Será que a geração Z é mesmo 'performática'?

Por Luiza Vilela 25 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Será que a geração Z é mesmo 'performática'?

Fazer palavras cruzadas em um café, frequentar aulas de cerâmica, ler um livro na praia. Nos últimos meses, comportamentos como esses passaram a circular nas redes sociais sob um mesmo rótulo: o de “performático”. Entre o deboche e a análise sociológica, o adjetivo tenta decifrar por que as escolhas mais simples da Geração Z parecem sempre ter uma plateia imaginária.

Diferente das gerações anteriores, que separavam o que era íntimo do que era público, os jovens de hoje cresceram sob o olhar das câmeras. Se a rotina vira um vídeo curto, o estudo é "aesthetic" e a alimentação é identidade visual, tudo é uma grande performance, mesmo. É a construção de uma identidade que precisa ser visualmente coerente e, com isso, acaba transformando a rotina em uma espécie de curadoria artística.

“A Geração Z vive conectada, em um ambiente em que a exposição faz parte da rotina. Quando surgem comportamentos que fogem do que se espera dessa dinâmica, como buscar atividades mais offline ou referências menos óbvias, eles acabam sendo interpretados como algo calculado ou não espontâneo", diz Queren Hapuque, diretora de Novos Negócios da HAPU, agência especializada no comportamento da Geração Z.

"Essa leitura diz tanto sobre o comportamento em si quanto sobre o olhar que a gente projeta sobre ele."

Mas a "performance", vale dizer, não é de todo ruim, não. E a GenZ está tentando defendê-la com o resultado que ela traz para o bem-estar e para a manutenção da rotina além do trabalho.

'Performance' ou pedido de ajuda?

Em outras palavras, no âmbito do estilo de vida, a busca dessas atividades — hobbies, em geral — às vezes funciona como descoberta e espaço de descompressão, algo que os jovens precisam e muito atualmente.

Ainda que seja um dos grupos geracionais que mais refute o modelo de trabalho atual, ironicamente, a Geração Z também é uma das que mais sofre com burnout. Dados do Panorama do Bem-Estar Corporativo mostram que 60% dos jovens nascidos entre 1995 e 2010 já sofreram com esgotamento mental no ambiente de trabalho. Estão à frente dos Millenials (57%), da Geração X (38%) e dos baby boomers.

Ao transformar a rotina em algo visualmente apreciável, eles criam um incentivo para manter hábitos que, de outra forma, seriam negligenciados. O registro é uma forma de ritualizar o autocuidado e dar significado a momentos de pausa em um mundo hiperestimulado. E existe uma estranheza do mercado e de outras gerações quando a GenZ busca atividades offline.

O novo estilo de vida vai ser analógico?

Toda essa questão leva a um ponto importante: o futuro dos hobbies e do estilo de vida, que andava pendendo tanto para a tecnologia, inteligência artificial e redes sociais, pode estar no caminho de voltar para o analógico.

A transição marca o nascimento de uma nova moeda de troca social: o capital cultural imaterial. O tempo livre, fora das telas e rodeado de amigos presentes, está se tornando mais valioso.

As pesquisas já mostram isso. Um estudo da McCann Truth Central, feito em 2024 com 16 mil entrevistados em 16 países, mostra que, no Brasil, 79% dos jovens buscam hobbies offline como leitura e exercícios; e 68% preferem encontros presenciais para se sentirem representados. Globalmente, 63% sentem solidão, apesar de conexões online.

O próprio TikTok também já notou esse padrão. Em um levantamento recente da plataforma chinesa, feito em maio de 2025 no Brasil, 50% dos usuários iniciaram novos hobbies fora das telas após assistirem a vídeos na plataforma mostrando esse estilo de vida. 23% começaram fotografia analógica, por exemplo, 20% pintura, 11% costura/bordado.

Se em décadas passadas o prestígio era gritante em consumo, hoje ele é medido em experiência e tempo.  Ter um carro de luxo é uma questão de crédito; saber preparar um matcha perfeito ou discutir a narrativa de um livro denso em um café exige algo muito mais escasso na economia atual, que é o repertório, a atenção e o tempo para fazer isso.

O rótulo "performático", portanto, pode ser o reconhecimento de uma nova gramática social. Não se trata de fingir que gosta de cerâmica para ganhar curtidas, mas de entender que o prazer da cerâmica é potencializado pela maneira como esse hábito afeta o bem-estar e a conexão entre pessoas.

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