SXSW chega aos 40 anos comprovando que ideias ainda precisam de gente

Por Marc Tawil 12 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
SXSW chega aos 40 anos comprovando que ideias ainda precisam de gente

Nesta quinta desembarco em Austin com a mesma sensação de 2025: a de estar lendo um jornal do futuro com data de hoje. Trinta anos de carreira me ensinaram a distinguir tendência de ruído e o South by Southwest, aos 40, continua sendo um dos lugares onde essa distinção fica mais nítida.

Primeiro, porque o SXSW desafia qualquer tentativa de compreensão linear. Neste ano serão 3.727 eventos em sete dias, 624 palestras distribuídas em 12 trilhas, 4.400 músicos em mais de 50 locais, 375 filmes exibidos em 18 salas, quatro noites dedicadas à comédia e 450 marcas ativando pelas ruas de Austin.

Sim, 3.727 eventos em uma semana. E espalhados por toda a cidade. O Convention Center, centro de convenções tradicional do festival, foi demolido em 2025 para dar lugar a um novo complexo previsto para 2029.

Neste ano, a pergunta que mais ouvi de executivos brasileiros foi direta: vale a pena?

Minha resposta também: muito.

O quarentão SXSW serve exatamente ao que o mundo precisa neste momento: um termômetro cultural que o mercado corporativo ainda não aprendeu a ler direito.

Esta será uma edição de experimentos. Pela primeira vez, Innovation, Film & TV e Music acontecem simultaneamente. Não há mais hierarquia entre negócios e cultura. Quem ainda pensa em silos está usando um mapa que o território já não reconhece.

E boa parte das conversas mais importantes continua acontecendo fora dos palcos, nos corredores.

Os principais palestrantes do SXSW estão menos para celebridades e mais para um diagnóstico do que veremos até o fim desta década.

Jennifer B. Wallace traz ao palco o conceito de mattering ou a sensação de ser visto, ouvido e valorizado. Parece um tema “soft”. Não é. Trata-se da tradução mais precisa da crise de retenção que hoje atravessa empresas no mundo inteiro.

Profissionais não pedem demissão apenas por salário. Pedem demissão quando deixam de se sentir relevantes.

As lideranças que ainda não perceberam isso encontrarão em Jennifer um check-up que deveriam ter feito há dois anos.

Lenda de Hollywood, o diretor Steven Spielberg vai ao SXSW responder uma pergunta que assombra qualquer marca e qualquer líder hoje: como ser ouvido quando a atenção virou o bem mais escasso do planeta?

Tom Sachs apresenta Show the Work, Tell the Story, uma tese simples e perturbadora: processo visível é narrativa. Imperfeição é autenticidade. O ritual de fazer – e mostrar como se faz – talvez seja o único antídoto real contra a superficialidade da era digital.

Já Rana el Kaliouby aborda o requisito mínimo para adoção tecnológica em escala: sistemas que amplifiquem empatia e responsabilidade. Um debate que boa parte das lideranças brasileiras ainda evita enfrentar.

E Aza Raskin leva o tema para um território ainda mais radical: o uso de inteligência artificial para decodificar linguagens de outras espécies.

Sim. Foi exatamente isso que você leu.

A trilha Tech & AI lidera com 142 sessões.

O segundo lugar, porém, pertence à Cultura, com 101 sessões — e não a startups ou venture capital.

Esse detalhe importa. Tecnologia sem substrato cultural vira ruído. Marca sem comunidade vira embalagem.

Três novidades merecem atenção: o CMOs Summit, dedicado ao colapso dos modelos tradicionais de mídia; o Podcast Industry Stage, consolidando o áudio como formato de profundidade (e não apenas de alcance); e as Core Conversations, encontros fechados onde o conteúdo não vaza.

Em um festival com quase quatro mil eventos, essa talvez seja a decisão mais inteligente da programação.

Música e comédia

No SXSW, música e comédia nunca foram tratadas como entretenimento de fim de tarde.

Por isso, neste ano, artistas da nova música mexicana – como Xavi, Delilah e Moreno X4 – ocupam espaços que há dez anos seriam inimagináveis.

Eles não pediram permissão. Construíram sua própria infraestrutura cultural e chegaram como protagonistas.

Faça um exercício simples: troque “música mexicana” por qualquer nicho que seu setor ainda ignora.

Você terá diante de si o roteiro dos próximos cinco anos do seu mercado.

A comédia, por sua vez, é talvez o laboratório de linguagem mais rápido que existe. Em vinte minutos de stand-up é possível aprender mais sobre comunicação do que em muitas palestras corporativas cheias de slides.

O Brasil em Austin

O Brasil estará em peso no festival, liderando uma das maiores delegações internacionais, com mais de 2.200 profissionais vindos de todo o País.

A SP House, iniciativa do Governo de São Paulo, amplia sua presença em 2026. Instalada na Congress Avenue, terá um espaço de 2.200 m² dedicado a encontros, arte urbana e experiências imersivas.

A Globo leva ao palco Pedro Bial, discutindo tecnologia e narrativa, além da especialista Amy Gallo, falando sobre conversas difíceis no ambiente de trabalho.

Também será apresentada internacionalmente a pesquisa Cultura no Espelho, baseada em quase 10 mil entrevistas presenciais realizadas no Brasil.

Os estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul também terão ativações próprias.

Em Austin, estarei como embaixador da Moovers SXSW Journey, imersão executiva organizada pela StartSe e pela comunidade Moovers.

E será com o olhar de quem busca antecipar e traduzir tendências que pretendo escrever artigos diários para esta coluna, diretamente do festival.

Festivais que chegam aos 40 anos normalmente têm dois destinos. Ou viram museu. Ou viram espelho. O SXSW escolheu ser espelho.

All Together Now, o slogan de 2026, funciona quase como uma provocação ao momento que vivemos: excesso de informação, escassez de conexão real e polarização como modo padrão de funcionamento das redes.

O festival não oferece respostas definitivas. Mas oferece algo mais incomum: um espaço onde pessoas de indústrias, países e disciplinas diferentes são obrigadas a sentar na mesma sala e ouvir umas às outras.

É raro. É valioso. E talvez seja exatamente o tipo de encontro que o mundo mais precisa agora.

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