Small caps caíram primeiro com a guerra — e podem subir antes na paz
O conflito no Oriente Médio interrompeu o rali das small caps e expôs sua dependência dos juros. Agora, qualquer sinal de trégua pode inverter esse movimento com a mesma velocidade. Ao menos é essa aposta de alguns agentes do mercado financeiro.
Em um cenário pressionado pela alta do petróleo e pelo risco de inflação, pequenas empresas tendem a ser mais penalizadas. Porém, pelo mesmo motivo, também podem liderar uma eventual recuperação.
O índice SMLL atingiu uma máxima histórica no dia 24 de fevereiro, aos 2.637,53 pontos, quatro dias antes do início da guerra no Irã. Pouco depois, em março, acumulou perdas de quase 15%, a 2.263,95 pontos. O Ibovespa, que reúne empresas de maior liquidez, também sentiu o baque da Guerra, mas recuou apenas 0,7% em março.
O movimento ocorreu, também, ETF SMAL11 na B3. Após atingir quase R$ 130 em 24 de fevereiro — o maior nível em meses —, caiu 5,23% em março, chegando a faixa dos R$ 110.
O SMAL11 subiu 3,98% em um único pregão, no dia 31 de março, superando a alta de 2,71% do Índice Bovespa (Ibovespa) e alcançando R$ 120. O SMLL fechou em 2.438,03 pontos.
Correção reflete traço estrutural
Empresas menores são mais arriscadas por possuírem menos liquidez. "(Elas) sofreram mais também pelo fato de ter poucas empresas de petróleo no SMLL", explicou o head de research da Eleven Financial, Fernando Siqueira.
É consenso, assim, que o melhor momento das small caps deve vir com um patamar de juros mais baixo e estável. Especialistas apontam para um gatilho claro que depende da queda da Taxa Selic.
A guerra, porém, adiou esse cenário ao pressionar a inflação via petróleo e reforçar a postura restritiva do Federal Reserve (Fed), contaminando também as expectativas para a política monetária brasileira.
O analista-fundador da Condor Insider, Carlos Herrera, acrescentou um fator técnico à análise, tendo em vista que o rali anterior às tensões geopolíticas foi impulsionado por uma realocação de portfólio.
Desde 2022, muitas empresas — especialmente microcaps — vinham com baixa cobertura de analistas e pouco interesse de investidores institucionais, o que abriu espaço para distorções de preço e oportunidades de valorização.
O analista de renda variável da Nexgen Capital, João Pedro Moreno, indicou, neste sentido, que o contexto de alta pode retornar se os juros caírem, pois "em momentos de guerra temos muitas incertezas."
Fluxo estrangeiro e movimento global
O ambiente volátil para as small caps não é exclusivo do Brasil. No exterior, o menor apetite por risco tem levado investidores a priorizar negócios com fluxo de caixa mais previsível e ativos tangíveis.
Empresas ligadas a commodities, como óleo, gás e mineração, tendem a se beneficiar. No Brasil, porém, há uma particularidade: até existem empresas menores ligadas ao setor, mas têm pouca relevância no geral.
O impacto tende a ser indireto. Ao investir mais em large caps, os gringos impulsionam o mercado como um todo, abrindo espaço para que investidores migrem parte do capital para as small caps.
Desconto ampliado pela guerra
Mesmo antes do conflito, as small caps já negociavam com desconto relevante em relação ao Ibovespa e ao próprio histórico. A guerra ampliou essa distorção.
O sócio-fundador da Encore Asset, João Luiz Braga, notou ainda que ações de grandes companhias, como Vale, Petrobras e bancos, parecem bem precificadas ou até esticadas em comparação às pequenas.
O que ainda está em aberto?
No entanto, caso o conflito no Oriente Médio se prolongue, o cenário de juros elevados — pressionado pelo petróleo — tende a continuar pesando sobre as small caps.
Também há a possibilidade de cortes da Taxa Selic serem menores do que o esperado, sendo o principal vetor de risco para as pequenas empresas listadas na bolsa.
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