Símbolo do capitalismo americano, Avon tinha revendedoras na Rússia
A cena é clássica. Subúrbio americano, casas alinhadas, tardes silenciosas. A campainha toca. Do outro lado, uma mulher com catálogo nas mãos oferece batons, perfumes e cremes. Durante décadas, essa foi a imagem da Avon, empresa fundada em 1886, em Nova York, que transformou a venda direta em modelo de negócio global.
A Avon era um símbolo tão forte do capitalismo americano que virou até sátira no filme "Edward, Mãos de Tesoura", de 1990. Na trama, a personagem vivida pela atriz Dianne Wiest, que acolhe o protagonista rejeitado da trama em sua própria casa, era uma revendedora da marca. Moradora de um subúrbio típico dos comerciais de margarina, ela se vestia tal qual uma dona de casa dos anos 1950 e batia de porta em porta na tentativa de vender os cosméticos que, já naquela época, não tinham tanto apelo na vizinhança.
A caricatura no cinema resumiu um traço real: a empresa construiu um exército de revendedoras independentes e foi pioneira na venda direta de beleza, muito antes de o termo network virar jargão corporativo. Ao longo de 140 anos, a Avon atravessou guerras mundiais, a Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e a ascensão do comércio eletrônico. Adaptou catálogos impressos ao cadastro digital e manteve o mesmo gesto simbólico: alguém oferecendo beleza de porta em porta, do Brasil, onde desembarcou em 1958, à Rússia. Isso mesmo que você leu.
A história da Avon na Rússia
A Avon faz negócios no país há pelo menos 30 anos. Mesmo sendo um ícone do capitalismo americano, construiu ali uma rede de representantes independentes, com fábricas locais e recrutamento ativo de revendedoras até 2024 e 2025. Sites como sait-avon.ru e avon-russia.com promoviam cadastros online, bônus de entrada e descontos de até 35%, além de entregas nacionais.
A empresa conta com uma unidade de produção de ciclo completo em Naro-Fominsk, a 70 quilômetros de Moscou. Em 2023, a Avon inaugurou um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento na fábrica, onde especialistas russos criam produtos especialmente para as famílias russas.
Em 2020, a Avon passou a integrar o Grupo Natura, num movimento que criou um gigante de cosméticos com presença em mais de 100 países. A aquisição fazia parte de um plano de expansão internacional e de ganho de escala. Mas a combinação de endividamento elevado e consumo mais fraco levou a uma reavaliação de rota.
No site oficial, a Avon Rússia explicava ser uma subsidiária da empresa brasileira Natura & Co, mas advertia seguir rigorosamente as leis russas. “Nunca nos envolvemos em quaisquer ações contra os interesses da Rússia ou de seus cidadãos. A empresa não oferece apoio às forças armadas ucranianas, aos direitos LGBT ou a outras organizações cujas atividades violem a lei russa”, diz.
Na mesma publicação, a Avon Rússia afirma não pagar dividendos no exterior desde o final de 2021, se intitulado como uma das maiores contribuintes do país. "Desde 2022, a Avon Rússia já pagou mais de 4 bilhões de rublos ao orçamento russo. Atuamos na Rússia há mais de 30 anos e nossa principal missão é apoiar mulheres e suas famílias, criando produtos acessíveis e de alta qualidade, proporcionando oportunidades de renda extra e cuidando de seu bem-estar e saúde por meio de nossos programas beneficentes”, finaliza.
Agora em fevereiro de 2026, a Natura vendeu as operações russas para o Grupo Arnest por 26,9 milhões de euros, encerrando sua gestão direta no país. Apesar disso, a marca mantém site oficial e presença em redes como a VK, indicando continuidade sob nova administração. Com a venda, a Natura agora mantém as operações da Avon somente na América Latina.
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