Tomografia em múmias mostra que dores nas costas já afetavam o Egito Antigo

Por Vanessa Loiola 5 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Tomografia em múmias mostra que dores nas costas já afetavam o Egito Antigo

Tomografias computadorizadas de última geração estão ajudando a reconstituir a saúde, o envelhecimento e as experiências de vida de dois homens que viveram no Egito Antigo há mais de 2.200 anos. Radiologistas da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, escanearam duas múmias egípcias usando a mesma tecnologia empregada hoje em hospitais para diagnosticar fraturas, tumores e lesões internas.

Os exames foram conduzidos pelo Keck Medicine, centro médico da universidade, e analisaram os corpos de Nes-Min, que viveu por volta de 330 a.C., e Nes-Hor, datado de cerca de 190 a.C. Ambos eram sacerdotes e tiveram seus corpos preservados por mais de dois milênios. O procedimento permitiu examinar ossos, articulações e tecidos sem remover as faixas ou danificar os envoltórios funerários.

Exames médicos modernos ajudam a reconstruir vidas do Egito Antigo

As múmias foram escaneadas ainda posicionadas na parte inferior de seus sarcófagos, que pesavam cerca de 90 quilos cada. Um tomógrafo computadorizado de alta resolução, capaz de gerar até 320 imagens transversais por rotação, produziu modelos digitais tridimensionais extremamente detalhados.

As imagens revelaram características faciais preservadas, como pálpebras, lábios e contornos do rosto, além de vestígios que ajudam a compreender a expectativa de vida e o estado de saúde dos indivíduos. Segundo a equipe responsável, os achados são relevantes não apenas do ponto de vista histórico, mas também por mostrarem como muitas doenças continuam presentes na população atual.

Lesões cicatrizadas, dores crônicas e problemas no quadril

A análise indicou que Nes-Min provavelmente conviveu com dores crônicas na região lombar. As tomografias mostraram colapso de vértebras nessa área, compatível com desgaste natural e envelhecimento, além de fraturas antigas que haviam cicatrizado, sugerindo que ele sofreu traumas significativos ao longo da vida.

Nes-Hor, por sua vez, apresentou um quadro avançado de deterioração do quadril, condição que provavelmente causava dor intensa e dificuldades severas de locomoção. Os exames também identificaram problemas dentários, reforçando sinais de envelhecimento mais acentuado em relação a Nes-Min.

A diretora do Centro de Inovação em Visualização Médica da USC, Summer Decker, explicou que o nível de detalhe obtido foi possível graças aos avanços recentes na tecnologia de escaneamento. Segundo ela, embora as múmias já tivessem sido analisadas no passado, os novos exames revelaram informações que antes não eram visíveis e ajudaram a construir um retrato mais preciso de como essas pessoas viveram.

Artefatos funerários e status social

Além das condições de saúde, as imagens trouxeram novos dados sobre as práticas funerárias. Nes-Min foi sepultado com uma vestimenta de rede ricamente decorada com miçangas sobre o torso, além de colares de contas coloridas e artefatos simbólicos, como escaravelhos e um peixe, indicando posição social elevada e cuidado ritual no sepultamento.

Esses elementos puderam ser analisados em detalhe graças às reconstruções digitais e às impressões tridimensionais feitas a partir das tomografias.

Impressões 3D aproximam ciência, medicina e arqueologia

Após o escaneamento, os pesquisadores criaram modelos digitais 3D completos das múmias e produziram impressões em tamanho real de crânios, colunas vertebrais, quadris e objetos funerários. A mesma tecnologia é usada rotineiramente na medicina moderna para planejar cirurgias complexas e ajudar pacientes a compreender melhor suas próprias condições clínicas.

De acordo com Decker, a visualização e a impressão 3D permitem que médicos analisem estruturas complexas com precisão, o que melhora o planejamento cirúrgico e pode levar a tratamentos mais personalizados. Ela destacou ainda que, ao segurar uma réplica física de um órgão, o paciente passa a entender melhor sua condição e o procedimento ao qual será submetido.

Exposição leva descobertas ao público

Os resultados do estudo, assim como os modelos digitais e as impressões 3D, estarão disponíveis ao público na exposição Múmias do Mundo, que será inaugurada no California Science Center. A mostra marca o retorno da exposição a Los Angeles após circulação internacional e reúne múmias que nunca haviam sido exibidas na cidade.

Para a antropóloga Diane Perlov, vice-presidente sênior de projetos especiais do centro científico, a tecnologia permite ir além da curiosidade arqueológica. Segundo ela, ao revelar a origem de dores nas costas ou no quadril, as múmias deixam de ser vistas apenas como objetos antigos e passam a ser reconhecidas como pessoas reais, com corpos que envelheceram e enfrentaram limitações físicas.

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