'Tariflávio'? Governo Lula transforma defesa do Pix em arma eleitoral contra Flávio Bolsonaro
Em uma uníssona e rápida reação, o governo Lula seus aliados no Congresso têm agido para responsabilizar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seu irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por um eventual novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil. Com uma estratégia de comunicação coordenada pelo ministro Sidônio Palmeira, o governo e seus ministros têm se concentrado em defender o Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos que está na mira do Representante de Comércio dos EUA (USTR).
Nas redes sociais, aliados do governo e militantes de esquerda passaram a chamar a possível sanção de "Tariflávio", expressão que está entre as mais mencionadas na rede social X (antigo Twitter), por exemplo.
Entre aliados de Lula, a avaliação é que a crise também oferece uma oportunidade para desgastar politicamente o principal grupo de oposição a quatro meses da eleição. Ao associar um eventual aumento de tarifas americanas aos irmãos Bolsonaro, o discurso de Lula e de seus aliados busca atribuir aos adversários os custos econômicos e políticos de uma eventual escalada das tensões com Washington. A estratégia é reforçada pelo fato de o Pix ter se tornado uma das políticas públicas mais populares do país.
O USTR anunciou, na noite de segunda-feira, 1, a recomendação de impor uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras. O relatório que recomenda o novo tarifaço menciona o Pix pelo menos 20 vezes e afirma que o Banco Central trataria de forma "injusta e discriminatória" outros meios de pagamento ao privilegiar o sistema brasileiro gratuito.
O PIX é nosso. É do Brasil e do povo brasileiro. 🇧🇷
🎥 @ricardostuckert pic.twitter.com/dt4B6e3cU8
— Lula (@LulaOficial) June 2, 2026
A reação do governo veio logo na manhã de terça-feira, com declarações reservadas de autoridades de que a manifestação do USTR, em meio às negociações entre os governos do Brasil e dos EUA, era inaceitável e uma manifestação política.
Em discurso durante a inauguração de um campus universitário em Catalão (GO), Lula partiu para o ataque aberto contra a família Bolsonaro. O presidente chamou Flávio Bolsonaro de "imbecil" e traidor da pátria por supostamente ter feito, junto a Donald Trump, lobby em prol de novas sanções ao Brasil.
"Ele foi (aos Estados Unidos) pedir arrego (ao presidente americano). Imbecil. Ele não sabe que ele (Trump) não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar é o povo brasileiro, os empresários brasileiros, o agronegócio nosso", afirmou o presidente.
Pix intocável
A estratégia de comunicação do governo ressalta, ao mesmo tempo, que Lula está aberto ao diálogo, mas que o Pix é intocável e está fora de cogitação ceder às pressões americanas contra o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil.
Na avaliação de integrantes do governo, transformar a defesa do Pix em uma bandeira nacional também ajuda a potencializar o desgaste dos Bolsonaro junto à opinião pública. A leitura é que qualquer percepção de ameaça ao sistema de pagamentos, usado hoje por 170 milhões de pessoas físicas no Brasil, segundo o Banco Central, tende a gerar rejeição aos responsáveis por essa pressão.
Lula publicou em suas redes sociais imagens em que segura um cartaz com a frase "O Pix é do Brasil".
Ao mesmo tempo, ministros do governo deram declarações públicas em defesa do Pix e criticando uma suposta ação dos irmãos Bolsonaro contra os interesses nacionais. A fala dos ministros foi coordenada pelo ministro Sidônio Palmeira (Comunicação Social).
O mais crítico foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que mencionou críticas ao Pix por parte do USTR na investigação aberta no âmbito da chamada Seção 301 da Lei de Comércio americana.
"Mais uma vez, a família Bolsonaro faz o movimento contrário ao Pix. O Pix ele é expresso nas investigações que foram abertas pelos Estados Unidos em relação à (seção) 301. E o Pix está mais do que fora de debate, é evidente que está fora. O Pix é o maior símbolo da nossa soberania financeira, um orgulho do nosso país", afirmou Durigan.
Da mesma forma, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que, apesar do diálogo aberto com os americanos, não há possibilidade de que o governo brasileiro faça concessões relacionadas ao Pix.
"O Pix não tem a menor lógica de entrar nisso, porque ele não prejudica ninguém e é altamente benéfico à população brasileira", disse.
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