Tratamento comum após infarto pode ser inútil para parte dos pacientes, aponta estudo
Um estudo internacional publicado no The New England Journal of Medicine questionou uma prática adotada há mais de quatro décadas no tratamento de pacientes após infarto. Segundo os pesquisadores, os betabloqueadores — medicamentos amplamente prescritos depois de ataques cardíacos — não apresentaram benefícios significativos em pessoas que mantiveram a função cardíaca normal após um infarto sem complicações.
A pesquisa faz parte do estudo REBOOT, liderado por cientistas do Mount Sinai Hospital e do Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares (CNIC), da Espanha.
Os resultados foram apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia e envolvem dados de 8.505 pacientes acompanhados por quase quatro anos.
Betabloqueadores são usados há décadas
Os betabloqueadores passaram a ser utilizados de forma rotineira após infartos em um período em que os tratamentos cardíacos eram muito diferentes dos atuais.
Hoje, muitos pacientes recebem atendimento mais rápido, com desobstrução precoce das artérias coronárias e uso de terapias modernas, como estatinas e antiplaquetários.
Diante dessas mudanças, os pesquisadores investigaram se os betabloqueadores ainda traziam benefícios relevantes para pacientes com função cardíaca preservada após infartos sem complicações.
Os participantes do estudo foram divididos em dois grupos: um recebeu betabloqueadores após a alta hospitalar e o outro não utilizou os medicamentos. Todos os pacientes continuaram recebendo os demais tratamentos padrão recomendados para recuperação cardíaca.
Medicamento não reduziu mortes e novos infartos
Segundo os pesquisadores, os betabloqueadores não reduziram significativamente o risco de morte, recorrência de infarto ou hospitalização por insuficiência cardíaca nos pacientes analisados. O estudo afirma que mais de 80% dos pacientes com infarto sem complicações ainda recebem alta hospitalar com esse tipo de medicamento.
Os cientistas destacam que os betabloqueadores continuam importantes para muitos pacientes, especialmente aqueles com insuficiência cardíaca, arritmias ou redução da função do coração. Porém, os resultados indicam que o uso rotineiro pode não ser necessário em todos os casos.
Mulheres apresentaram possível aumento de risco
Um sub-estudo publicado no European Heart Journal encontrou um dado que chamou atenção dos pesquisadores. Mulheres que utilizaram betabloqueadores após infartos sem complicações apresentaram maior risco de morte, novo infarto ou hospitalização por insuficiência cardíaca em comparação com aquelas que não receberam os medicamentos.
O aumento de risco apareceu principalmente entre pacientes com função cardíaca considerada completamente normal após o infarto. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que os resultados não significam que pacientes devam interromper o tratamento por conta própria.
Especialistas defendem tratamento mais individualizado
Os autores do estudo afirmam que os resultados reforçam a necessidade de abordagens mais personalizadas após infartos. Segundo os pesquisadores, os avanços da cardiologia moderna mudaram o perfil de recuperação desses pacientes, o que pode exigir revisão de protocolos antigos.
Além do estudo REBOOT, pesquisas recentes como REDUCE-AMI e BETAMI-DANBLOCK também vêm avaliando quais grupos realmente se beneficiam dos betabloqueadores após infarto.
As evidências atuais sugerem que pacientes com função cardíaca reduzida ainda podem se beneficiar significativamente do tratamento, enquanto aqueles com função preservada talvez não precisem da medicação de forma rotineira.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: