‘Sempre tem alguém vendo o seu trabalho’: os conselhos de Otaviano Costa para carreira e negócios
Não seria comum em uma entrevista de emprego (mesmo que fosse um teste para a televisão) alguém entrar na sala imitando um Robocop ou fazendo sons de milk-shake com a boca.
Mas foi exatamente assim que Otaviano Costa conseguiu algumas das oportunidades que mudaram sua vida.
Muito antes de se tornar um comunicador e ator famoso, além de sócio de empresas que movimentam cerca de R$ 700 milhões por ano, ele era apenas um jovem de Cuiabá tentando encontrar seu lugar no mundo.
"Você precisa ser cara de pau", afirmou durante palestra no Leader Shift, evento realizado pela Sólides, em Belo Horizonte, na última semana.
A frase resume boa parte da trajetória que o levou da rádio à televisão, da televisão ao empreendedorismo e, mais recentemente, aos investimentos em negócios de educação, estética, saúde e comunicação.
Mas a história está longe de ser linear.
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O aluno que falsificou boletins
Otaviano conta que, na adolescência, estava longe de ser um exemplo de disciplina.
Aluno da Escola Técnica Federal de Mato Grosso, chegou a falsificar boletins para esconder da família as notas baixas. O episódio terminou em uma grande decepção familiar.
"Meu pai chorou, minha avó chorou. Foi uma das maiores decepções da minha vida", relembra.
Preocupados com o rumo que o filho estava tomando, os pais decidiram enviá-lo para São Paulo. A condição era simples: estudar e se dedicar ao vôlei.
Na época, o sonho do jovem era jogar profissionalmente e integrar a seleção brasileira.
Após deixar Cuiabá, foi aprovado em uma peneira do Banespa, um dos principais clubes do país na época, onde treinou ao lado de nomes como Marcelo Negrão, Tande e Giovane, que posteriormente fariam parte da geração campeã olímpica de Barcelona-1992.
Mas o destino tinha outros planos para Otaviano.
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A rua que mudou tudo
Um dia, enquanto esperava o ônibus do clube Banespa, onde treinava, Otaviano viu uma movimentação diferente em um prédio na Avenida Paulista. Era a sede da Jovem Pan. Movido pela curiosidade, atravessou a rua e entrou.
"Entrei sem currículo, sem experiência e sem conhecer ninguém", disse Otaviano.
A recepcionista tentou dispensá-lo mais de uma vez. Primeiro ofereceu um adesivo da rádio. Depois perguntou se ele tinha currículo ou uma fita demo. Ele insistiu que só queria conhecer aquela TV. Começou a fazer imitações na porta da rádio, reproduzir vozes e sons e chamar a atenção de quem passava.
A movimentação começou a atrair olhares. Funcionários paravam para observar o garoto que transformou a recepção da rádio em um palco improvisado.
"Naquela época eu tinha 16 anos, eu não sabia, mas ali eu estava me vendendo", lembra.
Até que dois executivos da emissora decidiram descobrir quem era aquele jovem que fazia as pessoas rirem.
Um deles era Emílio Surita, então apresentador do Pânico. "O que você quer?", perguntou Surita.
"Eu quero um trabalho", respondeu Otaviano.
A sinceridade chamou a atenção. Os executivos o levaram para um estúdio e pediram que repetisse no microfone tudo o que estava fazendo na recepção.
"Naquele momento eu descobri por que eu tinha nascido", afirma.
Pouco tempo depois, ganhou sua primeira oportunidade na Jovem Pan e passou a apresentar o programa Pandemônio, ainda na adolescência.
"Eu não tinha currículo e nem quem me indicar, mas eu tinha muita vontade de fazer dar certo", diz. "Entre aquele microfone e a minha alma, nasceu o comunicador."
Pouco tempo depois, conquistou sua primeira oportunidade profissional no rádio e iniciou uma trajetória que o levaria à MTV, ao SBT, à Globo e, anos depois, ao empreendedorismo.
Otaviano Costa palestrando durante a segunda edição do "Leader Shift", realizado pela Sólides em Belo Horizonte, MG: "Eu me reinvento o tempo inteiro" (Leader Shift / Sólides/Divulgação)
O Robocop que entrou na MTV
A cena se repetiria alguns anos depois. Quando Otaviano soube que a MTV Brasil procurava novos vídeo jornalistas, Otaviano decidiu tentar uma vaga.
Chegou ao teste e encontrou dezenas de candidatos. Muitos já eram modelos ou tinham experiência na televisão. Ele percebeu que para se destacar, precisava chamar atenção.
Quando abriram a porta do estúdio, ele decidiu entrar imitando o Robocop.
"Para ganhar daqueles caras, eu precisava ser diferente."
O que parecia loucura funcionou. O teste abriu novas portas e consolidou sua entrada definitiva no universo da TV.
Os joelhos que ninguém vê
As oportunidades começaram a aparecer depois da passagem pela Jovem Pan e pela MTV. No início dos anos 1990, Otaviano foi contratado pelo SBT para atuar em produções da emissora e passou a trabalhar ao lado da apresentadora Angélica.
Mas a realidade estava longe do glamour que muitos imaginam. Enquanto sonhava em comandar um programa de televisão, ele passava horas escondido atrás dos cenários fazendo vozes de personagens e bonecos que apareciam nas atrações infantis.
"Eu era o Louro José da Angélica", brinca.
Durante cerca de seis meses, ficou ajoelhado atrás de uma tapadeira de cenário dando vida a personagens como Florzinha, Leãozinho e outros bonecos que interagiam com a apresentadora. O público via apenas os personagens. Ninguém sabia quem estava por trás das vozes.
"Eu fiquei de joelhos para a minha carreira. Eu fiquei de joelhos para os meus sonhos para eu poder avançar."
Na época, ele acreditava que sua dedicação passava despercebida. Mas, olhando para trás, concluiu que aquele período foi fundamental para sua formação.
"Meus líderes não estavam me vendo na minha cabeça. Eu estava atrás de uma tapadeira."
A percepção mudou anos depois. Segundo ele, aquele trabalho invisível serviu para aprender o funcionamento da televisão, observar profissionais mais experientes e entender como grandes produções eram construídas.
"Eu fazia aquilo com paixão, com respeito. Tinha mais de 50 profissionais trabalhando ao meu lado e todos estavam tentando entregar o melhor."
Foi também ali que surgiu uma das frases que mais repete em palestras e entrevistas.
"Se eu tivesse desistido aqui embaixo, eu não estaria lá em cima."
O reconhecimento viria pouco tempo depois. Além de atuar em programas da emissora, Otaviano começou a participar de quadros com Angélica, ganhou espaço como ator e passou a construir a trajetória que mais tarde o levaria à Globo, ao Vídeo Show e ao comando de programas de televisão.
Otaviano Costa, comunicador e empresário: "Sempre alguém vai estar observando suas pequenas conquistas, suas madrugadas e os momentos em que você pensa em desistir" (Leader Shift Sólides/Divulgação)
Quando quase desistiu de tudo
A maior crise viria nos anos 1990. Depois de aceitar apresentar um programa de televisão ao lado de Rodrigo Faro, viu o projeto fracassar. A produção deixou de pagar salários e desapareceu.
"As pessoas que eu convidei para o projeto olhavam para mim e perguntavam: 'E agora?'"
Como havia indicado diversos profissionais para a equipe, Otaviano decidiu usar as próprias economias para honrar os compromissos.
A decisão preservou sua reputação, mas teve um custo alto. Sem recursos, frustrado e emocionalmente abalado, voltou para Cuiabá disposto a abandonar a carreira artística.
Pela primeira vez desde que havia deixado Mato Grosso para tentar a vida em São Paulo, ele não queria mais saber de televisão. Voltou a morar perto da família, ingressou em uma faculdade de Publicidade e Propaganda, começou um relacionamento e tentou construir uma vida mais estável.
Por fora, tudo parecia estar entrando nos trilhos. Por dentro, porém, algo continuava incomodando e foi a mãe quem percebeu primeiro. "Um certo dia, ela entrou no meu quarto e me perguntou o que eu estava fazendo lá em Cuiabá".
Otaviano respondeu de forma automática. Disse que estava feliz, perto da família, estudando e levando uma vida tranquila. Mas a mãe insistiu.
"Não. O que você está fazendo com a sua vida?"
A pergunta o pegou de surpresa. Naquele momento, Otaviano percebeu que havia trocado seus sonhos por conforto. "Eu já estava na zona de conforto. Não queria mais me arriscar. Não queria mais ficar de joelhos pelos meus sonhos," disse.
Foi então que a mãe fez uma segunda pergunta: "Você não tem mais nenhum sonho?"
A resposta de Otaviano veio quase como um desabafo: "Eu tenho medo."
E foi nesse momento que ouviu a frase que carregaria para o resto da vida.
"Que bom que você tem medo. Porque, se os seus sonhos não te assustam, talvez você não esteja sonhando grande o suficiente."
Aquela conversa mudou completamente a perspectiva de Otaviano. A frase o fez entender que não estava fracassando porque tinha medo. Estava fracassando porque havia deixado o medo definir suas decisões.
Pouco tempo depois, voltou para São Paulo. Comprou dezenas de fitas VHS com suas gravações, montou um material de apresentação e começou uma nova peregrinação por emissoras e produtoras.
Seria essa decisão que, algum tempo depois, abriria as portas da Globo e mudaria novamente o rumo da sua carreira.
A volta para a TV
Depois de voltar para Cuiabá e quase desistir da comunicação, Otaviano decidiu tentar mais uma vez. Comprou dezenas de fitas VHS com seu material e começou a distribuí-las pelas emissoras de São Paulo.
Sem grandes expectativas, foi até a Globo entregar uma das últimas cópias. Foi ali que aconteceu um encontro inesperado. Na saída da emissora, cruzou com uma produtora com quem havia trabalhado na época de Angélica no SBT. Ela o apresentou à diretora do programa do Domingão do Faustão. Otaviano, no entando, como já sabia o que queria, deixou claro que seu sonho era trabalhar com comunicação, segurando um microfone e falando para o público.
A primeira oportunidade, porém, não veio exatamente como imaginava. A Globo o contratou para participar das famosas pegadinhas do programa. Ele aceitou, mas fez um acordo com a diretora.
"Eu topo o desafio, mas quero crescer," disse Otaviano à diretora.
Durante seis meses participou dos quadros, correu riscos, encarou situações inusitadas e aproveitou cada oportunidade para aprender. Ao mesmo tempo, começou a fazer algo que poucos percebiam: aquecia a plateia do programa antes da entrada de Faustão.
Enquanto o auditório esperava o início das gravações, ele assumia o palco para animar o público. Na visão dele, aquilo era um treinamento. As câmeras não estavam no ar, mas os diretores observavam tudo da sala de controle.
"Eu fazia daquele palco o meu programa."
A estratégia funcionou. Leonor Corrêa reconheceu seu trabalho e o promoveu a repórter do Domingão do Faustão. A partir daí passou a viajar pelo Brasil e pelo exterior produzindo reportagens para o programa, iniciando uma das fases mais importantes de sua carreira.
A conversa com o Charlie Brown Jr. que mudou tudo
Uma das reportagens do Domingão levou Otaviano para a Califórnia ao lado da banda Charlie Brown Jr. Durante a viagem, ele acompanhou Chorão, Champignon e os demais integrantes em um momento especial da carreira do grupo. Depois de alguns dias juntos, sentados em um píer de Santa Monica, Otaviano resolveu fazer uma pergunta ao Chorão: "Qual é o seu sonho, mano?"
O vocalista respondeu que já estava vivendo seu sonho: viajava com a banda, fazia sucesso nas rádios e tocava para multidões. Em seguida, o cantor devolveu a pergunta a Otaviano. "E qual é o seu sonho?"
A pergunta simples, fez Otaviano parar para pensar e responder com sinceridade: "Ter o meu próprio programa de televisão."
A reação do cantor ficou marcada para sempre. "Então anota aí. Quando você tiver seu programa, a gente vai no primeiro dia," disse Chorão.
Meses depois, quando Luciano Huck deixou a Band e a emissora procurava um substituto para o programa H, o nome de Otaviano surgiu como uma possibilidade e ele acabou escolhido para assumir a atração.
E quem apareceu para apoiá-lo na estreia? O Charlie Brown Jr.
“Aquele momento, em que vi a banda na estreia do meu programa foi uma das maiores demonstrações de apoio que recebei na carreira”, diz Otaviano.
Da TV para os negócios
Décadas depois, a capacidade de se reinventar continuaria sendo uma das marcas de sua trajetória. Depois da Band, ele voltou para a Globo para ser ator e repórter e em 2018, ao deixar a TV Globo, decidiu criar seu próprio estúdio, estruturar uma agência para gerir sua carreira e ampliar sua atuação digital.
Ao lado da esposa, a atriz Flávia Alessandra, passou a investir em negócios ligados à estética, comunicação, educação e saúde. Hoje, Otaviano e Flávia são sócios da Royal Face, da Vox2You, do reality The Best Speaker Brasil e de outras iniciativas voltadas ao desenvolvimento pessoal e profissional. Juntas, as empresas das quais participam movimentam cerca de R$ 700 milhões por ano.
"Eu me reinvento o tempo inteiro," diz Otaviano.
E deixa um conselho para quem busca crescer na carreira.
"Sempre alguém vai estar vendo o seu trabalho. Sempre alguém vai estar observando suas pequenas conquistas, suas madrugadas e os momentos em que você pensa em desistir. Por isso, tenha fé, foco e coragem para continuar."
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