Sem Buffett, a 'Woodstock do Capitalismo' pode virar só mais um 'Investor Day'
São pouco mais de 4 da manhã em Omaha, Nebraska, e a temperatura está próxima de zero grau. Um grupo de pessoas bem agasalhadas faz fila em frente à entrada da maior arena de eventos coberta da cidade, o CHI Health Center. É uma cena que se repete todos os anos no primeiro sábado do mês de maio. Alguns estão ali há horas para garantir um bom assento no evento do dia: o encontro anual de acionistas da Berkshire Hathaway, o veículo de investimentos de Warren Buffett. “É como se fosse uma festa. Este é o quinto ano que eu venho, e é sempre bom. Às vezes consigo encontrar pessoas que vi nos anos anteriores”, diz um analista de investimentos que veio do Canadá, um dos primeiros da fila. Ele chegou às 2 da madrugada no local. Quanto mais cedo, maiores são as chances de se sentar próximo do palco da convenção e das celebridades do mundo corporativo, que ficam em uma área reservada com o alto escalão da Berkshire. Neste ano, quem conseguiu um bom lugar teve a chance de tirar fotos com Tim Cook, CEO da Apple. E também ficou a poucos metros do próprio Buffett, que, pela primeira vez em mais de 60 anos do evento, participou da plateia, agora como chairman da companhia.
A importância do megainvestidor no encontro de investidores mudou — e o apelo do evento, também. Em 2025, a Berkshire Hathaway recebeu pedidos de credenciamento de 38.000 acionistas. A empresa não informou o número de frequentadores no evento deste ano, mas quem estava lá notava uma grande quantidade de assentos vazios na arena, que tem capacidade para comportar 19.000 pessoas em ocasiões desse tipo. “Levei um choque pela queda de espectadores ter sido tão grande. A minha impressão é de ter caído mais da metade”, afirmou Pedro Gonzaga, sócio e analista da Mantaro Capital, gestora de renda variável do Rio de Janeiro, em sua nona vez em Omaha para a convenção. “Os eventos anteriores ao encontro e a cidade estavam menos cheios.”
Warren Buffett: aposentado da função de CEO, “Oráculo” de Omaha deixa decisões de investimentos nas mãos de Greg Abel (Johannes Eisele/AFP/Getty Images)
O encontro de acionistas da Berkshire Hathaway ganhou o apelido de “Woodstock dos -Capitalistas” do próprio -Warren Buffett, em uma carta aos acionistas, no final da década de 1990. O evento começou a ganhar proporções gigantescas quando a empresa lançou uma nova classe de ações por menos de um milésimo do preço do papel original, e que ficaram conhecidas como “Baby Berks”. Os encontros, antes restritos aos bolsos maiores, passaram a contar com a adesão crescente do investidor do varejo. A agência oficial de turismo de Omaha estima que a conferência é responsável por injetar 21 milhões de dólares na cidade em quatro dias. É um dos eventos de maior impacto na economia local, ao lado da College World Series, as finais do campeonato universitário de beisebol, que movimentam 88 milhões de dólares em 12 dias.
Assistir a dois homens em idade avançada respondendo ao questionamento de investidores por horas a fio virou um espetáculo. “Buffett e -Charlie Munger respondiam entre 50 e 60 perguntas dos acionistas”, lembra David Kass, professor de finanças da Universidade de Maryland, que estuda há décadas a filosofia de investimento de Buffett — o value investing. “E o que podia ser respondido em 30 segundos Buffett levava 3 minutos, contando histórias pessoais e lançando alguma piada no meio.” Munger faleceu em 2023, e o “Oráculo” de Omaha segurou o ato “sozinho” por mais dois encontros. Em 2025, anunciou a passagem de bastão do cargo de CEO para Greg Abel. O canadense veio de uma das investidas da Berkshire no setor de energia e nos últimos sete anos supervisionou todos os negócios do portfólio da empresa fora da área de seguros. O encontro de acionistas de 2026 foi sua estreia como anfitrião.
Na avaliação de quem estava lá, o sucessor de Buffett também deu show. De competência. Mas faltou o entretenimento que a dupla de nonagenários nunca deixou de entregar. “Greg não é um comediante. A personalidade dele é típica de um CEO como o das outras companhias. O tom do encontro foi mais informativo, sobre o negócio em si”, afirma o professor Kass, frequentador da conferência há 20 anos. Isso não quer dizer que a Berkshire não esteja em boas mãos, pelo contrário. Está com alguém mais hands on. “O Warren Buffett tinha um estilo mais hands off. Ele delegava mais e não se importava tanto com a operação. Isso ficava para os executivos das empresas; ele focava mais a alocação de capital, a aplicação de lucros que eram enviados para a Berkshire Hathaway. O Greg me parece alguém que fica mais em cima da operação. E acho que isso é uma coisa boa”, avalia Tiago Reis, fundador da Suno Research, que também estava na plateia do encontro deste ano.
O professor David Kass também acredita que Abel vai dar mais diversificação ao portfólio da Berkshire. Atualmente, mais de 70% da carteira está concentrada em cinco nomes (veja quadro na página acima). “Buffett sempre preferiu investir em negócios que ele entendia, o que o afastou de indústrias que estão conduzindo o crescimento econômico hoje, como a da tecnologia”, afirma Kass. A Apple continua sendo a maior posição da Berkshire, e Tim Cook foi exaltado pelo próprio Buffett no encontro de acionistas, graças ao retorno de dezenas de bilhões de dólares que a fabricante do iPhone deu à companhia. Mas a parte tech da carteira não vai muito além disso. No portfólio mais recente, já sob a gestão de Abel, a Alphabet, dona do Google, quase triplicou de tamanho, passando de 2% para 5,9%. Por outro lado, a posição em Amazon foi zerada.
Acionistas da Berkshire: filas menores para garantir um lugar próximo às celebridades do mundo corporativo (Mitchel Diniz/Exame)
“Dois anos atrás, quando questionado por um acionista sobre a inteligência artificial, Buffett falou apenas do seu lado negativo. Abel é muito mais conectado a novas tecnologias e acredito que ele vá investir em mais companhias do setor. Quem sabe até comprará uma”, diz Kass. Dinheiro para isso não falta. O caixa da Berkshire Hathaway terminou o primeiro trimestre de 2026 em 397,4 bilhões de dólares. Nenhuma outra empresa no mundo tem tanto dinheiro disponível assim. Daria para comprar três Petrobras com esses recursos. Mas a Berkshire não se mostra muito entusiasmada com aquisições no momento. No primeiro trimestre, foi vendedora líquida de ações e aumentou a exposição em T-Bills, títulos do Tesouro americano que atualmente não rendem mais do que 5% ao ano. Nada de dividendos nem recompras no radar.
Historicamente, a empresa vai às compras em momentos de crise, quando empresas de boa qualidade ficam extremamente baratas, seguindo à risca a cartilha do value investing. Não à toa, o caixa da Berkshire praticamente secou em 2008 com a crise do subprime. Foi inclusive nesse período que a companhia adquiriu a operadora de ferrovias BNSF Railway, um dos principais destaques do seu portfólio de empresas fechadas hoje. “Eu acho que eles só vão usar o caixa em uma ‘mega’ crise ou quando uma empresa que eles adoram der uma oportunidade de investimento. Não vão utilizar agora para fazer pequenas compras”, afirma Florian Bartunek, CIO da Constellation Asset Management. Ainda que uma parte dos acionistas entenda o modo de espera da Berkshire, também há quem sinta que o dinheiro da empresa está parado — tese que Abel refutou veementemente no encontro de investidores deste ano. E isso também se reflete na ação da companhia. Nas duas semanas após a conferência, as “Baby Berks” reagiram, acumulando alta de 23%. Porém, em 12 meses, o desempenho seguia negativo em mais de 3%, enquanto o S&P 500 avançava 27% no mesmo período.
Maior posição da Berkshire: a Apple gerou retorno de mais de 100 bilhões de dólares para a empresa de Buffett (Leandro Fonseca/Exame)
“A aposentadoria de Buffett certamente tirou algum ar desse balão. Mas o S&P 500 também foi bem por causa do frisson em torno da inteligência artificial. Tirando as empresas de tecnologia, poucas foram realmente bem. A maioria ficou estável e algumas até recuaram”, pondera o professor Kass. Fica no ar a dúvida de como a Berkshire Hathaway vai se sair quando Warren Buffett, próximo de completar 96 anos de idade, não estiver mais aqui. E qual será o futuro da Woodstock dos Capitalistas sem o seu headliner.
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