Ser adulto ficou caro demais? Por que jovens estão adiando decisões financeiras
Alugar um apartamento, sair da casa dos pais, montar uma reserva de emergência ou começar a investir parecem objetivos razoáveis para jovens trabalhadores. Na prática, porém, uma parcela crescente da Geração Z ainda tenta resolver uma etapa anterior da vida adulta: fazer a renda durar até o fim do mês.
A dificuldade não está necessariamente na falta de planejamento ou de ambição. Juros altos, aluguel pressionado e custo de vida crescente tornaram a vida adulta significativamente mais cara para as novas gerações — e os dados mostram que isso vem empurrando decisões financeiras importantes para mais tarde.
O resultado é uma geração que adia marcos historicamente associados à entrada na vida adulta, como independência financeira, moradia própria, casamento e construção de patrimônio, não por desinteresse, mas porque o custo para alcançá-los subiu mais rápido do que a renda.
O sonho da casa própria continua presente entre os jovens brasileiros, mas esbarra em uma realidade financeira mais restritiva. Segundo pesquisa da Ipsos, realizada com 2.485 brasileiros entre agosto e setembro de 2025, 47% da Geração Z afirmam não ter dinheiro para dar entrada ou financiar um imóvel. Outros 30% apontam os preços elevados como principal barreira, enquanto 21% citam os juros altos. Além disso, 37% dizem que gostariam de guardar dinheiro, mas admitem que as despesas atuais consomem toda ou quase toda a renda.
Crédito caro e entrada elevada dificultam compra do imóvel
Se o preço dos imóveis já assusta, o custo do crédito se tornou outro obstáculo importante — especialmente para a classe média. Com a Selic em 14,5% ao ano, as taxas de financiamento imobiliário nos grandes bancos giram entre 11% e 12% ao ano, além da Taxa Referencial (TR). Na prática, isso significa parcelas mais altas, maior exigência de renda e prazos longos para aprovação do crédito.
A entrada também pesa. Hoje, os bancos costumam financiar entre 65% e 70% do valor do imóvel. O comprador precisa arcar com o restante à vista, além de despesas como ITBI, escritura e cartório — uma combinação que dificulta o acesso à moradia mesmo para famílias de renda média.
Ainda assim, o desejo de ter um imóvel permanece forte entre os jovens. Estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) mostra que, embora o sonho da casa própria tenha deixado de ser o único símbolo de segurança financeira para as gerações Y e Z, 95% dos entrevistados afirmam desejar ter um imóvel próprio até a terceira idade.
Os números da vida adulta adiada
Para uma parcela crescente de jovens adultos, sair da casa dos pais deixou de ser uma transição natural da juventude e passou a funcionar como meta de médio ou longo prazo. Um levantamento do Pew Research Center de 2024 ajuda a dimensionar essa transformação. Cerca de um terço dos norte-americanos entre 18 e 34 anos ainda viviam com os pais. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse percentual chegava a 57%, contra 53% em 1993. A proporção também aumentou entre aqueles acima dos 25 anos.
O impacto disso aparece em cadeia nos demais marcos da vida adulta. A independência financeira plena — definida como renda equivalente a pelo menos 150% da linha da pobreza — também caiu fortemente, apenas 25% dos jovens dessa idade eram financeiramente independentes, ante 42% há quatro décadas. Em 2021, apenas 39% dos norte-americanos de 21 anos trabalhavam em tempo integral, contra 64% em 1980.
Em 2024, apenas 45% dos jovens entre 18 e 34 anos se consideravam completamente independentes financeiramente.
O casamento também foi adiado, segundo o mesmo levantamento. Entre adultos de 18 a 24 anos, apenas 7% eram casados em 2023, contra 18% três décadas antes. A queda foi ainda mais forte entre pessoas de 25 a 29 anos: 29% estavam casadas em 2023, ante 50% em 1993. Entre adultos de 30 a 34 anos, a proporção caiu de 63% para 51% no mesmo período.
Os jovens adultos de hoje também têm menos probabilidade de ter filhos do que as gerações anteriores. Os recuos aparecem em todas as faixas etárias analisadas pelo Pew Research Center.
Inadimplência cresce entre os mais jovens
A dificuldade financeira também aparece nos indicadores de crédito. Segundo dados do Banco Central, a faixa entre 15 e 29 anos se tornou a mais inadimplente do país, superando todas as demais gerações. O Relatório de Cidadania Financeira mostra que o número de jovens endividados dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024.
Entre jovens com renda de até dois salários mínimos, 17,4% estavam inadimplentes em 2024. Entre aqueles com renda entre dois e cinco salários mínimos, a taxa era de 13,8%. Mesmo entre os de renda mais alta, a inadimplência chegou a 10%.
Segundo o BC, os jovens apresentaram níveis mais elevados de inadimplência em praticamente todas as modalidades de crédito analisadas em 2024, com destaque para o crédito consignado, cuja taxa de atraso entre jovens chegou a 5,7% — mais que o dobro da registrada entre adultos.
O problema começa antes do investimento
Nesse cenário, falar sobre investimentos se torna mais complexo. A discussão sobre educação financeira ganhou força nos últimos anos, mas parte dela ainda ignora uma questão anterior: para muitos jovens, o desafio não é escolher onde investir — é conseguir sobrar dinheiro no fim do mês.
Há uma interpretação recorrente de que a Geração Z teria desistido de marcos tradicionais da vida adulta, como casamento, filhos ou patrimônio próprio. Os dados sugerem algo diferente. Segundo o Pew Research Center, 69% dos jovens norte-americanos que nunca se casaram dizem querer casar algum dia. Entre os que não têm filhos, 51% afirmam desejar tê-los no futuro.
Ou seja, desejo permanece, o que mudou foi o cronograma e, em muitos casos, a viabilidade econômica para alcançar esses objetivos.
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