Trabalhamos para concluir a privatização no 1º semestre, diz CEO da Copasa
A Copasa trabalha para concluir o processo de desestatização ainda no primeiro semestre deste ano, segundo a presidente da companhia, Marília Carvalho de Melo, em entrevista exclusiva à EXAME. Nesta quarta-feira, a empresa reportou lucro líquido de R$ 337 milhões no 4º trimestre de 2025.
"O processo está muito avançado e a definição da data da oferta é do controlador [o governo de Minas Gerais]. A expectativa é a conclusão até o fim do primeiro semestre", afirma Carvalho de Melo ao detalhar o estágio atual da oferta de ações que prevê a entrada de um investidor de referência com 30% de participação.
Segundo a executiva, a estrutura da operação está avançada. A companhia já aprovou o novo estatuto pós-desestatização, a golden share e formou o sindicato de bancos que conduzirá a oferta.
"O valuation está em realização e será submetido ao controlador e aos órgãos de controle antes da definição da data da oferta", afirma.
O calendário da oferta corre em paralelo à renegociação de contratos com os municípios mineiros. A estatal atende 636 cidades e já se reuniu com 250 para discutir a conversão de contratos de programa em contratos de concessão.
A companhia já renovou seis contratos e considera 80 municípios estratégicos para avançar antes da privatização, diz a presidente, que aposta que a assinatura com Belo Horizonte — hoje em fase final de trâmites internos — pode impulsionar novas adesões.
Marília afirma que a renovação integral dos contratos não é condição para a conclusão da operação.
“Nós estamos oportunizando a todos os municípios, todos, sem exceção, mas não temos como pré-requisito a renovação de todos os contratos para efetivar a desestatização”, diz.
Além da renovação, a empresa busca ampliar a base de receitas com a inclusão do serviço de esgoto nos municípios onde hoje opera apenas água.
“Temos abordado os municípios para que possamos aumentar as nossas receitas a partir da inclusão de concessão de esgoto”, diz a presidente.
Leia a entrevista completa com Marília Carvalho de Melo, presidente da Copasa
Como a Copasa fechou 2025 em termos de resultados?
Fechamos o ano de 2025 com um investimento recorde na Copasa, R$ 3,9 bilhões, um crescimento em relação ao ano passado de 31%, muito representativo. Na verdade, esse crescimento já vem dos últimos três anos. Mas o ano de 2025 foi muito relevante dada a diferença percentual em relação a 2024. E, aliado a isso, temos um plano de investimento muito robusto para os próximos anos, já aprovado na nossa governança, de R$ 21 bilhões até 2030. Isso já está aprovado no nosso plano de investimentos. Em meio a isso, também temos a distribuição de dividendos de 50% no ano passado, R$ 515 milhões pagos e mais R$ 139 milhões a pagar. Mantemos o pay-out de 50% no ano de 2025. O nosso EBITDA anual foi de R$ 2,9 bilhões, com crescimentos relevantes nos últimos anos e planejamento muito robusto para os próximos.
E como estão os resultados de redução de perdas e ganhos operacionais?
Sobre redução de perdas, temos um trabalho muito agressivo para atingir os 25%, que é a meta do Marco em 2033. Partimos, em 2020, de aproximadamente 40% de perdas e, hoje, nesse ano de 2025, fechamos o ano com 32,4%.
Isso se dá muito por investimento, substituição de rede, substituição de hidrometração em vários dos nossos municípios. Já mostramos esses resultados no ano de 2025, mas temos contratos em execução para atingirmos o marco de 25%.
Outro ponto importante é que temos resultados de redução do número de empregados por ligação. Esse também é um número que mostra nossa eficiência operacional na companhia. Também ampliamos no ano passado o número de economias, tanto de água quanto de esgoto. Superamos 80% na meta de esgotamento sanitário nos municípios em que prestamos serviço e mantivemos 99% no abastecimento de água. O esgoto está em crescimento.
E como a revisão tarifária realizada se encaixa no contexto dos resultados?
Um ponto importante foi a revisão tarifária no final do ano passado, que foi de 6,50%. Esse trabalho que foi feito junto com a agência reguladora foi muito importante para as nossas operações, mas também para a segurança futura no próprio processo de desestatização.
Como está a inadimplência?
Reduzimos bastante nos últimos anos a inadimplência. Houve manutenção praticamente de 2024 para 2025 e hoje temos níveis comparados com outros players do setor muito bons. Mas trabalhamos com um plano de ação que vem ao longo do tempo e que pretendemos ainda trabalhar as reduções na inadimplência.
Qual é o planejamento para o esgoto, um dos principais desafios no saneamento?
A universalização do esgoto está nos nossos pilares estratégicos de investimento. O nosso Capex está muito focado na universalização de esgoto nos municípios em que prestamos serviço.
Temos 636 municípios em que prestamos serviço de água, mas temos um gap entre aqueles em que atendemos somente água e aqueles em que atendemos esgoto. O processo de universalização nos traz essa janela de oportunidade de incluir as cidades em que não prestamos serviço de esgoto nos novos contratos, fazendo a reversão de contratos de programa para contratos de concessão.
Temos abordado os municípios para podermos aumentar as nossas receitas a partir da inclusão de concessão de esgoto. Mas no nosso Capex, nosso planejamento, já temos contratações executadas em curso e estão realmente priorizando toda a parte de coleta e tratamento de esgoto.
Como está a negociação de renovação do contrato com Belo Horizonte?
O nosso foco é a negociação com Belo Horizonte. No final do ano passado, foi assinado esse termo de compromisso. Estamos negociando nesses dois meses iniciais com eles cotidianamente e hoje temos uma minuta final que superou todas as questões técnicas e jurídicas com o município.
Estamos aguardando alguns trâmites internos do município para assinatura. Nossa expectativa é de assinatura nos próximos dias. E, obviamente, a assinatura de Belo Horizonte traz uma repercussão importante, inclusive com outros municípios maiores.
Qual é a estratégia para assinar com todas as cidades?
Quando cheguei à companhia, nós redirecionamos a estratégia com os municípios. Chamamos todos os municípios aqui em Belo Horizonte, mandamos convite para os 636. Até agora, nós já nos reunimos com 250 municípios, oportunizando a eles a conversão do contrato de programa para contrato de concessão.
Além do prazo até 2073, para termos a capacidade de reequilíbrio econômico-financeiro dos investimentos necessários para a universalização, trazemos para eles outras vantagens nesse processo, como inclusão de área rural, que é uma demanda grande no estado de Minas Gerais.
Alguns municípios que aderiram. Nosso último dado aqui: seis municípios que aceitaram essa conversão de contrato e estamos negociando com todos eles. Temos uma expectativa de concluir a desestatização no primeiro semestre.
Tratamos com os municípios que a assinatura vai ser um pouco modelada com o nosso prazo de desestatização, porque isso trazemos para eles segurança jurídica e técnica no processo. Mas nós não temos como pré-requisito a renovação de todos os contratos para efetivar a desestatização.
Com quantos municípios estratégicos a companhia espera renovar?
É difícil cravar um número. Tivemos feedbacks muito positivos das reuniões iniciais. O que acredito é que a assinatura com Belo Horizonte, que está próxima, é uma alavancagem muito importante para a adesão dos outros municípios, especialmente os municípios mais estratégicos para a Companhia.
Temos uma avaliação de que são 80 municípios que são os mais estratégicos desses 636. Nesses municípios, acreditamos que Belo Horizonte será uma alavancagem para eles aderirem.
Se pelo menos esses 80 municípios estratégicos renovarem contratos de água e esgoto, quanto além do previsto será necessário investir para universalizar até 2033?
Não temos esse dado ainda, até porque pretendemos fazer essa reavaliação do nosso plano de investimento com a concretização da renovação dos contratos.
Em que pé está o processo de privatização?
O primeiro ponto é a definição do modelo pelo controlador. Publicamos o fato relevante sobre isso. É modelo de follow-on, com busca de investidor de referência com 30% das ações na primeira oferta e depois o restante, com possibilidade do Estado permanecer com 5%, dependendo da aderência do investidor de referência.
Aprovamos a proposta do novo estatuto pós-desestatização na Assembleia Geral extraordinária e aprovamos também a Golden Share. Publicamos o fato relevante da formação do sindicato de bancos que conduzirá o processo.
O valuation está sendo realizado, será submetido ao controlador e aos órgãos de controle. O processo está muito avançado e a definição da data da oferta é do controlador. A expectativa é a conclusão até o fim do primeiro semestre.
A expectativa é que o processo seja concluído ainda em março, como já disse o governo Romeu Zema, ou mais para o fim do primeiro semestre?
Estamos trabalhando com o prazo que o controlador gostaria.
Como a senhora está organizando a companhia internamente, em termos de estrutura e produtividade, antes da desestatização?
Elaboramos um novo planejamento estratégico da companhia e definimos algumas ações de remodelagem interna da companhia. Inclusive, a nossa remodelagem do organograma se espelhou muito no modelo da Sabesp.
Tanto a reorganização da diretoria operacional quanto da diretoria de engenharia, especialmente as duas que foram mais impactadas nesse processo de remodelagem. Já estamos fazendo um trabalho de relocação de equipes, com toda a avaliação de demandas regionais das nossas superintendências, que também nós já fizemos. Isso está em curso antes do processo de desestatização.
Além disso, criamos um CSC, um Centro de Serviços Compartilhados aqui em Belo Horizonte, para otimizar o nosso processo de contratação, ganhar em escala e eficiência. Remodelamos o nosso modelo de contratação dos terceirizados, que também é um ponto muito importante, buscando contratos mais longos e contratos focados em desempenho, que trazem mais eficiência com as nossas terceirizadas.
Temos diversas ações já em curso e até o próprio processo de crescimento expressivo do Capex nos últimos anos já é um resultado dessa reestruturação.
Como a tarifa entra nesse processo?
A última revisão tarifária foi muito importante. Tivemos mudanças estruturais relevantes. Os ativos passam a ser considerados para fins de tarifa anualmente. Antes era em ciclos de quatro anos.
Houve criação de um fundo no estado de Minas Gerais, na lei aprovada no ano passado, com previsão legal para a questão das tarifas. Mas o controlador já manifestou que pretende utilizar o fundo para apoiar os municípios em temas vinculados à drenagem urbana.
Há interesse de investidores?
Tem consultorias contratadas que apoiam a Copasa e o controlador nesse processo. Esses diálogos têm sido feitos por meio dessas consultorias. O feedback é que há um grande interesse e o próprio valor de tela das ações da Copasa já tem demonstrado isso.
Além da desestatização, quais são as prioridades operacionais da companhia?
Primeiro que, obviamente, chego num momento de duas frentes de trabalho muito relevantes: a desestatização, que hoje é a nossa prioridade na companhia, mas, obviamente, a operação e a gestão da companhia.
Segurança hídrica é um tema muito relevante para a companhia, especialmente em função dos eventos climáticos extremos. Sempre nos preocupamos com a seca, mas agora, por exemplo, na Zona da Mata, estamos numa situação absolutamente crítica. O município de Ubá, por exemplo, teve o nosso sistema de captação levado com a chuva.
Esse trabalho de segurança hídrica para garantir o abastecimento em extremos hidrológicos é um tema muito caro para a companhia. De fato, o esgoto é a nossa prioridade absoluta.
E o fato de a Copanor ser incluída na Copasa?
A decisão do Legislativo foi incluir a Copanor na Copasa, onde temos os maiores déficits em relação às metas de universalização, uma região com IDH muito baixo e que vamos ter que ter um trabalho forte lá.
Tanto de gestão operacional quanto de investimentos, para chegarmos às metas do Marco. Também é um ponto relevante a questão da eficiência operacional e mudança de cultura interna.
Desde a minha chegada, tenho dialogado muito com os empregados da companhia, para, independentemente do que a lei garante de 18 meses de estabilidade, prepará-los para uma equipe de alto desempenho, que é o que o mercado espera, e otimizar o processo para dar condição de entregas mais céleres.
Tenho muito foco na desestatização, mas temos muito trabalho a fazer na parte operacional da companhia.
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