Tokenização, Pix e stablecoins: Brasil no radar
Por André Carneiro*
O interesse internacional pelo Brasil nos últimos anos não surgiu por acaso — nem se explica por uma única iniciativa isolada. O que colocou o país no radar global foi a convergência entre três movimentos estruturantes: o Pix como infraestrutura de pagamentos instantâneos, a tokenização de ativos como novo modelo de registro e liquidação, e o avanço das stablecoins reguladas como camada programável de valor digital.
Mais do que tecnologias específicas, esses elementos revelam uma visão integrada de sistema financeiro: rápido, interoperável, regulado e orientado à privacidade. É essa combinação — rara em escala nacional — que vem sendo observada atentamente por reguladores e instituições internacionais.
Pix: a base invisível da eficiência sistêmica
O Pix costuma ser analisado apenas sob a ótica de pagamentos, mas seu impacto vai além. Ele introduziu no Brasil uma infraestrutura de liquidação instantânea, disponível 24/7, padronizada e amplamente adotada. Isso criou um novo patamar de expectativa para usuários, empresas e instituições financeiras.
Do ponto de vista estrutural, o Pix mostrou que é possível operar uma rede crítica em escala nacional com: baixa latência regras claras governança central integração simples com múltiplos participantes Essas características se tornaram referência para outras camadas do sistema financeiro.
A lógica de eficiência, interoperabilidade e padronização inaugurada pelo Pix passou a influenciar diretamente o desenho de soluções mais complexas, como a tokenização de ativos e a circulação de moedas digitais estáveis.
Tokenização: o elo entre ativos, pagamentos e liquidação
É na tokenização que o interesse internacional se intensifica. Ao representar ativos financeiros em estruturas digitais programáveis, o Brasil passou a testar um novo modelo de registro, transferência e liquidação, capaz de reduzir atritos históricos do sistema financeiro.
A tokenização permite que ativos, garantias e direitos sejam: registrados de forma rastreável transferidos com regras claras liquidados quase em tempo real auditáveis por design Quando combinada com infraestruturas de pagamento instantâneo, como o Pix, e com moedas digitais estáveis, a tokenização cria um ambiente onde a liquidação financeira e movimentação de ativos deixam de ser processos separados.
Esse acoplamento é um dos pontos que mais despertam interesse fora do país, justamente por atacar gargalos estruturais presentes em mercados maduros.
Stablecoins: a camada programável do valor digital
As stablecoins surgem nesse contexto como instrumentos de liquidação e programação financeira, capazes de conectar ativos tokenizados, pagamentos instantâneos e regras de negócio em um ambiente regulado.
O que chama atenção internacionalmente não é apenas a existência de moedas estáveis, mas o fato de elas serem concebidas para operar com: privacidade proporcional ao papel dos participantes interoperabilidade entre diferentes infraestruturas integração com o sistema financeiro existente.
Essa abordagem evita rupturas desnecessárias e reforça um princípio central: inovação financeira só escala quando respeita o legado, a regulação e a confidencialidade dos dados.
Stablecoins e Drex: modelos complementares, não excludentes
Embora frequentemente apresentados como caminhos concorrentes, stablecoins reguladas e iniciativas de moeda digital soberana, como o Drex, tendem a ocupar papéis complementares dentro de uma mesma arquitetura financeira.
Enquanto stablecoins oferecem agilidade, programabilidade e flexibilidade para liquidação e integração com ativos tokenizados, projetos como o Drex exploram a digitalização da moeda soberana com foco em política monetária, liquidação interbancária e garantias sistêmicas.
Na prática, o debate internacional evolui para modelos híbridos, nos quais moedas digitais soberanas convivem com stablecoins reguladas, interoperando em ambientes controlados. Essa coexistência amplia as possibilidades de liquidação, preserva a soberania monetária e, ao mesmo tempo, permite inovação em escala — desde que privacidade, interoperabilidade e governança estejam incorporadas desde o desenho da infraestrutura.
Interoperabilidade e privacidade como arquitetura
Um dos diferenciais do modelo brasileiro é tratar privacidade e interoperabilidade como requisitos de arquitetura, e não como camadas adicionadas posteriormente. Em ambientes financeiros, a circulação de ativos exige visibilidade seletiva: cada participante precisa ver apenas o que lhe compete. Ao mesmo tempo, sistemas distintos precisam conversar entre si sem expor dados sensíveis.
Esse equilíbrio — entre transparência operacional e confidencialidade — é exatamente o tipo de desafio que reguladores e mercados internacionais buscam resolver. A experiência brasileira mostra que é possível avançar em tokenização e uso de stablecoins sem sacrificar privacidade, desde que esses princípios sejam incorporados desde o desenho da infraestrutura.
O Brasil nos fóruns globais
Essa visão integrada levou o Brasil a ocupar espaço em debates internacionais sobre: tokenização regulada de ativos interoperabilidade entre infraestruturas nacionais privacidade em redes financeiras programáveis stablecoins como instrumentos de liquidação.
Mais do que apresentar conceitos, o país passou a contribuir com experiências práticas, algo ainda raro no debate global. O Brasil deixou de ser apenas um caso observado à distância e passou a influenciar discussões técnicas e regulatórias.
Lições que o mundo observa
A combinação entre Pix, tokenização e stablecoins consolidou algumas lições que começam a ecoar fora do país: Tokenização precisa estar conectada à liquidação Pagamentos instantâneos são base, não acessório Stablecoins podem operar em ambientes regulados Privacidade não inviabiliza escala Interoperabilidade deve ser estrutural Para finalizar, o destaque internacional do Brasil não vem de uma tecnologia isolada, mas da coerência entre suas escolhas estruturais.
Pix, tokenização e stablecoins formam um conjunto que aponta para um sistema financeiro mais eficiente, integrado e confiável. Ao tratar privacidade e interoperabilidade como fundamentos — e não como concessões — o país oferece ao mundo um modelo concreto de como modernizar infraestruturas financeiras sem abrir mão de segurança e governança. Assim, o Brasil não está apenas acompanhando o futuro das finanças digitais, está ajudando a desenhá-lo.
*André Carneiro é CEO da BBChain.
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