Trump no supermercado: por que o preço dos alimentos deve influenciar as midterms nos EUA
O preço da carne nos Estados Unidos disparou de 2025 para cá. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (CPI) atingiu 4,2% em 12 meses, a primeira vez que o indicador supera os 4% desde 2023. Nesse período, a carne registrou alta de 7,6%, e isso deve pesar no bolso — e na hora de votar nas eleições de meio de mandato (midterms), que acontecem em novembro nos EUA.
Uma nova análise da Pesquisa de Política Alimentar e Agrícola Gardner mostra que a pressão sobre o orçamento das famílias está no centro das decisões de voto — independentemente de partido político, mostra o estudo conduzido por Maria Kalaitzandonakes e Jonathan Coppess, do Departamento de Economia Agrícola e do Consumidor da Universidade de Illinois, e por Brenna Ellison, da Universidade Purdue.
Segundo os pesquisadores, o cenário político de 2026 reforça uma tendência já observada nas eleições presidenciais anteriores: a economia do dia a dia, especialmente o preço dos alimentos, tornou-se um dos principais motores do comportamento eleitoral.
“A economia e o custo de vida continuam figurando entre os fatores mais importantes para os eleitores, independentemente da filiação partidária”, afirmam os autores da pesquisa.
O estudo, realizado com cerca de 1.000 adultos nos EUA, mostra que o custo de vida e a inflação aparecem como prioridades absolutas entre republicanos, democratas e independentes. Em média, os entrevistados atribuíram notas elevadas (entre 7,7 e 8,5 em uma escala de 0 a 10) para o impacto da economia e da inflação sobre o voto.
Mais do que isso: mais de 40% dos entrevistados em todos os partidos afirmaram que a posição de um candidato sobre a acessibilidade dos alimentos pode influenciar fortemente sua decisão nas urnas.
“Constatamos que a acessibilidade dos alimentos é uma das questões mais transversais do eleitorado, com impacto significativo sobre diferentes grupos políticos”, afirmam os pesquisadores.
No caso da carne, os preços acumulam sucessivos recordes de alta. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.
Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.
A alta é resultado de uma combinação de fatores, como condições climáticas adversas, redução do rebanho bovino e a tarifa de 50% imposta pelo governo de Donald Trump sobre a carne brasileira em julho de 2025.
Agro e Trump
O estudo também mostra que outras dimensões da política agroalimentar — como segurança dos alimentos, programas de assistência (SNAP e WIC) e apoio a agricultores — aparecem como relevantes, ainda que secundárias em relação ao preço no supermercado.
Entre os democratas, 57,9% afirmam que a posição dos candidatos sobre acessibilidade alimentar influencia fortemente o voto. Entre republicanos, o índice é de 40,9%, e entre independentes, 44,3%.
“A segurança alimentar e a acessibilidade deixaram de ser apenas temas técnicos da política agrícola e passaram a integrar o debate central das eleições”, afirmam os pesquisadores.
Outro achado do estudo é a percepção dos eleitores sobre o papel dos partidos na formação dos preços dos alimentos.
A maioria dos entrevistados acredita que há capacidade de influência política sobre o tema — especialmente entre democratas e republicanos, que tendem a atribuir essa responsabilidade ao próprio partido.
Já entre os independentes, o ceticismo é maior: mais de 20% afirmam não acreditar que qualquer partido consiga reduzir os preços dos alimentos.
“Observamos uma percepção generalizada de que políticas públicas podem afetar os preços no supermercado, embora exista variação significativa entre grupos políticos”, dizem os autores.
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