Se terceira via for ao 2º turno, ganha de Lula com 10 pontos de folga, diz fundador do Futura
O principal desafio de nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não é derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, mas chegar até ele.
Essa é a avaliação de José Luiz Orrico, fundador e diretor do Instituto Futura Inteligência, sobre o cenário eleitoral.
"Quem for para o segundo turno contra Lula ou Flávio ganha com folga. No mínimo com 10 pontos de diferença. Essa é a minha opinião", afirma Orrico em entrevista à EXAME.
Para o pesquisador, a disputa presidencial de 2026 pode mudar completamente caso um nome competitivo da terceira via consiga romper a polarização entre lulismo e bolsonarismo.
Apesar da aposta em uma candidatura alternativa, Orrico reconhece que os principais nomes da centro-direita ainda enfrentam um obstáculo relevante: o desconhecimento do eleitor.
Ainda assim, Orrico sustenta que um candidato competitivo fora da polarização mudaria completamente a dinâmica da disputa.
"Se tiver um candidato que apareça no início do processo eleitoral com mais de 15%, a probabilidade de ele ir para o segundo turno é muito grande. E a probabilidade de ele vencer a eleição é enorme", afirma.
Para Orrico, no momento, a eleição ainda ocorre em um ambiente dominado pelo conhecimento dos dois principais polos políticos do país.
Na avaliação do fundador da Futura, a disputa de 2026 pode repetir uma característica observada na eleição presidencial de 2022: o voto motivado pela rejeição ao adversário.
Segundo ele, Lula e Flávio Bolsonaro (PL) carregam índices elevados de rejeição e, por isso, a escolha do eleitor tende a ser menos influenciada pela identificação com um candidato e mais pela tentativa de impedir a vitória do outro lado.
"Como eles têm rejeição muito alta, será uma eleição em que os eleitores vão escolher alguém porque querem aquele candidato. Vão escolher alguém porque não querem que o outro seja presidente da República", afirma.
Segundo Orrico, esse ambiente abre espaço para uma candidatura alternativa.
"O maior grupo de eleitores hoje é o que gostaria de ter outro candidato", diz.
Embora considere que o cenário mais provável hoje ainda seja uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, Orrico avalia que a candidatura do senador atravessa um momento de fragilidade.
Reportagem do The Intercept Brasil mostrou que o senador pediu recursos a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, longa-metragem sobre Jair Bolsonaro. Flávio negou irregularidades e afirmou que a iniciativa tinha caráter privado.
Para o pesquisador, o episódio contribuiu para ampliar a rejeição ao parlamentar.
"A questão do Flávio com o Banco Master fez essa rejeição aumentar muito", afirma.
Orrico também considera que a candidatura do senador apresenta vulnerabilidades diferentes das observadas em Jair Bolsonaro.
"O Jair era um candidato muito mais forte do que o filho. O Jair topa um embate e vai para o embate. O Flávio parece ter uma personalidade mais frágil", diz.
Leia a entrevista completa
Por que você considera que a eleição de 2026 pode ser a mais confusa desde a redemocratização?
Trabalhando com esses dois nomes que lideram hoje, a primeira coisa que vemos é o seguinte: eles têm um teto que não é alto. Considerando uma eleição em que o candidato precisa ter mais de 50% dos votos, os dois têm um teto difícil de ultrapassar os 50%, porque a rejeição deles é muito alta. Então, como em 2022, nós vamos ter uma eleição em que o que vai definir o voto de boa parte do eleitorado não é em quem eu quero votar; é em quem eu não quero votar. Você tem dois candidatos com rejeição acima de 40% e nenhum outro nome que apareça para o eleitor com viabilidade.
O que falta para uma candidatura de terceira via se tornar competitiva?
Nós dividimos o eleitor em três grupos: o voto em Lula, o voto em Flávio e um terceiro grupo que gostaria de ter outro candidato. Qual é o maior grupo? É o que gostaria de ter outro candidato. O problema é que o eleitor está longe da eleição. Ele sabe que tem dois candidatos, mas não sabe que existem outros. Quando você olha o nível de conhecimento de Caiado ou Zema, ele ainda é muito baixo. Era preciso que eles passassem a ser conhecidos e que as pessoas soubessem o que eles já fizeram e o que pretendem fazer.
Uma terceira via venceria Lula ou Flávio Bolsonaro no segundo turno?
Quem for para o segundo turno contra Lula ou Flávio ganha com folga. No mínimo com 10 pontos de diferença. Essa é a minha opinião. Se o Caiado for para o segundo turno, a não ser que apareça um escândalo enorme, ele vence. Porque hoje, quando a gente faz teste de segundo turno, ele não ganha porque não é conhecido. O eleitor pensa: “Vou votar num cara que ninguém conhece? Que não tem voto?” O segundo turno é sempre outra eleição. Qualquer candidato que chegue lá terá tempo suficiente para se apresentar ao eleitor.
Uma união entre Ronaldo Caiado e Romeu Zema pode mudar a eleição?
O resto da direita está começando a pensar que pode perder com o Flávio. Então está começando a se movimentar. Se você conseguir um movimento entre Zema e Caiado, puxando Republicanos, PP, União e essa turma toda que não quer perder a eleição, você pode ter um fato novo. Eu acho que caminha mais para ser um Caiado. Evidentemente, não tenho certeza. Em política, você não pode garantir nada. Mas eu acho que o Caiado pode virar candidato e o Zema desistir. Se isso ocorrer, e os dois somados hoje têm aí 8%, 9%, você já teria um fato novo de impacto. Poderia colocar o Caiado acima dos 10%. E aí, a eleição deixa de ser tão nebulosa como está agora. Passa a ficar mais clara.
O encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump ajuda a candidatura?
A minha impressão, minha impressão mesmo. É sensação. Não é avaliação baseada em dado. É que aquela foto diminui o Flávio. Na melhor das hipóteses, não vai ajudar. Mas pode, dependendo de como as pessoas interpretem, até ser ruim. Eu não acredito que esse encontro com Trump vá ajudar. Em termos de imagem, não acredito. Eu já fiz muita pesquisa qualitativa na vida. Tenho certeza absoluta de que aquilo passa uma imagem de inferioridade.
O que pode definir a eleição de 2026?
A primeira pergunta que eu faço é: a terceira via vai crescer? Essa é uma dúvida. A segunda dúvida: vai aparecer mais alguma coisa contra o Flávio? Porque pode aparecer alguma coisa contra o Lula também. Mas, mais do que aparecer, isso não vai piorar a imagem dele. A imagem dele está cristalizada. Não acho que exista um único fator. Podem existir vários. Agora, tenho certeza de que, se um nome novo aparecer, e estou chamando de nome novo a terceira via, com viabilidade, ele vai balançar a eleição de forma muito forte.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: