Só 0,5% dos megaprojetos de infraestrutura cumprem prazo e custo, aponta Bain

Por André Martins 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Só 0,5% dos megaprojetos de infraestrutura cumprem prazo e custo, aponta Bain

Apenas 0,5% dos megaprojetos globais de infraestrutura conseguem cumprir simultaneamente prazo, orçamento e escopo, segundo levantamento da consultoria Bain & Company com mais de 16 mil projetos analisados em todo o mundo.

Para Wagner Costa, sócio da Bain especializado em projetos de capital e infraestrutura, o cenário ganha peso adicional no Brasil diante da aceleração dos investimentos em infraestrutura, logística e transição energética.

Segundo Costa, os investimentos em infraestrutura no país devem sair de cerca de R$ 125 bilhões a R$ 130 bilhões em 2019 para aproximadamente R$ 300 bilhões em 2026. O avanço se dá principalmente em setores como logística, transporte, energia e saneamento.

O cenário acompanha um movimento global de expansão do CAPEX, sigla em inglês para gastos de capital.

Dados apresentados pela Bain mostram crescimento global de 21% nos investimentos previstos entre os períodos de 2019-2023 e 2024-2028, puxado principalmente por setores ligados à defesa, mineração, utilities e óleo e gás.

A boa notícia contrasta com a execução das obras.

Segundo o estudo global da consultoria, apenas 48% dos projetos terminam dentro do orçamento. O número cai para 8,5% quando o critério considera simultaneamente prazo e orçamento.

Exemplos recentes como o Rodoanel e a linha do monotrilho 17-ouro, que saíram do papel após quase 12 anos de atraso, mostram que os dados globais conversam com a realidade brasileira.

Costa afirmou que os problemas observados globalmente também aparecem no Brasil, embora com diferenças de maturidade entre empresas e setores.

“Os problemas são os mesmos em qualquer região. O que pode mudar é a velocidade com que as empresas estão adotando ferramentas e tecnologia para resolver isso”, afirmou o executivo em entrevista à EXAME.

Segundo ele, os principais entraves envolvem falhas de governança, baixa integração entre áreas, gestão reativa de riscos e estimativas iniciais pouco precisas de prazo e custo.

O executivo afirmou que muitas empresas ainda operam com estruturas fragmentadas, nas quais engenharia, compras e regulação trabalham separadamente, o que gera atrasos e perda de eficiência nos projetos.

“Existe engenharia que não conversa com o time de compras, que não conversa com o time de regulação. No final, isso gera entraves”, disse.

Costa afirmou que muitas empresas ainda não seguem práticas consideradas básicas de gestão de projetos.

Segundo ele, um dos erros mais comuns é deixar o mesmo time responsável pela execução também encarregado do controle e monitoramento do projeto.

“Aquela velha história da raposa cuidando dos ovos”, afirmou.

O executivo também citou ausência de mecanismos formais de decisão, fóruns lentos de governança, falta de controle de mudanças e avanço de projetos sem maturidade técnica ou regulatória adequada.

Segundo Costa, parte crescente da demanda atual por consultoria está ligada justamente à revisão desses modelos de gestão e à preparação das empresas para executar grandes portfólios de investimento.

Logística aparece como maior gargalo brasileiro

Embora saneamento e energia tenham avançado nos últimos anos com novos marcos regulatórios e expansão dos investimentos, Costa afirmou que o maior déficit estrutural do Brasil continua concentrado em logística.

Para ele, infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária deve se tornar o principal desafio do país na próxima década.

“Acho que o próximo grande passo deveria ser essa questão de logística, infraestrutura rodoviária, marítima, portuária e ferroviária”, disse.

Segundo o executivo, o setor de transporte e logística exigiria investimentos anuais próximos de R$ 265 bilhões para reduzir o déficit estrutural do país. Hoje, os aportes giram entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões por ano.

Costa citou ainda o estudo nacional de mobilidade urbana desenvolvido para o BNDES, em parceria com empresas de engenharia e assessoria jurídica, como exemplo de atuação da consultoria em projetos públicos.

Segundo ele, o trabalho estruturou uma carteira de 187 projetos prioritários para 21 regiões metropolitanas brasileiras até 2050, com potencial de investimentos de R$ 430 bilhões.

Inteligência artificial avança na gestão de obras

Outro eixo apontado pela Bain é o uso crescente de inteligência artificial em projetos de capital.

Segundo Costa, ferramentas de IA já começam a acelerar etapas de planejamento, engenharia e monitoramento de execução de obras.

Como explicou o executivo, algumas soluções conseguem reduzir de semanas para dias o desenvolvimento inicial de projetos conceituais.

A consultoria também afirma ter desenvolvido sistemas de generative scheduling, tecnologia que conecta cronogramas de obras a modelos analíticos capazes de simular cenários de custo, prazo e risco.

Segundo Costa, a tecnologia também aparece como resposta à falta de mão de obra especializada em engenharia, planejamento e execução de grandes obras.

Cadeia global de fornecedores preocupa setor

Na avaliação do executivo, o principal desafio para os próximos anos deve ser a cadeia global de suprimentos, especialmente em equipamentos considerados críticos para projetos de energia e infraestrutura.

A guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, além do conflito entre Rússia e Ucrânia, são exemplos de fatores imponderáveis que afetam os preços.

Segundo Costa, turbinas, transformadores e outros itens de longo prazo de fabricação já enfrentam gargalos globais de oferta, pressionados pelo crescimento dos investimentos em transição energética e pela expansão de data centers ligados à inteligência artificial.

“Hoje, com quem a empresa fala nesse mundo de projetos de capital, a primeira pergunta é: já tem a turbina?”, afirmou.

Segundo especialista da Bain, empresas passaram a buscar alternativas globais de fornecimento e novos fabricantes na Ásia para reduzir riscos de atraso.

A Bain afirma que a reorganização das cadeias globais de produção, movimento chamado de deglobalization, também deve alterar a dinâmica de fornecedores nos próximos anos.

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