Trabalhadores do cuidado: as carreiras em expansão em um Brasil que envelhece

Por Layane Serrano 20 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Trabalhadores do cuidado: as carreiras em expansão em um Brasil que envelhece

O dia começa cedo para Camila de Oliveira Vieira, 35 anos, cuidadora de idosos em Xerém, Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Entre medicações, apoio na mobilidade, alimentação e, principalmente, conversas, a rotina exige atenção constante, tanto ao corpo quanto às emoções de quem ela cuida.

“O maior desafio pra mim é conseguir suprir as necessidades do idoso na saúde física e mental e mostrar para ele que a idade é importante, mas que independentemente da idade ele pode e deve ser feliz o máximo que puder”, afirma.

Com quase 4 anos de experiência, Camila representa um grupo de profissionais cada vez mais demandado no Brasil: os trabalhadores do cuidado.

Em um país que envelhece rapidamente, funções antes invisíveis passam a ocupar espaço central na economia e na sociedade.

Cora Residencial Senior Premium, clínica para idosos localizada no Rio de Janeiro. Há um descompasso entre o número de idosos e a formação de profissionais preparados (Cora Residencial Senior Premium/Divulgação)

Um país mais velho, e com novas demandas

Em menos de um século, o brasileiro passou a viver mais de 30 anos a mais, segundo dados do IBGE.

Evolução histórica (dado forte para análise)

É com essa velocidade que o Brasil deve atingir seu pico populacional em 2041, segundo o IBGE, e, a partir daí, terá uma população progressivamente mais envelhecida. O crescimento de profissionais, como cuidadores e gerontólogos, aparecem neste cenário que está diretamente ligado a uma mudança estrutural, que hoje já pauta em setores como previdência e saúde pública.

Na prática, isso significa mais famílias buscando apoio profissional para lidar com doenças crônicas, perda de autonomia e questões cognitivas, como demências - enquanto o país passa a conviver com menos pessoas em idade ativa (que possam contribuir para a previdência social) e uma demanda crescente por cuidados e serviços de saúde.

O cuidado, que antes era majoritariamente familiar, passa a se tornar uma cadeia estruturada, envolvendo desde cuidadores até equipes multidisciplinares com enfermeiros, fisioterapeutas e médicos.

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Na linha de frente, o cuidador

É nesse cenário que profissionais como Camila atuam. Sua entrada na área aconteceu quase por acaso, após se formar como técnica de enfermagem. Ela foi convidada para cuidar de uma idosa com fratura de fêmur e desde então aposta nesta profissão.

“Fui visitá-la e desde então entrei na área como cuidadora dela. Fiquei com ela durante quase três anos”, conta Camila.

Antes disso, sua trajetória profissional era diversa: já trabalhou como confeiteira, operadora de caixa, atendente e feirante. A mudança de carreira reflete um movimento comum em um setor que cresce mais rápido do que a formação de profissionais qualificados.

Além da técnica, o trabalho exige habilidades comportamentais, empatia, paciência e capacidade de lidar com situações emocionalmente exigentes são tão importantes quanto o conhecimento prático.

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Gerontologia: a estratégia por trás do cuidado

Se o cuidador está na ponta, o gerontólogo atua no planejamento e na coordenação da assistência. Ainda pouco conhecida no Brasil, a área ganha relevância à medida que o envelhecimento se torna um fenômeno estrutural.

Para Ana Julia Marinho, gerontóloga de 26 anos, a escolha pela profissão começou ainda na infância. Aos 9 anos, ela teve a oportunidade de visitar espaços, como o local onde ela trabalha hoje, que  na época era chamado de "asilo".

"Eu percebia que a forma como eles viviam ali, para mim, não era a certa, porque eram pessoas que só recebiam a nossa visita naquele momento e essa era a única coisa boa que eles tinham", diz Ana Julia. "Quando a gente chegava, eles só estavam assistindo televisão e eu olhava para aquilo e, mesmo sendo criança, me causava angústia."

Para Ana Julia, os idosos poderiam viver melhor e foi ali que a Gerontologia virou mais do que uma profissão, mas um propósito de vida.

"Eu só não sabia o nome da profissão", diz a gerontógola que escolheu o curso em 2017. "Na época, eu olhei e pensei: esse curso é perfeito, junta tudo que eu sempre gostei, como psicologia, a parte social e a de saúde".

Hoje, ela vê na profissão a possibilidade de transformar a vida das pessoas durante suas atividades, no Cora Residencial Senior Premium, ILPI no RJ.

“O que mais me motiva é ver o resultado, pessoas que não tinham propósito resgatando o convívio social, os prazeres de ter uma rotina”, diz.

O trabalho do gerontólogo envolve avaliar capacidades, identificar limitações e desenvolver estratégias para promover autonomia, qualidade de vida e bem-estar.

Ana Julia ao lado do residente, Joaquim Martins, 88 anos: “Minha expectativa é que mais pessoas tenham um envelhecimento com qualidade de vida, e que a Gerontologia seja muito mais difundida no futuro” (Cora Residencial Senior Premium/Divulgação)

Crescimento acelerado, e desafios estruturais

Apesar da expansão da demanda, o setor de cuidadores de idosos ainda enfrenta gargalos importantes.

Há um descompasso entre o número de idosos e a formação de profissionais preparados, o que resulta em mais vagas abertas e maior dificuldade de contratação.

"Aqui no Brasil ainda não é uma área valorizada, até porque é pouco conhecida. Ela tem sido mais difundida agora, mas ainda tem pouquíssimos cursos de bacharelado. A graduação em si está somente em São Paulo e agora em Brasília, de forma presencial. Então ainda não é muito valorizada, mas eu creio que tem muito potencial para ser", diz Ana Julia.

Para Fabia Rossi Barbosa, gerontóloga e gerente comercial do Cora360°, rede integrada de soluções especializadas para o envelhecimento que integra residenciais para idosos e cuidados particulares, o envelhecimento populacional já é percebido de forma concreta no cotidiano da assistência.

“Vemos cada vez mais famílias buscando suporte profissional para garantir qualidade de vida, segurança e acompanhamento contínuo, especialmente em casos de doenças crônicas, limitações funcionais e demências”, afirma.

Segundo ela, porém, a expansão da demanda não tem sido acompanhada pela mesma velocidade na formação de profissionais qualificados.

“Já existe um descompasso claro entre oferta e demanda. O número de idosos cresce em ritmo acelerado, enquanto a formação de profissionais preparados não acompanha essa velocidade. Isso se traduz em aumento constante na abertura de vagas e em mais tempo para preenchimento dessas posições”, diz.

Valorização não cresce com a demanda

Além do desafio de profissionais formados, a valorização de um profissional do cuidado ainda é limitada, especialmente no caso da gerontologia, que conta com poucos cursos de graduação no país.

O avanço dessas profissões também passa por um movimento de regulamentação. Em março, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal do Brasil aprovou o PL 76/2020, que estabelece critérios mínimos para a atuação de cuidadores, como formação, idade mínima e aptidão física e mental.

Outro projeto, o PL 3063/2025, busca delimitar as funções do cuidador, reforçando que ele não substitui profissionais de enfermagem em procedimentos complexos.

Já a regulamentação da Gerontologia ainda não foi consolidada em lei federal, embora esteja em discussão há anos.

Cuidado exige técnica e preparo emocional

No caso dos cuidadores de idosos, o desafio não está apenas em contratar, mas em selecionar pessoas com preparo técnico e perfil comportamental compatível com a complexidade da função. De acordo com Fabia, a realidade dos atendimentos, muitas vezes marcada por quadros de demência e perda de autonomia, exige olhar mais criterioso.

“Os principais desafios na contratação estão ligados à qualificação e ao preparo emocional. Entre os públicos que atendemos, a doença de Alzheimer aparece com grande incidência, e isso exige diferencial no cuidado que nem todos os candidatos têm", diz Fabia.

Além da formação e da experiência prática, a gerontóloga afirma que está falando de um trabalho realizado, muitas vezes, dentro da casa do paciente, o que torna indispensáveis a empatia, a responsabilidade, a ética e a estabilidade emocional.

Entre as competências técnicas mais valorizadas estão:

Já no campo comportamental, pesam atributos como paciência, boa comunicação, sensibilidade (para lidar com situações delicadas) e capacidade de responder a rotinas emocionalmente exigentes.

O futuro do cuidado

A expectativa é de crescimento contínuo. Com mais pessoas vivendo até os 80, 90 ou até 100 anos, o cuidado deixa de ser exceção e passa a ser parte central da vida e se torna um desafio de saúde pública no Brasil.

“Minha expectativa é que mais pessoas tenham um envelhecimento com qualidade de vida, e que a Gerontologia seja muito mais difundida no futuro”, diz Ana Julia.

Para profissionais como Camila, esse futuro já começou, e é construído todos os dias, em rotinas silenciosas que sustentam algo essencial: o direito de envelhecer com dignidade.

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