Sob nova direção: Piccadilly anuncia novo CEO e inicia fase sem família na gestão executiva
“Temos a ambição clara de chegar ao bilhão, mas de forma sustentável, com rentabilidade e pensando na longevidade da empresa.” A frase de Cristine Grings Nogueira resume o momento vivido pela Piccadilly Company.
Após dez anos como CEO, a executiva anuncia com exclusiva à EXAME a sua saída da liderança operacional da fabricante gaúcha de calçados, em um movimento que marca o início de uma nova fase da companhia familiar fundada há mais de 70 anos.
Cristine afirma que deixará o comando executivo para assumir uma posição no conselho da empresa, enquanto a companhia prepara uma transição inédita: pela primeira vez, a gestão ficará sob a direção de um executivo de mercado. O escolhido para sucedê-la é Silvio Prado, ex-CEO da L'Occitane au Brésil.
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Uma transição planejada há mais de uma década
A sucessão marca uma transformação importante na governança da empresa familiar. Segundo Cristine, o processo vem sendo estruturado há mais de dez anos, desde a transição da segunda para a terceira geração da família fundadora.
“Empresas familiares precisam estruturar uma governança robusta para serem longevas”, afirma a executiva.
Segundo ela, a chegada de um executivo de mercado não representa uma ruptura na cultura da companhia, mas uma evolução do modelo de gestão.
“A gente acredita muito na combinação positiva entre o DNA, os valores e a essência da família empresária com novos olhares e expertise que executivos de mercado podem trazer”, diz.
Cristine afirma ainda que a escolha de Silvio Prado levou em consideração a experiência do executivo em empresas familiares, seu histórico em cargos de presidência e o alinhamento cultural com a marca. Além da passagem pela L’Occitane au Brésil, Prado também atuou como CFO antes de assumir posições de presidência executiva.
“O DNA, os valores e a essência da marca precisam continuar. O que muda é a oportunidade de trazer novos olhares e novas experiências”, afirma Cristine.
Empresa cresce enquanto indústria encolhe
A mudança de liderança acontece em meio a um ciclo de crescimento da marca. Segundo dados compartilhados pela companhia, a Piccadilly Company aumentou o faturamento em 87% entre 2015 e 2025 e registrou crescimento de 30% no volume de pares vendidos no período.
O desempenho contrasta com o cenário da indústria nacional. Dados da Abicalçados mostram que a produção brasileira de calçados caiu cerca de 10% na última década, saindo de 944,2 milhões de pares em 2015 para 847,5 milhões em 2025.
Segundo Cristine, parte desse crescimento está ligada à construção de uma marca global e ao fortalecimento da operação própria da companhia.
“A gente exporta a marca Piccadilly. Diferente da maioria da indústria calçadista, nosso percentual de private label é muito baixo. Construímos um posicionamento global da marca”, afirma.
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Expansão internacional e novos mercados
Um dos principais legados da gestão de Cristine foi a internacionalização da marca. Em 2015, a empresa exportava para cerca de 64 países. Em 2025, passou a atuar em aproximadamente 85 mercados, sendo 21 novos países incorporados ao longo da última década.
Entre os mercados considerados mais relevantes nesse novo ciclo estão Filipinas, Eslovênia, Líbia e Cingapura. A companhia também ampliou presença em regiões como Oriente Médio, Ásia e Europa. Atualmente, as exportações representam mais de 30% do negócio.
Nos últimos anos, a companhia entrou em países como Coreia do Sul, Hong Kong, Indonésia, Suíça, Croácia, Maldivas e Marrocos. Agora, o foco está em ampliar a presença na Europa, mercado que a executiva considera mais desafiador para marcas brasileiras.
Guerra no Oriente Médio já afeta pedidos
A guerra no Oriente Médio, porém, já começa a gerar impactos nas operações da companhia. Segundo Cristine, clientes da região passaram a segurar pedidos enquanto acompanham os desdobramentos do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos.
Apesar do cenário de instabilidade geopolítica, a executiva afirma que a companhia mantém a estratégia de expansão internacional e fortalecimento da marca fora do Brasil.
Meta é ultrapassar 100 lojas ainda neste ano
Outro movimento importante da companhia foi a expansão das operações monomarca. Em 2015, a empresa tinha 20 lojas exclusivas. Em 2026, já soma 93 operações entre franquias, licenciadas e unidades próprias, com meta de ultrapassar 100 lojas ainda neste ano.
A estratégia faz parte de uma transformação do modelo comercial da marca, historicamente forte no canal multimarcas.
“A gente quer estar onde a consumidora deseja nos encontrar e com o nível de experiência que ela deseja ter com a marca”, afirma Cristine.
A companhia prevê abrir cerca de 15 novas operações em 2026, considerando mercado nacional e internacional.
Crescimento conservador e foco em eficiência
Para 2026, a empresa projeta crescimento de aproximadamente 5%, em um ano descrito internamente como de “expansão conservadora”. Em 2024, a empresa faturou 587 milhões de reais e projetava avançar 16% em 2025, alcançando 680 milhões.
Segundo Cristine, o foco da companhia neste momento está menos em ampliar capacidade produtiva e mais em aumentar eficiência operacional. A empresa trabalha atualmente na implementação de um novo ERP e em melhorias industriais nas fábricas do Rio Grande do Sul.
“A gente está olhando muito mais para dentro, extraindo eficiência e competitividade das operações que já existem”, afirma.
As mudanças estratégicas mais profundas devem acontecer a partir de 2027, quando o novo CEO da Piccadilly terá maior liberdade para redesenhar o plano de crescimento junto ao conselho da companhia.
“Não é uma ruptura. É um processo evolutivo”, afirma Cristine.
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