Senior lança ferramenta para empresas criarem agentes de IA

Por Leo Branco 22 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Senior lança ferramenta para empresas criarem agentes de IA

A corrida por inteligência artificial chegou aos sistemas de gestão, aqueles programas usados por empresas para cuidar de folha de pagamento, estoque, vendas, impostos, logística e finanças. A promessa agora é reduzir cliques, formulários e tarefas repetidas dentro desses sistemas.

A Senior, empresa de Blumenau, em Santa Catarina, especializada em softwares de gestão, levou esse tema para o Senior Experience, evento realizado em 21 de maio, em São Paulo, para mais de 2.000 pessoas. No palco, a companhia lançou o Sara Studio, uma ferramenta para empresas criarem agentes de inteligência artificial e automatizarem tarefas do dia a dia.

O lançamento acontece em um momento de avanço da Senior. A companhia fechou 2025 com faturamento de R$ 1,17 bilhão, alta de 19,9% em relação ao ano anterior. Em 2026, a empresa diz ter começado o ano com aceleração no primeiro trimestre, mesmo em um cenário com juros altos, empresas endividadas, Copa do Mundo no meio do ano e eleição no segundo semestre.

“Todo executivo hoje está preocupado com o avanço da inteligência artificial. Seja porque ela pode aumentar produtividade, seja porque pode reduzir custo, seja porque pode destruir o seu negócio”, afirma Carlênio Castello Branco, CEO da Senior.

O que é o Sara Studio

O Sara Studio é a nova etapa da Sara, sigla em inglês para Senior Agent Recommendation & Analysis, plataforma de agentes de IA da Senior. A empresa já tem centenas de agentes em seu ecossistema e mais de 50 disponíveis em suas soluções.

Com o Sara Studio, os clientes poderão criar seus próprios agentes de IA, sem depender de programação. A ideia é permitir que uma empresa monte assistentes para processos internos, consultas, análises e tarefas repetidas.

Na parte de dados, a ferramenta também permitirá fazer perguntas em linguagem comum, sem abrir uma ferramenta de BI, sigla para sistemas usados para montar relatórios e painéis. Um usuário poderá, por exemplo, pedir um gráfico de vendas por vendedor, região e produto. A IA cruza os dados e monta a visão dentro do sistema.

A Senior também anunciou a criação do MCP, sigla para Model Context Protocol, um padrão para conectar modelos de inteligência artificial às soluções da empresa com contexto e segurança. Na prática, é uma camada para permitir que os sistemas entendam melhor os dados de cada cliente antes de responder ou executar uma ação.

Menos clique e mais automação

Para Castello Branco, a mudança principal é que o software deixa de ser apenas uma sequência de telas, botões e campos para preencher. A IA passa a executar partes do processo.

Um exemplo citado pelo CEO está na admissão de funcionários. Antes, o novo colaborador enviava documentos. O RH recebia, escaneava, digitava dados e conferia as informações. Agora, a Senior quer que agentes de IA conversem com o futuro funcionário, peçam documentos e validem as informações no sistema.

“Antigamente, o colaborador enviava carteira de trabalho, comprovante de residência e outros documentos. Alguém pegava aquilo, escaneava e digitava. Era todo um processo manual”, afirma Castello Branco.

No novo modelo, o agente pede os documentos em uma conversa. Depois, a IA usa OCR, tecnologia que lê texto em imagens e arquivos, para reconhecer os documentos, conferir se estão corretos e capturar os dados.

“A gente sai do conceito de software, que era uma operação muito manual, com fluxo de informações e uso de telas, para um processo em que conseguimos fazer tudo de forma automatizada”, afirma Castello Branco.

A Senior aplica essa lógica em áreas como gestão de pessoas, finanças, logística, agronegócio, construção e fiscal. A empresa atende mais de 14.500 grupos empresariais e gerencia mais de 50 mil CNPJs.

O que teve no Senior Experience

O Senior Experience reuniu clientes, parceiros, executivos e convidados em São Paulo. Além do lançamento do Sara Studio, o evento apresentou novidades para várias áreas atendidas pela companhia.

A programação também contou com palestrantes convidados, entre eles o ex-tenista Guga Kuerten. A presença de nomes de fora do setor de tecnologia acompanhou a proposta do evento de discutir gestão, pessoas, produtividade e uso de IA dentro das empresas.

No agronegócio, a Senior apresentou o Originação X, plataforma para classificação e gestão de grãos. A solução usa reconhecimento de imagem e OCR para automatizar processos de classificação agrícola e reduzir etapas manuais.

Em gestão de pessoas, a empresa lançou agentes para recrutamento, liderança, remuneração, força de trabalho e atendimento ao colaborador. Um dos produtos é o Talent Sourcing, ferramenta que usa o histórico interno de competências, desempenho e desenvolvimento para identificar talentos dentro da empresa.

Na área tributária, a Senior apresentou uma plataforma voltada às mudanças da reforma tributária. A solução inclui simuladores de CBS e IBS, tributos criados pela reforma, além de ferramentas para conciliação, análises fiscais e configuração de regras.

Em logística, a empresa mostrou novas funções para TMS, sistema de gestão de transporte, e WMS, sistema de gestão de armazéns. Entre os recursos estão agentes para frete, desempenho de entrega e integração com RFID, tecnologia de identificação por rádio, além de robôs móveis e planejamento de cargas.

No evento, a Senior também apresentou novidades para marketplace, construção e backoffice, área que reúne processos administrativos e financeiros.

Entre os produtos estão uma plataforma para marketplace conectada ao ERP, o Creative AI para campanhas imobiliárias, o Receba+ para cobrança e antecipação de recebíveis, o ERP Banking para serviços bancários dentro do sistema de gestão e a solução Pausa Térmica, criada para monitorar jornadas de trabalho em ambientes refrigerados.

De Blumenau para um grupo bilionário

A Senior foi fundada em 1988, em Blumenau, por Jorge José Cenci, Guido Heinzen e Nesio Gilberto Roskowski. A empresa nasceu com foco em folha de pagamento e gestão de recursos humanos, área que ainda tem peso no negócio.

Com o tempo, a companhia ampliou o portfólio para ERP, sistema que integra finanças, compras, vendas, controladoria e impostos; logística; agronegócio; construção; marketplace; crédito; e serviços financeiros.

Castello Branco assumiu a presidência em 2012. Sob seu comando, a empresa cresceu por aquisições e ampliou a presença fora do Brasil. A Senior tem 15 filiais, mais de 3.800 colaboradores no Brasil e no exterior e cerca de 180 canais de distribuição.

Desde 2015, a companhia fez mais de 30 aquisições. Uma das mais recentes foi a compra da Cigam, anunciada por R$ 162,5 milhões. A operação ampliou a presença da Senior em empresas de médio e grande porte, em setores como indústria, varejo e serviços.

A companhia também avançou em serviços financeiros. A parceria com o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) deu origem a uma sociedade de crédito direto, com a proposta de oferecer produtos financeiros conectados aos sistemas de gestão.

O impacto da IA no trabalho

A chegada da IA aos sistemas de gestão também muda a discussão sobre emprego. Castello Branco reconhece que algumas funções serão substituídas, sobretudo as mais repetitivas.

“Não tenhamos dúvida de que a inteligência artificial vai substituir algumas funções. Tarefas repetitivas que a IA pode automatizar, ela vai automatizar”, afirma Castello Branco.

O CEO compara o momento atual a outras mudanças tecnológicas. Segundo ele, novas funções surgem enquanto outras deixam de existir. Na Senior, um exemplo citado é a busca por profissionais de governança de IA, área responsável por definir regras, qualidade dos dados e uso correto dos modelos.

“De um lado, não adianta falar que não vai existir substituição. Claro que vai existir. Do outro lado, vão surgir diversas outras funções”, afirma Castello Branco.

O desafio, segundo ele, está na formação de profissionais para essas novas funções. A empresa vê mais facilidade entre pessoas de 15 a 25 anos, já acostumadas a ferramentas digitais, mas enxerga uma tarefa maior na adaptação de profissionais mais velhos.

“O grande desafio é preparar essa turma que não está pronta. Quem está chegando ao mercado tem mais facilidade. Mas o que fazer com uma pessoa de 50, 60 ou 70 anos?”, afirma Castello Branco.

Treinamento dentro das empresas

Castello Branco afirma que as empresas terão de assumir parte da formação dos profissionais. Para ele, a educação básica ainda não está preparada para o ritmo das mudanças ligadas à IA.

“A educação, como está hoje, não está pronta para o que está vindo. A gente sai com lacunas importantes quando chega nas empresas”, afirma Castello Branco.

Na Senior, a orientação dada aos gestores é olhar menos para o conhecimento pronto e mais para o potencial de aprendizado. O CEO usa a expressão “brilho nos olhos” para falar de curiosidade, disposição e vontade de aprender.

“Quando a gente vai contratar pessoas na Senior, eu sempre oriento: contrata menos pelo conhecimento e mais pelo potencial, pelo brilho nos olhos. Conhecimento a gente consegue dar”, afirma Castello Branco.

A lógica também aparece na forma como a empresa vê o RH. Ao automatizar tarefas de admissão, atendimento e rotinas internas, a Senior diz querer liberar tempo das equipes para cuidar de temas ligados a pessoas, liderança, desenvolvimento e retenção.

“Quanto mais a gente deixar a vida do RH mais fácil e sobrar tempo para ele cuidar do principal, que são as pessoas dentro da empresa, melhor”, afirma Castello Branco.

A perspectiva para 2026

Castello Branco afirma que a companhia teve um primeiro trimestre forte e de aceleração em relação ao histórico.

Ao mesmo tempo, a empresa olha o cenário econômico com cautela. Para Carlênio, juros altos, endividamento das empresas, Copa do Mundo e eleição são fatores que podem fazer empresários adiarem decisões de compra ou investimento.

“É um ano que não é fácil. Muitos empreendedores esperam, seguram um pouco, tentam adiar. Mas, isolando esse problema macroeconômico, o primeiro trimestre foi um ano de aceleração”, afirma Castello Branco.

A área de aquisições segue ativa. Segundo o CEO, a Senior negocia novos movimentos, mas não pode antecipar nomes nem setores. A busca, neste momento, está mais ligada a produtos e clientes do que à compra de empresas apenas por terem tecnologia de IA.

“A gente se preocupa menos com IA, porque a nossa plataforma tecnológica já está pronta para IA. Quando vamos buscar uma aquisição, estamos buscando produto e base de clientes”, afirma Castello Branco.

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