'Todo mundo está infeliz': na Meta, funcionários sentem efeitos da IA em demissões

Por Maria Eduarda Cury 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Todo mundo está infeliz': na Meta, funcionários sentem efeitos da IA em demissões

A Meta está prestes a anunciar uma de suas maiores rodadas de demissões em anos. Conforme a Bloomberg, cerca de 8 mil trabalhadores, ou 10% do quadro global, podem ser atingidos em cortes previstos para começar em 20 de maio. E uma parcela dos trabalhadores aguarda, com ansiedade, o momento em que serão desligados da big tech.

No primeiro trimestre de 2026, a empresa dona do Facebook teve um lucro de quase US$ 27 bilhões; ao mesmo tempo, elevou a previsão de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial para uma faixa entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões. Em conversa com investidores, Zuckerberg afirmou que a IA já acelerou o ritmo de trabalho dentro da empresa, reduzindo a necessidade de equipes grandes.

Os funcionários, entretanto, não responderam bem às mudanças rápidas para se adequar ao mercado de IA. "Todo mundo está infeliz. Os únicos que não estão são, literalmente, os executivos", disse um funcionário do Instagram à publicação americana Wired. Os cortes acontecerão poucos meses após a Meta desligar 3.600 funcionários em uma rodada de demissões focada em baixo desempenho. Não é a primeira vez que a empresa passa por turbulências assim. Há 3 anos, Zuckerberg batizou 2023 como o 'ano de eficiência' e promoveu duas ondas de cortes que somaram 21 mil desligamentos no que foi a maior reestruturação da história da companhia até então.

Em um sinal revelador do clima, vários funcionários disseram que torcem para estar na lista de cortes para receber o pacote de indenização de ao menos 16 semanas de salário e 18 meses de cobertura de saúde. No Reino Unido, parte da equipe começou a organizar um sindicato em articulação com o United Tech & Allied Workers, mesmo grupo com o qual funcionários do Google DeepMind votaram para se sindicalizar em protesto contra contratos de IA com o exército americano.

O software que quebrou o contrato

Um dos principais gatilhos da crise de confiança foi a instalação compulsória, nos computadores corporativos dos funcionários nos EUA, de um programa batizado de Model Capability Initiative (MCI). O programa coleta dados de comportamento no computador e cada ação dos funcionários vira insumo para treinar sistemas de IA voltados à automação de tarefas, e a adesão não é voluntária.

Quando os funcionários levaram suas reclamações aos canais internos, citando o histórico de vazamentos de dados da própria Meta como argumento, o CTO Andrew Bosworth teria rebatido os críticos de forma agressiva, segundo dois funcionários ouvidos pela Wired.

Fora dos Estados Unidos, o programa não chegou a ser instalado porque a proteção legal a trabalhadores em países como os da União Europeia criou um obstáculo regulatório que a empresa preferiu não enfrentar. A própria Meta confirmou o programa, mas garantiu que há salvaguardas em vigor e que os dados não são usados para outras finalidades.

O desconforto não vem só da vigilância. A remuneração média da empresa caiu de US$ 417 mil anuais em 2024 para US$ 388 mil no ano passado — ao mesmo tempo em que Zuckerberg oferecia pacotes de até US$ 100 milhões por ano para atrair pesquisadores de IA de ponta. A conta não fecha para quem está no meio do organograma.

Junto disso, mais de 1 mil engenheiros seniores foram transferidos à força para uma nova divisão de IA aplicada no mês passado. A ideia de que quem recusasse poderia enfrentar uma demissão foi vista como uma ruptura abrupta do acordo para os padrões do Vale do Silício.

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