Será o fim da guerra? Irã envia resposta à proposta dos EUA, diz mídia estatal

Por Layane Serrano 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Será o fim da guerra? Irã envia resposta à proposta dos EUA, diz mídia estatal

O Irã enviou, neste domingo, 10, sua resposta à proposta dos Estados Unidos para pôr fim à guerra no Oriente Médio, por meio de um mediador paquistanês, informa a agência estatal iraniana, segundo informações da AFP.

“A República Islâmica do Irã enviou hoje, por meio de um mediador paquistanês, sua resposta ao último texto proposto pelos Estados Unidos para pôr fim à guerra”, informou a agência oficial de notícias Irna, sem dar mais detalhes.

A agência destacou que a resposta do Irã à proposta americana se concentra em “pôr fim à guerra e garantir a segurança marítima” no Golfo e no Estreito de Hormuz.

Um acordo em meio ao caos geopolítico

O anúncio ocorreu depois que, ao longo do dia, vários drones atingiram diferentes áreas do Golfo e um deles atingiu um cargueiro que se dirigia ao Catar, ataques que colocam pressão sobre a trégua anunciada desde abril.

O porta-voz da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, Ebrahim Rezaei, se posicionou nas redes e afirmou que a moderação do Irã chegou ao fim.

“Nossa moderação terminou a partir de hoje. Qualquer ataque contra nossas embarcações desencadeará uma resposta iraniana forte e decisiva contra navios e bases americanas”, escreveu Ebrahim Rezaei em uma publicação no X.

https://x.com/EbrahimRezaei14/status/2053365074421489952

O que a resposta do Irã sinaliza?

Para Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Harvard University, o envio de uma resposta formal por parte do Irã representa um avanço diplomático relevante, embora ainda cercado de impasses e desconfiança entre as partes.

“O fato de o Irã ter formalizado uma resposta escrita à proposta dos Estados Unidos sinaliza um avanço real nas negociações. É um passo diplomático concreto”, afirma Brustolin.

Segundo ele, a resposta iraniana indica que Teerã tenta concentrar as negociações em um cessar-fogo imediato e na reabertura das rotas marítimas estratégicas da região.

No entanto, Brustolin afirma que o avanço ainda é limitado porque os interesses das duas partes permanecem diferentes.

“O Irã quer focar apenas no fim da guerra agora, enquanto os Estados Unidos pressionam para incluir restrições ao programa nuclear e de mísseis iraniano já nesta fase das negociações”, afirma.

O papel do Paquistão como mediador

O Paquistão, segundo o pesquisador de Harvard, ganhou protagonismo nas negociações por reunir interesses estratégicos e manter relações diplomáticas com ambos os lados do conflito.

“Existe a questão geográfica, já que o Paquistão faz fronteira direta com o Irã e tem interesse em evitar uma guerra prolongada que afete sua economia e estabilidade regional”, afirma.

Além disso, segundo ele, Islamabad reconstruiu recentemente laços de segurança com Teerã e também atua como um importante elo regional para interesses chineses.

“O Paquistão foi palco das primeiras rodadas de negociação direta entre altos funcionários dos Estados Unidos e do Irã em abril deste ano. Também é um parceiro estratégico da China, então há interesses chineses envolvidos nessas negociações”, diz Brustolin.

A nova etapa do conflito: mais negociações técnicas e econômicas

Na avaliação do pesquisador, o conflito entra agora em uma nova etapa, menos focada em confrontos militares diretos e mais concentrada em negociações técnicas e econômicas.

“A dinâmica muda de uma trégua instável para uma fase de negociação técnica”, afirma.

Segundo ele, as discussões devem girar principalmente em torno da reabertura do Estreito de Hormuz e do fim do bloqueio naval, temas considerados essenciais para o comércio global de energia.

A expectativa de um possível acordo já começou a impactar os mercados internacionais.

“A perspectiva de avanço nas negociações provocou queda nos preços do petróleo e trouxe otimismo aos mercados globais na última semana”, afirma Brustolin.

Para o pesquisador, caso o acordo avance apenas com foco em Hormuz e no cessar-fogo, isso também representará uma mudança de postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Trump iniciou a guerra com pressões muito maiores sobre o Irã, especialmente relacionadas ao programa nuclear e aos mísseis. Agora, existe um recuo para um acordo mais concentrado na reabertura de Hormuz”, diz.

Existe a possibilidade de recuo dos EUA?

Apesar do avanço diplomático, Brustolin alerta que o risco de fracasso das negociações ainda é elevado.

“Os Estados Unidos continuam buscando a suspensão do enriquecimento de urânio do Irã. Se Washington considerar que a resposta iraniana não atende às exigências de segurança americana, a guerra pode voltar a se intensificar”, afirma.

Os ataques registrados nos últimos dias também demonstram que o ambiente na região segue altamente instável. “Ataques com drones e mísseis continuam sendo relatados em diferentes áreas da região”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, tanto o Irã quanto os Estados Unidos acusam um ao outro de violar os termos da trégua, enquanto grupos aliados de Teerã seguem pressionando interesses americanos no Oriente Médio.

“O ambiente ainda é de embate. Esses episódios funcionam como testes de força para tentar ganhar vantagem na mesa de negociação”, diz Brustolin.

A origem da guerra e seus impactos para o setor de energia

O agravamento da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã transformou o Oriente Médio no centro de uma nova crise global de energia. O conflito, iniciado após ataques coordenados de Israel e dos EUA contra o Irã em 28 de fevereiro, ampliou o risco geopolítico na região e trouxe impactos diretos para o mercado internacional de petróleo, gás natural e transporte marítimo.

Em resposta aos ataques, o Irã intensificou ameaças no Golfo Pérsico e promoveu bloqueios no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo. Pelo corredor, localizado entre o Irã e Omã, passa cerca de 20% de todo o petróleo transportado globalmente, além de parte relevante do gás natural liquefeito exportado pelo Catar.

Para Vinicius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP, o conflito ultrapassa a dimensão militar e nuclear frequentemente associada ao Irã. Segundo ele, a disputa envolve diretamente interesses energéticos e a reorganização do equilíbrio de poder entre as grandes potências globais.

“O motivo é muito menos a bomba nuclear e muito mais a questão do acesso ao petróleo e do equilíbrio de poder global”, afirma.

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