Sem árvores, cidades seriam duas vezes mais quentes, diz estudo global

Por Letícia Ozório 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Sem árvores, cidades seriam duas vezes mais quentes, diz estudo global

O ar-condicionado mais eficiente das cidades não está nos edifícios. Está nas calçadas — ou melhor, no que cresce dentro delas.

Um estudo inédito publicado na revista Nature Communications, liderado pela The Nature Conservancy (TNC), revelou que as árvores urbanas são responsáveis por mitigar quase metade do efeito de ilha de calor nas cidades: sem elas, as temperaturas nas áreas urbanas seriam duas vezes mais altas do que são hoje.

A pesquisa analisou dados de quase 9.000 grandes cidades ao redor do mundo, que juntas abrigam cerca de 3,6 bilhões de pessoas. O resultado é que a cobertura arbórea atual neutraliza aproximadamente 48,6% do chamado efeito de ilha de calor urbana — fenômeno que ocorre quando superfícies artificiais como asfalto, concreto e estacionamentos absorvem e liberam calor, fazendo com que áreas urbanas aqueçam muito mais do que as regiões rurais ao redor.

Mais de 200 milhões de moradores urbanos no mundo vivem em bairros onde as árvores já reduzem a temperatura do ar em pelo menos 0,5°C. O número parece pequeno isolado, mas quando extrapolado para milhares de cidades e bilhões de pessoas — em um cenário de temperaturas globais cada vez mais extremas — representa uma diferença concreta entre conforto e risco à saúde.

O resfriamento está no lugar errado

O estudo traz um dado que deveria preocupar gestores públicos e empresas com compromissos ESG: o efeito refrescante das árvores está concentrado justamente onde a necessidade é menor. Países de alta renda, climas úmidos e bairros suburbanos concentram a maior parte da cobertura arbórea urbana — enquanto as comunidades mais vulneráveis, em regiões densamente povoadas e de baixa renda, ficam com menos sombra e mais calor.

"É cada vez mais comum vermos diferenças gritantes de temperatura entre bairros da mesma cidade, causadas pela quantidade desigual de cobertura arbórea", afirmou Johnny Quispe, diretor de programas urbanos da TNC. "Os impactos do calor extremo costumam afetar as comunidades mais vulneráveis. Investir em arborização urbana resulta em ruas mais frescas, ar mais limpo e comunidades mais resilientes para todos."

O que isso significa para 2050

A pesquisa também traz um alerta sobre os limites dessa solução natural. A cobertura arbórea atual e futura será capaz de mitigar apenas entre 9% e 10% do aumento de temperatura projetado pelas mudanças climáticas até 2050. Mesmo no cenário de plantio mais ambicioso possível, esse percentual sobe para cerca de 20% — o que significa que 80% do aquecimento previsto não será compensado por árvores.

"Embora expandir a cobertura arbórea seja essencial para a adaptação ao aumento das temperaturas, nosso estudo sugere que as árvores por si só não serão suficientes", disse Rob McDonald, cientista-chefe global da TNC. "A humanidade precisará usar múltiplas estratégias para se adaptar a um mundo mais quente, e precisamos desesperadamente reduzir a poluição por gases de efeito estufa para evitar temperaturas catastróficas."

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