Sem venture capital, fintech do setor automotivo levanta R$ 1 bi e quer dobrar de tamanho
O varejo automotivo vive um paradoxo. Juros altos apertam o crédito, o consumidor parcela mais, o lojista recebe em 30, 60 ou 90 dias — mas precisa pagar fornecedores, folha e estoque à vista.
No meio desse descasamento de caixa, antecipar vendas no cartão virou instrumento de sobrevivência para oficinas, autopeças e concessionárias.
É nesse ponto que entra a Listo. Fundada em 2014, a fintech criou uma plataforma que conecta pagamentos, gestão e crédito para lojistas do setor automotivo. Hoje, atende mais de 120.000 estabelecimentos e processa cerca de 10 bilhões de reais por ano em transações.
Agora, a empresa acaba de concluir uma captação de 1 bilhão de reais por meio de um FIDC, fundo de investimento em direitos creditórios.
Do total, R$ 700 milhões são recursos novos e R$ 300 milhões representam alongamento de investidores já existentes. O dinheiro vai reforçar a carteira de antecipação de recebíveis, principal produto da casa.
“A gente enxergou no mundo da adquirência uma demanda que fazia muito sentido para nós, um ativo de super baixo risco. Esse FIDC é para antecipação de recebíveis de vendas de cartão”, afirma Olavo Cabral Netto, CEO e fundador da Listo. “Essa captação consolida aquilo que a gente vem fazendo nos últimos anos.”
Com a nova estrutura de capital, a empresa quer acelerar.
A carteira de crédito hoje soma cerca de 1,5 bilhão de reais. A meta é dobrar o tamanho da operação no curto prazo, mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo.
“A gente aposta que, com uma estrutura de capital adequada e eficiente como a que conseguimos agora, vai conseguir acelerar bastante a operação. Gostaríamos de pelo menos dobrar o tamanho”, diz.
Como funciona a Listo
A Listo começou como uma plataforma de gestão para lojistas do setor automotivo.
Primeiro atendendo oficinas mecânicas, autoescolas e despachantes. Depois, lojas de autopeças, revendas e concessionárias.
A proposta sempre foi reduzir o que o fundador chama de “fricção” na cadeia automotiva — um setor com grandes montadoras de um lado e pequenos empresários do outro.
Hoje, a empresa oferece meios de pagamento — cartão de crédito, débito e Pix — além de software de gestão e serviços financeiros integrados. O carro-chefe é a antecipação de recebíveis: o lojista vende parcelado e pode receber à vista, mediante desconto.
“O foco foi criar uma plataforma de software que ajude o lojista em todo o ciclo de vendas e compras. A gente vai plugando as soluções e serviços que mais se encaixam na realidade de cada um”, afirma Netto.
Segundo ele, a empresa decidiu concentrar esforços nesse produto por ser menos arriscado que outras linhas de crédito. “O mercado de crédito está muito mais seletivo, com um nível de risco mais alto. A gente se concentrou nesse produto, que é de super baixo risco.”
A aposta na adquirência própria
Um dos movimentos mais relevantes veio em 2020, quando a Listo decidiu internalizar a adquirência — o serviço de processamento de pagamentos com cartão. A empresa construiu tecnologia própria, em nuvem, e no ano passado foi autorizada pelo Banco Central a atuar como adquirente.
“Verticalizamos 100% da tecnologia para adquirência. Construímos nossa própria processadora, tudo nativo em nuvem, e temos as licenças próprias”, afirma.
O único item terceirizado é o terminal físico que lê o cartão. Todo o restante — captura, gateway de pagamentos, autorização e liquidação — é próprio.
A estratégia foi fugir da guerra de preços das maquininhas.
“Maquininha por maquininha é tudo igual. A diferença de taxa hoje é tão pequena que o cliente já cansou dessa discussão”, diz. “Se eu for muito caro, não tem tecnologia que sustente. Mas a gente tenta fugir da discussão de preço e mostrar como ele pode se beneficiar da plataforma de gestão.”
Crescer sem venture capital
Ao longo de sua história, a Listo já captou quase 3 bilhões para funding da carteira de crédito. Mas nunca levantou rodada de venture capital para a empresa.
“Sempre fizemos com capital próprio. Nunca fizemos nenhuma rodada na companhia. Sempre tivemos um viés muito conservador na alocação de capital”, afirma o fundador.
A combinação de disciplina financeira e foco em um produto considerado de baixo risco ajudou na captação atual, mesmo em um ambiente de maior seletividade por parte dos investidores institucionais.
“A conclusão dessa captação em um cenário de maior seletividade reforça a confiança no nosso modelo. A gente está muito confiante na capacidade de crescer o negócio, independente do cenário de mercado”, diz.
O desafio agora é escalar em um setor que ainda depende fortemente do crédito e sente a pressão dos juros. Se conseguir dobrar de tamanho, a Listo deixa de ser apenas mais uma fintech de nicho e passa a disputar espaço como infraestrutura financeira do varejo automotivo.
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