St. Paul's, aos 100: a escola britânica de São Paulo que decidiu ampliar horizontes
Em um quarteirão tranquilo do Jardim Paulistano, na zona oeste de São Paulo, meninos e meninas atravessam todas as manhãs, há um século, o portão da St. Paul's School. Lá dentro, os grupos de alunos (chamados houses) levam o nome de dinastias inglesas, as aulas são na maior parte em inglês e o currículo segue o do Reino Unido em paralelo ao brasileiro. É um pedaço da Inglaterra que botou raiz em São Paulo.
Uma escola assim – centenária, internacional, instalada em um dos endereços mais nobres da cidade – poderia simplesmente seguir sendo o que sempre foi. A St. Paul's, no entanto, decidiu o contrário. A escola, que ao longo da história recebeu visitas da rainha Elizabeth II, do então príncipe Charles e da princesa Diana, se dedica a um esforço silencioso: o de se reinventar ao longo dos anos.
Uma escola britânica em São Paulo
A St. Paul’s foi fundada em 1926 pela comunidade britânica que havia se estabelecido em São Paulo nas décadas anteriores. Foi um período de forte presença inglesa na cidade, impulsionada por empreendimentos como a ferrovia que ligava a capital ao porto de Santos. A escola nasceu para oferecer aos filhos dessas famílias a mesma educação que teriam no Reino Unido.
Hoje, a escola é a primeira da América Latina reconhecida pelo governo do Reino Unido como British School Overseas. Atende alunos dos três aos 18 anos, de mais de trinta nacionalidades, em um currículo que combina os conteúdos cobrados em exames internacionais, mas também nacionais.
O que mudou, ao longo dessa trajetória, foi a pergunta que a escola faz a si mesma. Aos poucos, formar alunos academicamente fortes deixou de ser uma resposta suficiente. Passou a importar também o tipo de cidadão que sai dali e o que cada um desses jovens, com tantas oportunidades nas mãos, fará com elas no Brasil em que vive ou no mundo que irá explorar.
Titus Edge, diretor da escola desde julho de 2020, herdou essa pergunta e a colocou no centro do discurso da escola. Antes de São Paulo, Edge dirigiu a Gordonstoun, escola escocesa por onde passaram o príncipe Philip e o atual rei Charles III. Uma trajetória de quem acompanhou de perto a longa linhagem britânica, mas que, dentro da St. Paul's, no Brasil, está no topo das prioridades.
Titus Edge, diretor da St. Paul's desde 2020: antes de São Paulo, comandou a Gordonstoun, escola escocesa por onde passaram o príncipe Philip e o rei Charles III
Edge não esquiva do diagnóstico mais comum sobre a escola. “Dada a nossa localização, temos uma área de captação socioeconômica muito alta. E dado o modo como a educação britânica é positivamente percebida pelas famílias paulistanas, inevitavelmente atraímos uma certa clientela”, diz. “Reconheço a percepção (de que é uma escola “elitista”). Como em muitas percepções, há um elemento de verdade nela. Mas é também uma simplificação”, pondera.
A premissa, para ele, é outra. Ele defende que escolas, independente da região ou do perfil socioeconômico dos alunos, devem ser lugares inclusivos e existem para preparar as crianças para o mundo real – um mundo que, lá fora, é diverso em renda, origem e atitude. A tarefa, na sua visão, é fazer com que a diversidade esteja dentro da escola, em vez de ficar do outro lado do muro.
Quase duas décadas construindo conexões
Esse esforço tem história e tem data de início. Começou em 2008, com a criação da Fundação St. Paul's, responsável pelo programa de bolsas – uma estrutura que ganhou impulso em 2018, ao adotar um processo seletivo ativo, em busca de alunos talentosos que não chegariam à escola por conta própria.
Hoje, são cinquenta bolsistas integrais, do Form 1 ao Upper 6 (estrutura do sistema de ensino britânico que abrange séries do Ensino Fundamental II ao Ensino Médio), com mensalidade, uniforme e transporte cobertos por doações.
De lá para cá, outras frentes se somaram. Uma delas nasceu de dentro do próprio corpo discente – e talvez seja a que melhor explica o que a escola quer dizer com formar bons cidadãos. Chama-se Projeto Fluir. Começou em 2021, quando quatro alunas perceberam que algo tão básico quanto um absorvente íntimo era inacessível para muitas meninas e mulheres em comunidades vulneráveis de São Paulo. Desde então, o grupo arrecada absorventes e produtos de higiene na comunidade escolar e os leva, mês a mês, a uma região periférica da cidade, onde conversa com mulheres sobre pobreza menstrual.
“A pobreza menstrual vai muito além da falta de um produto de higiene. Ela afeta a autoestima, a educação, a saúde e a dignidade de várias mulheres diariamente”, diz Elisa de Toledo Piza, uma das estudantes à frente da iniciativa. Em campo, ela ouviu relatos que não constam de nenhuma prova. O de uma mulher que já havia improvisado absorvente com miolo de pão e com jornal. O de mães que nunca souberam explicar às filhas o que era menstruar. “O silêncio e a vergonha são uma herança geracional”, resume.
“Colégios como St. Paul's criam uma realidade, e é por isso mesmo que projetos sociais nos ajudam a entender os desafios reais enfrentados por uma parte da sociedade”, afirma. Usar as próprias oportunidades para reduzir distâncias não é um gesto opcional, mas um dever de quem vive numa realidade privilegiada, afirma a jovem, que está no último ano do ensino médio.
O que se leva dos cem anos
Para Edge, a herança da escola é fonte de identidade, mas não pode virar carga. “Não permitimos que ela nos defina”, afirma. “Estamos no negócio da educação, que exige olhar adiante e preparar crianças para o mundo das décadas de 2030, 2040, 2050”, defende. As tradições, na sua visão, só sobrevivem se conservarem outros atributos: pontualidade, respeito, postura. “Não vamos manter tradições se elas perderem relevância”, afirma.
Parte do trabalho é preparar os alunos para uma realidade em que nem tudo dá certo – algo difícil para uma geração que cresceu diante de telas. “Eles são apresentados a uma vida idealizada, veem a realidade dos outros nas belas fotos do Instagram. Mas a vida não é assim. Perceber que a frustração é normal e aprender a lidar com isso é muito importante”, observa ele.
1968: a rainha Elizabeth II durante visita à St. Paul's, registro do vínculo da escola com o Reino Unido (St. Paul's/Divulgação)
O calendário do centenário também tem seu simbolismo. A grande celebração final será uma apresentação artística na Sala São Paulo, casa de concertos que ocupa o prédio de uma antiga estação ferroviária projetada por engenheiros ingleses, no centro da cidade. Um eco distante dos trilhos que, um século atrás, ajudaram a trazer à cidade a comunidade que fundou a escola.
Ao chegar aos 100 anos, o colégio St. Paul's parece menos interessado em comemorar o que foi e mais em definir o que pretende ser. Para o diretor, o centenário não inaugura esse movimento, mas dá a ele a distância necessária para que se enxergue o quanto a escola já caminhou.
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