'Se você se apoia demais na IA, para de usar a própria criatividade', diz criador do PDF

Por Juliana Pio 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Se você se apoia demais na IA, para de usar a própria criatividade', diz criador do PDF

AUSTIN - A popularização da inteligência artificial trouxe uma nova pergunta para o trabalho criativo: o que acontece com a imaginação quando a tecnologia passa a oferecer respostas antes mesmo de o pensamento se formar? Essa foi a provocação que abriu o painel “Prosperar ou Sobreviver: por que a criatividade é a chave para um futuro com IA”, realizado nesta quinta-feira, 12, no SXSW 2026.

A conversa reuniu Mike Pell, criador do PDF e do Acrobat da Adobe e atual líder da Microsoft Garage, programa de inovação da empresa, além da jurista Ifeoma Ajunwa, pesquisadora de ética, regulação e futuro do trabalho, e de Ned Johnson, educador e autor dedicado ao desenvolvimento de jovens.

No debate, os participantes discutiram um dilema cada vez mais presente: a IA amplia o repertório e expande a criatividade humana ou reduz nossa capacidade de pensar sem ajuda da máquina?

A mediação foi de Andrea Bergman, que abriu o encontro com um relato pessoal sobre sua relação com a criatividade desde a popularização da IA. O ponto não era tratar a tecnologia como ameaça em si, mas prestar atenção a um desconforto que, em sua visão, também já aparece no cotidiano de outras pessoas: a dificuldade crescente de começar algo do zero.

“Se a IA ficasse indisponível de repente hoje, seria mais difícil começar do zero agora do que era há três anos?”, perguntou. Em seguida, ela mesma respondeu: “Para mim, sim”.

Antes da IA, abrir uma página em branco significava enfrentar um processo de tentativa, erro, frustração e insistência até que as ideias começassem a fluir. Agora, com ferramentas que oferecem um ponto de partida imediato, esse atrito diminuiu. O risco é que a facilidade elimine justamente o esforço que ajuda a formar pensamento original. “Eu quis fazer o trabalho difícil”, disse ela, ao explicar por que montou o painel sem recorrer à IA para organizar o conteúdo da conversa.

A metáfora central do encontro foi a da bicicleta. Na leitura da mediadora, adultos ainda conseguem “voltar a pedalar” porque desenvolveram a criatividade antes da chegada da IA. Já as crianças podem crescer em outra lógica: aprendendo desde o início em uma bicicleta com motor, rodinhas permanentes e GPS embutido. Ou seja, sem tropeço, sem exploração e sem a experiência de errar para encontrar um caminho próprio. “Elas nunca aprendem desde o começo.”

Mike Pell, que trabalha com IA diariamente, reconheceu o potencial da tecnologia como instrumento de expansão de repertório. “A máquina vai pensar em coisas em que eu nunca teria pensado”, disse. Para ele, esse pode ser um uso valioso da ferramenta.

O problema, afirmou, surge quando ela passa a substituir o impulso criativo individual. “Se você se apoia demais nela, para de usar a própria criatividade.” Na visão de Pell, a inversão desse hábito deveria ser um princípio.

“Em vez de recorrer à IA de forma inicial e automática, deveríamos recorrer primeiro a nós mesmos.”

Ao longo do painel, ele sustentou que a tecnologia pode ajudar a explorar ideias, mas não deveria encurtar todo o caminho até a resposta final. Defendeu também que os próprios produtos sejam desenhados com mais fricção, mais perguntas e menos automatismo.

Para o executivo, que é detentor de mais de 20 patentes nos EUA, sistemas que apenas entregam a resposta mais rápida reforçam um comportamento que empobrece o raciocínio.

“Esse impulso de ‘só preciso da resposta, estou com pressa, me entregue logo’ não vai terminar bem para ninguém", disse Mike Pell

As habilidades essenciais

A discussão avançou então para o tema do trabalho. Ifeoma Ajunwa afirmou que o cenário mais provável não é o desaparecimento puro e simples da presença humana, mas uma reorganização das atividades ao lado da IA. Nesse contexto, ganham peso competências que durante anos foram tratadas como secundárias.

“Elas são, na verdade, habilidades essenciais”, afirmou, ao citar pensamento crítico, gestão do tempo, liderança e capacidade de motivar pessoas. Na avaliação da pesquisadora, a lógica de formação estática perdeu força.

“Precisamos pensar em nós mesmos como pessoas que estão sempre adquirindo habilidades.”

Ajunwa também criticou a expansão de métricas sobre comportamento humano nas empresas. Para ela, o mercado avançou da mensuração de tarefas para uma tentativa mais ampla de quantificar indivíduos.

“Devemos parar de tentar quantificar essas coisas”, disse. Em vez de buscar transformar criatividade, valor ou potencial humano em indicadores rígidos, defendeu ambientes de trabalho capazes de acomodar diferentes estilos de contribuição. “Todos nós temos capacidades diferentes, propensões diferentes e expressões criativas diferentes.”

O desafio da regulação

Na área regulatória, a transformação tecnológica avança sem uma estrutura pública proporcional. “Não existem diretrizes, não existem políticas, não existem leis abrangentes” para regular a revolução da IA, disse Ajunwa. Para ela, não basta manter uma pessoa supervisionando sistemas complexos.

“Você precisa da sociedade nisso. Você precisa de políticas públicas.”

Ao defender ação governamental mais ampla, a pesquisadora comparou o momento atual a outros ciclos de regulação em setores como o automotivo e o financeiro, nos quais regras de proteção ao consumidor acabaram fortalecendo a confiança e ampliando a adoção.

IA e formação dos jovens

O educador Ned Johnson levou o debate para a infância, a adolescência e a formação emocional. Segundo ele, a discussão sobre IA não pode ser guiada apenas pela ideia de produtividade.

“Não me interessa que os jovens desenvolvam apenas eficiência computacional. Interessa que eles desenvolvam resiliência.”

Johnson disse que cérebros em desenvolvimento são mais maleáveis, mas também mais vulneráveis, o que exige cautela diante de ferramentas poderosas e de adoção acelerada.

Na leitura do autor, enfrentar dificuldade é parte do desenvolvimento humano e não pode ser terceirizado sem custo. “Você só aprende a lidar com coisas difíceis lidando com coisas difíceis.”

O risco, para ele, é que a IA funcione como uma versão tecnológica do chamado “helicopter parent”, expressão usada para descrever pais que intervêm o tempo todo para evitar que os filhos enfrentem dificuldades. Nesse caso, a tecnologia facilitaria tanto o caminho que acabaria impedindo o desenvolvimento de autonomia, tolerância ao erro e motivação própria.

Onde nasce a motivação

Johnson também relacionou autonomia com saúde mental. Para ele, a motivação depende de três necessidades psicológicas: competência, autonomia e vínculo. Quando essas dimensões se enfraquecem, aumentam os riscos de ansiedade, depressão e outros quadros.

“Uma mente saudável é uma mente motivada”, resumiu. Em outro momento, reforçou que o objetivo da educação não pode ser apenas maximizar produtividade ou desempenho.

“O resultado mais importante do ensino médio não é a faculdade em que você entra. É o cérebro e o caráter que você desenvolve.”

Ao falar sobre o que pais, educadores e empresas podem fazer desde já, Johnson foi objetivo. Para crianças pequenas, o elemento central é o brincar. “Brincar. Ponto final”, disse. Para adolescentes, defendeu espaço para a busca intensa de interesses próprios, aquilo que chamou de “perseguição apaixonada das paixões”. Pode ser esporte, música, escalada, programação ou qualquer outra atividade que faça o tempo passar sem que a pessoa perceba. Esse tipo de experiência ajuda a formar autonomia, senso de direção e motivação intrínseca.

A criatividade, segundo os participantes, não nasce apenas da aceleração. Ela depende também de pausas, divagação e tempo mental disponível. Antes de pensar em como fazer algo, é preciso ter espaço para refletir sobre o que realmente importa. Nesse ponto, o debate convergiu para uma crítica ao ambiente digital atual, em que a tecnologia ocupa todos os intervalos livres e empurra o usuário para a próxima tarefa sem dar tempo para elaboração.

O diferencial humano

O tema da competitividade em um mercado cada vez mais permeado por IA também apareceu na discussão. A questão era se ainda faz sentido competir sem recorrer integralmente à tecnologia. Para Johnson, a resposta não está em decisões individuais, mas em mudanças mais amplas nas estruturas de educação e trabalho, semelhantes às discussões que surgiram com a expansão das redes sociais.

Pell, da Microsoft, acrescentou que, mesmo em um ambiente em que a IA se torna ferramenta padrão, a produção humana tende a se destacar. “O que sai de um ser humano sempre vai ser mais interessante do que algo que apenas regurgita informação escrita por IA”, afirmou. “Acho que você fica mais competitivo quando escreve por conta própria.”

A conversa terminou retomando a ideia que atravessou o painel desde o início: criatividade não é um talento restrito a poucos, mas uma capacidade que precisa ser exercitada. Em um festival historicamente dedicado a novas tecnologias, ficou o lembrete de que a IA pode ampliar possibilidades, mas não substitui o esforço mental que sustenta ideias originais. “O que nos torna especiais é a nossa capacidade de gerar pensamento original”, disse Andrea.

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