Seriam as mitocôndrias o segredo para a longevidade? O que a ciência diz

Por Marina Semensato 21 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Seriam as mitocôndrias o segredo para a longevidade? O que a ciência diz

Há muitos anos, a ciência conhece o papel das mitocôndrias: são estruturas que convertem os nutrientes dos alimentos que ingerimos em ATP, que é o combustível para a produção de energia dentro das células.

Nos últimos anos, porém, essas organelas conquistaram fama para além do meio científico ao serem associadas a questões de metabolismo e longevidade, segundo uma reportagem do New York Times.

De forma quase repentina, as mitocôndrias se tornaram "queridinhas" de livros sobre metabolismo e de um mercado de suplementos que prometem melhorar seu desempenho e, de certa forma, retardar o envelhecimento.

O interesse pelas mitocôndrias está ligado a funções que vão além da produção de energia e foca em sua contribuição para o sistema imunológico, para a comunicação entre órgãos e para a manutenção da atividade celular. Ou seja, são estruturas importantes para a saúde no geral.

Com o envelhecimento, as mitocôndrias caem em quantidade e qualidade. Na produção de energia, elas geram espécies reativas de oxigênio (ROS), que danificam as células. Ao mesmo tempo, os mecanismos de "limpeza" celular perdem eficiência, favorecendo o acúmulo de lesões e o declínio de suas funções ao longo do tempo.

Causa ou efeito do envelhecimento?

Esse processo de degradação é apontado por alguns cientistas como um dos fatores para o desenvolvimento de doenças associadas ao envelhecimento, como Alzheimer e câncer.

"As mitocôndrias simplesmente desistem mais cedo do que outras partes da célula devido ao desgaste a que são submetidas", disse o  Dr. Pinchas Cohen, reitor da Escola de Gerontologia Leonard Davis da Universidade do Sul da Califórnia, ao NYT. "Eles são o canário na mina de carvão da disfunção celular", acrescentou

Para parte dos especialistas, a disfunção dessas organelas é resultado, e não a causa, do envelhecimento. "O declínio mitocondrial está precipitando o envelhecimento, ou simplesmente temos tecido velho e doente, resultando em mitocôndrias doentes?", disse o Dr. Vamsi Mootha, da Faculdade de Medicina de Harvard.

Apesar das incertezas, existe um consenso quanto aos fatores que influenciam a saúde das mitocôndrias. Por exemplo, a prática regular de exercícios físicos: estudos com biópsias musculares mostraram aumento no número e na qualidade das mitocôndrias após programas de pelo menos oito semanas de treinamento.

A alimentação também é outra questão importante — afinal, é dela que as mitocôndrias retiram sua principal matéria-prima, que são os nutrientes. Uma dieta equilibrada, com presença de carboidratos ricos em fibras e gorduras de boa qualidade, favorece o funcionamento dessas organelas, segundo os especialistas ouvidos pelo NYT.

O sono também está relacionado à manutenção das mitocôndrias saudáveis. Durante o descanso noturno, ocorre parte da eliminação de componentes danificados ao longo do dia, mecanismo imprescindível para preservar a função celular.

E os suplementos?

Já as soluções divulgadas no mercado de bem-estar têm base científica limitada, segundo o NYT. Suplementos que prometem aumentar os níveis de NAD+, molécula ligada ao metabolismo celular, apresentaram resultados em estudos com animais, mas sem conclusões sólidas em humanos.

Outras práticas como banhos de gelo, saunas e terapias com luz vermelha, apresentadas como formas de "ativar" as mitocôndrias, têm a mesma limitação: a maior parte das evidências vem de pesquisas em animais ou em células em laboratório, sem comprovação clara de benefício para pessoas.

Disfunção mitocondrial sempre é ruim?

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado no periódico The EMBO Journal indicou que nem toda alteração na função mitocondrial é necessariamente negativa.

De acordo com a pesquisa, um leve estresse nas mitocôndrias pode acionar respostas adaptativas da célula e ativar o sistema imune inato, o que, em modelos experimentais, esteve associado ao aumento da longevidade e à maior resistência a doenças.

No entanto, a disfunção intensa e prolongada pode levar ao colapso desses sistemas e ao avanço dos danos celulares e, consequentemente, colaborar para o surgimento de doenças.

Ainda não há resultados confirmados em humanos, mas os autores reforçam que estímulos moderados, como o exercício, tendem a ter efeito protetor, enquanto sobrecargas contínuas de estresse podem contribuir para o envelhecimento.

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