Talentflix lança uma plataforma voltada à gestão desses riscos. A empresa, criada em 2022, começou como uma consultoria de recrutamento por assinatura e, nos últimos anos, passou por uma mudança de modelo até chegar ao formato atual de produto digital com apoio consultivo.
A nova frente surge após a entrada de Eduardo Alba, ex-executivo da Nestlé, que assumiu a área de tecnologia em 2025. “A gente quer fugir de colocar IA por colocar”, afirma Alba.
O lançamento também acontece após dois anos de crescimento da empresa, que já havia ampliado sua atuação para desenvolvimento organizacional e treinamento de equipes.
“A gente não só faz o diagnóstico e traz os dados automatizados — a gente tem um complemento de gestão muito forte”, afirma Ana Piccardo, sócia da Talentflix.
A empresa agora aposta na nova exigência regulatória como ponto de entrada para ampliar sua atuação em tecnologia para RH.
O que muda com a nova NR-1
A NR-1 já tratava de riscos no ambiente de trabalho, mas passou a incluir de forma explícita os riscos psicossociais.
Isso envolve fatores como carga de trabalho, pressão, relações entre equipes e organização da jornada.
A atualização ocorre em um momento de aumento de afastamentos por transtornos mentais. Em 2025, foram mais de 500 mil casos no país, segundo dados citados pela empresa.
“O Ministério do Trabalho olhou para isso, viu o quanto o ambiente de trabalho influencia na saúde mental”, afirma Piccardo.
A exigência passa a valer para empresas a partir de um funcionário.
“A NR-1 cria uma obrigação clara para as empresas. Não é mais opcional olhar para saúde mental. A gente desenvolveu a plataforma para transformar esse diagnóstico em ação prática dentro das organizações”, afirma o sócio Alexandre Abreu.
Como funciona a plataforma
O produto da Talentflix foi estruturado em quatro etapas.
A primeira é uma pesquisa aplicada a todos os colaboradores. O objetivo é mapear riscos psicossociais dentro da empresa.
Em seguida, a plataforma gera um diagnóstico com base nas respostas. Os dados são organizados por área, função e tipo de risco.
O sistema apresenta essas informações em relatórios e mapas que mostram onde estão os principais pontos de atenção.
A terceira etapa é a geração automática do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documento exigido pela legislação.
Antes de ser finalizado, o material passa por revisão de psicólogos da equipe da empresa.
Por fim, a plataforma sugere planos de ação com base nos riscos identificados.
Entre as medidas estão ajustes de jornada, pausas durante o trabalho e campanhas internas.
A empresa também permite que o cliente inclua ações próprias.
Base técnica e desenvolvimento
A plataforma foi construída a partir da experiência da Talentflix com mais de 100 clientes ao longo dos últimos anos.
O modelo utiliza referências como a ISO 45003 e o COPSOQ, questionário voltado à avaliação de riscos psicossociais.
O produto começou a ser desenvolvido em agosto de 2025, com participação de lideranças de RH convidadas para testar a solução.
Testes e primeiros contratos
Os testes foram realizados com empresas piloto no fim de 2025.
Segundo a Talentflix, a taxa de adesão às pesquisas ficou acima de 90%. A média de mercado para esse tipo de levantamento gira em torno de 60%.
Um dos testes envolveu uma empresa do setor de educação com mais de 30 mil colaboradores.
Entre os primeiros clientes estão a Havanna e um banco americano com operação em São Paulo.
Do recrutamento à tecnologia
A Talentflix começou como uma empresa focada em recrutamento por assinatura.
O modelo combinava automação com análise de recrutadores para seleção de candidatos.
Ao longo de 2024, a empresa ampliou a atuação para desenvolvimento organizacional, com treinamentos e programas para equipes.
A mudança mais recente foi a criação de uma área de tecnologia própria, com foco em produtos digitais.
A empresa passou a operar como uma plataforma com apoio consultivo, modelo que chama internamente de combinação entre software e serviço.
Captação e estrutura
Para sustentar essa mudança, a Talentflix abriu uma rodada de captação de R$ 500 mil no início de 2026.
Metade do valor já foi levantada, segundo a empresa. O objetivo é financiar o desenvolvimento do produto, ampliar o time e investir em infraestrutura.
A companhia também foi selecionada para o programa Google for Startups, que oferece créditos para uso de serviços de nuvem.
Esses créditos cobrem parte relevante dos custos operacionais da plataforma.
O que vem pela frente
A plataforma de saúde mental é o primeiro módulo de um sistema mais amplo.
O plano da empresa prevê novos produtos ao longo dos próximos anos.
Entre eles estão ferramentas de clima organizacional, engajamento, gestão de desempenho e desenvolvimento de carreira.
O cronograma inclui lançamentos ao longo de 2026 e 2028.
A estratégia é ampliar o uso da plataforma dentro das empresas a partir da entrada pela exigência da NR-1.
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