Softplan, de Florianópolis, vence licitação na Argentina e exporta tecnologia judicial brasileira
A brasileira Softplan venceu, em parceria com a argentina IAFIS, uma licitação nacional para implantar uma plataforma única de processo judicial eletrônico na Justiça do Trabalho da Cidade Autônoma de Buenos Aires, em um contrato que inclui implementação, entrada em operação, suporte, manutenção e evolução do sistema por 22 meses. A meta é colocar a nova estrutura em funcionamento em até 200 dias, com capacidade inicial para absorver cerca de 5 mil novos processos por mês e, num cenário mais amplo, atender até 60 mil advogados como usuários externos.
A contratação foi conduzida pelo Conselho da Magistratura de Buenos Aires e marca uma nova etapa da digitalização do Judiciário da capital argentina. Mais do que informatizar rotinas isoladas, o projeto pretende unificar sob uma mesma arquitetura tecnológica instituições que hoje operam de forma fragmentada: os juizados e câmaras de apelação ligados ao Conselho, os Ministérios Públicos Fiscal, de Defesa e Tutelar, além do Tribunal Superior de Justiça. A ambição, em termos práticos, é substituir o intercâmbio entre sistemas distintos por um ambiente digital único.
Para a Softplan, o contrato tem peso que vai além do tamanho do projeto. A empresa tenta consolidar uma agenda de expansão internacional apoiada num ativo específico: a experiência acumulada na digitalização do sistema de Justiça no Brasil. "Essa conquista reforça a capacidade da tecnologia brasileira de apoiar processos complexos de modernização institucional", afirma Márcio Santana, CEO da companhia. Segundo ele, a operação em Buenos Aires também funciona como vitrine para a América Latina, ao sugerir que soluções desenvolvidas no país podem ganhar escala em outras estruturas públicas da região.
O desafio técnico é relevante porque a Justiça da cidade vive uma transição institucional. Segundo Maria Sol Galaz, chefe do Departamento de Sistemas do Conselho da Magistratura de Buenos Aires, o processo de transformação digital local começou há cerca de dez anos, mas a incorporação recente da jurisdição trabalhista tornou a plataforma atual insuficiente para a nova fase. A contratação, diz ela, foi pensada não apenas para resolver gargalos imediatos, mas para criar uma base capaz de absorver futuras transferências de competências da esfera federal para a cidade.
A ideia, portanto, não é apenas trocar sistemas. É reorganizar a lógica de funcionamento do Judiciário trabalhista local. A nova plataforma deve cobrir todo o ciclo de vida do processo: do protocolo inicial, feito por advogados e cidadãos, aos módulos de gestão usados por magistrados e servidores. Entre as funcionalidades previstas estão gestão integral de processos digitais, modelagem de fluxos automatizados de trabalho, agendamento de audiências, distribuição eletrônica e ferramentas de análise de dados para apoiar decisões administrativas e processuais.
Hoje, segundo Galaz, a circulação da informação entre instituições diferentes frequentemente gera duplicidade de registros, retrabalho e perda de eficiência. A unificação tende a reduzir esse atrito operacional. Há também um ganho de experiência para o usuário externo. Em vez de navegar por múltiplas plataformas, advogados, partes e demais atores do sistema devem acessar um único ambiente digital. "A proposta é oferecer uma única porta de acesso ao Poder Judiciário da cidade", afirma a executiva.
O contrato também incorpora uma camada de inteligência artificial. Entre os recursos previstos está um assistente capaz de responder a consultas em linguagem natural sobre processos em análise, usando LLMs, os grandes modelos de linguagem que se popularizaram com a ascensão da IA generativa. A expectativa é que esses recursos ajudem na produção de resumos processuais, na organização de informações e até no apoio a audiências, sempre sob supervisão humana. O próprio Conselho da Magistratura, segundo Galaz, aprovou recentemente diretrizes para o uso responsável da IA no Judiciário.
A infraestrutura da solução ficará hospedada na nuvem da Amazon Web Services (AWS), escolha que responde a uma limitação comum do setor público: a dificuldade de manter internamente uma infraestrutura com o mesmo grau de robustez e especialização exigido por sistemas críticos. Numa operação desse tipo, disponibilidade, segurança e escalabilidade deixam de ser atributos técnicos periféricos e passam a ser parte central da política pública digital.
O caso de Buenos Aires ajuda a iluminar uma tendência mais ampla na região. A digitalização da Justiça, antes tratada como agenda administrativa, vem ganhando status de transformação estrutural. No Brasil, a Softplan diz que suas soluções para o Judiciário impactaram mais de 108 milhões de pessoas em 22 estados apenas em 2025 e são usadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, o maior do mundo em volume. No Peru, a empresa participa da qualificação de um sistema que envolve 34 cortes superiores, mais de 18 mil usuários e cerca de 1.700 organizações. Na Colômbia, atua desde 2019 na Jurisdicción Especial para la Paz (JEP), corte criada após o acordo entre o governo e as FARC, apoiando a gestão de processos ligados a um dos temas mais sensíveis do país: a justiça de transição.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: