Stablecoins desafiam como bancos vão ganhar dinheiro, diz executivo do Deutsche Bank

Por Da Redação 20 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Stablecoins desafiam como bancos vão ganhar dinheiro, diz executivo do Deutsche Bank

*Por Ana Carolina Siedschlag

Em uma terça-feira comum em Frankfurt, uma fabricante alemã de equipamentos industriais precisa pagar US$ 4 milhões a um fornecedor americano em Chicago. Uma transação hipotética comum a empresas globais, mas ainda extensamente complexa.

Para que esse dinheiro possa sair da conta da empresa a partir de um banco na Alemanha e chegar ao do fornecedor, sediado nos Estados Unidos, ele depende de uma cadeia invisível de intermediários, em que cada um cobra sua fatia pelo caminho. Há conversão de moeda, com spread cambial, taxas de intermediação e a espera pelo horário bancário americano abrir, seguindo uma diferença de pelo menos cinco horas entre os dois países.

"As instituições financeiras ganham dinheiro dessa fricção que existe hoje", disse Sabih Behzad, chefe de Ativos Digitais e Moedas do Deutsche Bank. "Se reduzirmos essas fricções em certos lugares, o novo modelo fica um tanto incerto", disse.

Behzad, que falou durante uma conferência sobre o mercado europeu de ativos digitais, em Amsterdam, nos Países Baixos, se referia às stablecoins, uma tecnologia surgida a partir do mundo cripto. No início de maio, esses ativos digitais ficaram no centro dos holofotes no Brasil após uma norma do Banco Central que restringiu o uso deles em pagamentos no mercado de eFX, aquele em que empresas recebem pagamentos em reais no Brasil e remetem recursos à matriz em outra moeda.

As stablecoins são um tipo específico de criptomoeda cuja principal característica é a paridade com outro ativo - ou seja, o valor é sempre estável, o que leva ao seu nome (moeda estável, em tradução livre). Por exemplo, 1 unidade de uma stablecoin de real sempre vai valer R$ 1.

Segundo o executivo, o interesse dos clientes do DB por ativos assim explodiu nos últimos 12 meses, com as stablecoins fazendo sentido principalmente fora do ecossistema de um único banco para pagamentos transfronteiriços - ou seja, quando há mais de uma instituição financeira envolvida em transações internacionais.

Segundo ele, esse novo ecossistema também funciona onde o banco não chega: em pagamentos diretos com fornecedores e parceiros fora da rede bancária. É a maneira que alguns players globais encontraram de contornar as taxas cobradas ao longo de toda a cadeia.

No entanto, o volume real desse tipo de transação ainda é mínimo: apenas 1% dos fluxos de liquidações globais entre empresas corresponderam a transações feitas a partir de stablecoins em 2025, segundo um relatório da consultoria McKinsey. Apesar da fatia marginal frente aos US$ 200 trilhões em liquidações globais, a velocidade de crescimento tem movimentado os players globais.

Se os bancos já adotam, como ficam os outros intermediários?

"Parem de pensar em stablecoins como produto e comecem a pensar como infraestrutura", disse Maike Hornung, diretora de Stablecoins da Visa, em outro painel do evento. A tese da empresa é que não se trata de substituir a experiência de pagamento existente, mas de trocar a camada de liquidação por baixo, invisível para o usuário final. “Assim como você não pensa nos canos quando a água sai da sua torneira”, comparou Hornung.

Desde 2023, bancos e credenciadores parceiros podem liquidar suas obrigações na Visa usando USDC, uma stablecoin indexada ao dólar, em vez de transferências bancárias tradicionais. Essas transações podem acontecer sete dias por semana, incluindo fins de semana e feriados, sem nenhuma mudança para o portador do cartão.

Ou seja: na tela, as moedas seguem como dólar ou euro, mas, por trás, a estrutura de movimentação é outra.

O volume anualizado desse tipo de operação pela Visa chegou a US$ 7 bilhões em maio de 2026, uma alta de 50% em relação ao trimestre anterior, distribuídos por nove blockchains e mais de 130 programas de cartão vinculados a stablecoins em mais de 50 países. Apesar de diminuto em relação ao volume de pagamentos total - a Visa processou US$ 14,2 trilhões em pagamentos em 2025 -, o crescimento desse novo sistema no mercado como um todo não passou batido pelos bancos centrais.

Nos EUA, o governo aprovou em 2025 o chamado Genius Act, lei que criou um regime federal para stablecoins de pagamento e exige reservas 1:1 em ativos de alta qualidade - o que é criticado por autoridades europeias como uma sinalização clara de que Washington quer consolidar a liderança do dólar no sistema de liquidação digital.

Na Europa, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, dedicou um discurso inteiro ao tema em maio de 2026, defendendo que o continente construa sua própria infraestrutura de liquidação em vez de adotar stablecoins privadas, que são majoritariamente em dólar. O BCE já tem dois projetos em curso para isso: o Pontes, que conecta plataformas blockchain ao sistema de pagamentos europeu, e o Appia, um roadmap para um ecossistema financeiro tokenizado até 2028.

Para Behzad, do DB, essa regulação é o que permite que grandes bancos entrem no jogo. "Entender que é para lá que a maioria do comércio vai acontecer ao longo do tempo significa que estamos começando a regular o mundo real", disse. O que ainda não está claro é quem vai lucrar com ele.

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