Stablecoin não é o futuro: é o presente silencioso do sistema financeiro
Por Giuliano Kohler Silva*
Por muito tempo, as stablecoins foram tratadas como uma promessa, uma espécie de “próxima fase” das finanças digitais. Essa leitura já está defasada. As stablecoins não são mais um experimento ou tendência emergente. Elas já operam, de forma silenciosa, como uma camada funcional do sistema financeiro global.
Enquanto o debate público ainda se concentra na volatilidade das criptomoedas como o Bitcoin, um movimento mais relevante avança com menos ruído e mais eficiência. Stablecoins, atreladas a moedas como o dólar e o real, vêm se consolidando como infraestrutura para pagamentos, liquidação e transferência de valor, especialmente em operações internacionais.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo o estudo da Chainalysis, empresa de análise de blockchain, o volume transacionado em stablecoins atingiu cerca de US$28 trilhões em 2025, com projeções que apontam crescimento exponencial na próxima década. Em diversos momentos, esse volume já rivaliza com redes tradicionais de pagamento em liquidação bruta.
Mais do que escala, o que chama atenção é o padrão de adoção. O uso cresce de forma consistente em mercados emergentes, onde acesso a moedas fortes, eficiência cambial e estabilidade são demandas concretas, não narrativas.
Esse avanço responde diretamente a ineficiências históricas do sistema financeiro, sobretudo em operações cross-border. Transferências internacionais ainda são caras, lentas e dependentes de múltiplos intermediários. Nesse contexto, stablecoins funcionam como um “atalho operacional”, permitindo liquidação quase instantânea, com menor custo e acesso mais direto à liquidez global.
Mas, talvez o ponto mais relevante — e menos debatido — seja o papel da regulação como divisor de águas. Nos últimos anos, o avanço regulatório deixou de ser uma barreira e passou a ser um catalisador. Jurisdições relevantes vêm estruturando regras mais claras para emissão, custódia e uso de stablecoins, reduzindo incertezas e abrindo espaço para a entrada mais consistente de instituições financeiras tradicionais.
Esse movimento muda o eixo da discussão. A pergunta deixa de ser “se” stablecoins serão adotadas e passa a ser “quem” vai liderar essa infraestrutura. E aqui está um ponto crítico: bancos têm uma vantagem estrutural que não pode ser ignorada.
Isso porque, diferentemente das big techs, instituições financeiras já operam dentro de um ambiente regulado, possuem expertise em gestão de risco, compliance e liquidez, além de relacionamento consolidado com clientes e acesso direto ao sistema financeiro global. Em um cenário onde confiança e estabilidade são essenciais, essas características deixam de ser burocracia e passam a ser um diferencial competitivo.
Isso não significa que big techs estejam fora do jogo. Pelo contrário, elas têm capacidade de escala e experiência em interface com o usuário. Mas, quando o tema é dinheiro, especialmente em escala global, a confiança institucional, a regulação e a solidez do balanço tendem a pesar mais do que a conveniência isolada.
Outro fator que acelera essa transformação são os eventos globais, desde comércio a mobilidade global, os quais expõem as dores do sistema atual. Custos elevados, prazos longos e falta de transparência tornam evidente a necessidade de soluções mais eficientes. As stablecoins, nesse sentido, surgem como evolução natural.
Isso também ajuda a explicar por que sua adoção é, muitas vezes, silenciosa. Diferentemente de outras inovações mais visíveis ao consumidor final, stablecoins operam nos bastidores, como infraestrutura. São menos sobre narrativa e mais sobre eficiência.
Ainda assim, é importante evitar simplificações. Stablecoins não são solução universal. Questões como padronização regulatória global, interoperabilidade entre sistemas e gestão de riscos ainda estão em evolução. Mas, isso não diminui seu papel atual, apenas reforça que estamos diante de uma tecnologia em consolidação, não em estágio inicial.
Para instituições financeiras, o sinal é claro: ignorar esse movimento não é mais uma opção estratégica viável. O debate relevante agora não é sobre o potencial das stablecoins, mas sobre como integrá-las de forma segura, eficiente e alinhada às exigências regulatórias. Quem conseguir fazer isso primeiro não apenas ganhará eficiência operacional, mas também relevância em um sistema financeiro que já começa a se redesenhar.
*Giuliano Kohler Silva é Head de Cripto e Câmbio do Braza Bank.
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