Trégua no Irã alivia mercados, mas gestores veem fragilidade no acordo
O cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos provocou reação imediata nos mercados: petróleo recuou, dólar também. Bolsas subiram. Mas o que esperar para os próximos dias com a ciência de que a Guerra entrou em hiato, mas não acabou de fato?
Para Luciano Boudjoukian França, sócio-fundador e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde, a trégua "remove um risco imediato", mas "parece frágil para sustentar um rali linear e prolongado". Ele cita incertezas sobre o Estreito de Ormuz e o risco de novas escaladas. "No curtíssimo prazo, temos um alívio. No médio prazo, ainda há bastante incerteza", diz.
Luis Ferreira, CIO da firma de wealth management EFG, compartilha da cautela. Para ele, o mercado reage rápido quando o pior cenário sai da mesa, mas precisa de mais evidência para acreditar em estabilidade. "A trégua ajuda o mercado a subir. Quem sustenta o rali são os fundamentos", afirma. Ferreira cita uma combinação de fatores necessários para dar consistência ao movimento: temporada de resultados das empresas forte, valuations mais atraentes e menor pressão do petróleo sobre inflação e juros.
Paula Moreno, sócia e co-CIO da Armor Capital, avalia o momento como gatilho para que o petróleo possa caminhar para patamares mais baixos nos próximos meses. Ela lembra que "o forte movimento de correção dos preços foi por conta da reprecificação do risco de elevação dos juros em diversas regiões, num patamar mais elevado que o esperado no primeiro momento do conflito".
Com o petróleo em baixa, Boudjoukian França vê "dois sinais antagônicos" para o Ibovespa. De um lado, a queda da commodity ajusta o recente rali da Petrobras e reduz a amplitude do movimento frente a mercados que capturam melhor um cenário global de "risk-on".
De outro, "o Ibovespa continua com a força vindo de bancos e setores domésticos, que tendem a reagir bem à queda dos juros longos e à melhora do sentimento". O gestor também cita juros reais elevados, câmbio mais comportado e liquidez como atributos que preservam o apelo do Brasil nesse ambiente. Moreno reforça que bancos e mineração sofreram correções relevantes durante o conflito, abrindo espaço para alocação. Ela acrescenta um alerta: "O tema de eleição pode trazer mais volatilidade para os ativos brasileiros em meados do ano."
Realocação global e emergentes
Os três gestores convergem: a realocação global pode continuar, mas de forma seletiva. Ferreira resume: "O fluxo global volta primeiro para qualidade. Emergentes entram depois, e sob seleção." Para ele, países com fundamentos mais sólidos, menor fragilidade externa e boa liquidez devem ser privilegiados.
Boudjoukian França acrescenta que o investidor estrangeiro "dificilmente vai ampliar risco de forma mais agressiva enquanto não houver sinais de que o acordo consegue sobreviver além desse horizonte inicial", mas que "o ambiente volta a ser construtivo para emergentes mais líquidos".
Moreno observa que, após o forte movimento de redução de risco do mês passado, há potencial de alocação — "com menor volume e com mais seletividade".
Copom e a Selic
Com petróleo mais baixo e câmbio mais estável, Boudjoukian França avalia que o Banco Central "fica menos pressionado no curto prazo", o que "melhora a margem de manobra para a política monetária". Mas faz a ressalva: "A trégua ajuda, mas não redefine sozinha a trajetória de juros no Brasil. O Copom continua dependente dos dados, das expectativas de inflação e do balanço de riscos doméstico."
Moreno tem leitura similar e afirma que "o mercado voltou a ter um pouco mais de convicção de que o Banco Central vai continuar o ciclo de corte de juros". A Armor Capital mantém projeção de Selic a 12,50% até o final do ano.
Dólar e real
Sobre o dólar, Boudjoukian França vê espaço para retomada da trajetória de enfraquecimento, desde que a trégua se mostre "minimamente estável". Ele aponta o diferencial de juros favorável e o retorno parcial do apetite por risco como apoios para o real, mas alerta: "Qualquer ruptura relevante tende a recolocar rapidamente demanda por proteção e valorização do dólar."
Ferreira é mais cauteloso com o real. Ele destaca que o Relatório Focus do Banco Central aponta déficit em conta corrente de cerca de US$ 65 bilhões por ano, dívida líquida do setor público subindo de 70% para 79% do PIB até 2029 e déficit nominal anual de cerca de 8% do PIB nos próximos três anos. "Quando esse pano de fundo fiscal e externo se combina com maior ruído político, escândalos de corrupção e com a aproximação do ciclo eleitoral, o real tende a seguir sensível", diz. Para ele, "o consenso é que o câmbio ainda pode voltar para a região de R$ 5,50".
Moreno projeta o índice do dólar (DXY) em uma faixa entre 97 e 102 nos próximos meses, com o euro como principal limitador. "Mantemos nossa visão de que o euro acima de 1,18 é ruim para a competitividade da Europa", explica. "O dólar pode voltar a perder força, mas não devolve prêmio de segurança por decreto", resume Ferreira.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: