Trump viaja para a China com Musk para tratar de comércio e terras raras
O muito esperado encontro entre o presidente americano, Donald Trump, e o dirigente chinês, Xi Jinping, planejado para começar nesta quarta, 13, e terminar na sexta, 15, deverá ter o comércio como tema principal.
Como um sinal claro disso, Trump levou consigo uma seleção de CEOs e executivos importantes de diversos setores americanos, principalmente do setor de tecnologia.
Entre os nomes, estão Elon Musk, que lidera a Tesla e a SpaceX, além de ser dono do X, novo Twitter, Tim Cook, à frente da Apple, e Larry Fink, que lidera a multinacional de finanças e investimentos BlackRock. Além disso, importantes executivos de plataformas como Meta,Visa, JP Morgan, Boeing, Cargill e outras também acompanharão o presidente.
Terras raras também são um ponto de debate, e os EUA visam convencer as autoridades chinesas a relaxarem seu controle sobre os minerais com ofertas que incluem 500 aeronaves Boeing e um fluxo constante de alimentos americanos e demais produtos agrícolas para a China.
Mesmo com a pauta de abertura comercial, a China também deve buscar, segundo o World Economic Forum, proteger seus mercados contra restrições e regulações americanas, especialmente no que diz respeito a tecnologia avançada e inteligência artificial.
Por fim, o eterno ponto sensível de Taiwan, para quem os EUA fornecem armamentos, apesar de não se posicionarem oficialmente como aliados, ou de reconhecer formalmente o território como um país. Durante uma conversa telefônica entre Trump e Xi em fevereiro, Xi enfatizou que "a questão de Taiwan é o assunto mais importante nas relações China-EUA" e instou os Estados Unidos a "lidarem com a questão da venda de armas para Taiwan com prudência". Analistas acreditam que Taiwan pode ser o assunto em que Trump faça mais concessões, a fim de conseguir o mesmo da China na esfera comercial.
A visita marcará a primeira de um presidente americano à China desde novembro de 2017, quando o próprio Trump visitou o país pela última vez, em seu primeiro mandato. Mesmo assim, os dois se encontraram diversas vezes ao longo dos anos – com o mais recente encontro em uma cúpula em Busan, na Coreia do Sul, às margens da qual os líderes tiveram conversas que resultaram na redução de 10% das tarifas americanas sobre as exportações chinesas, de 57% para 47%. Nas palavras de Trump, o encontro bem-sucedido foi “nota 12 de 10.”
Dessa vez, todavia, o encontro acontecerá perante um cenário geopolítico particularmente tenso, já que a guerra no Irã – que já supera os 70 dias – abalou cadeias energéticas e de produção em todo o mundo, reverberando inclusive em mercados e na diplomacia, adicionando ainda outra camada de incertezas a uma relação que já era frágil.
Relações atuais – tensões, embates e impasses
Relações entre a China e os EUA, considerados rivais, seguem permeadas por imbróglios e incertezas (ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP)
No momento, os interesses comerciais das duas maiores potências – que já passam a ser conhecidas como o G2, termo usado inclusive por Trump – enfrentam um impasse. Apesar de uma acalmada nas guerras tarifárias de 2025, na qual ambos os lados impuseram taxas intensas de até mais de 100% um sobre o outro, o cenário atual não é melhor do que um empate; a China controla, com punho de ferro, até 90% da produção e processamento de terras raras e minerais críticos (importantes para componentes no setor de tecnologia e no setor militar), enquanto os EUA usam como moeda diplomática seus produtos de alta tecnologia (como semicondutores) e seu peso financeiro no mundo.
Enquanto os EUA buscam contornar o que é basicamente um monopólio chinês em terras raras, fechando dezenas de acordos com países que também possuem reservas da commodity, incluindo o Brasil, a China estimula a produção doméstica de semicondutores e tenta se livrar – e os países em sua esfera de influência, como o bloco da Asean – da dependência sobre o dólar, tornando o yuan e moedas locais opções cada vez mais válidas e fortes, mesmo para transações internacionais. Em um escopo mais amplo, se posiciona para mais e mais países como um parceiro comercial mais estável e multilateral do que os EUA, atraindo visitas de líderes inclusive da União Europeia.
Em janeiro, durante o Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, enfatizou o compromisso da China com o multilateralismo e o comércio, observando, em um discurso, que a China está "promovendo a prosperidade comum com seus parceiros comerciais por meio de seu próprio desenvolvimento e ampliando o bolo para a economia e o comércio globais".
Nos dois primeiros meses de 2026, as exportações da China cresceram 21,8% em relação ao ano anterior, refletindo uma reorientação para mercados fora dos EUA que ajudou a amortecer o impacto da queda no comércio com os Estados Unidos, segundo dados também do World Economic Forum.
Enquanto isso, administrações comerciais americanas estão investigando ativamente relatos de supercapacidade industrial e trabalho forçado na China, o que pode emergir como uma razão adicional para impor altas tarifas. No começo desse mês, a potência asiática, por sua vez, implementou uma “medida de bloqueio” que ameaça com punições fiscais contra empresas que seguirem sanções americanas. A China também ameaçou impor consequências semelhantes a empresas que mudem suas cadeias de produção para outros países, um ponto em que os EUA insistem com afinco.
Isso faz com que a visita possa definir as relações entre os dois maiores superpoderes do mundo por anos.
O que mais pode ser discutido?
Comércio, geopolíticae Taiwan: o que pode ser discutido no encontro entre Donald Trump e Xi Jinping? (Artyom Ivanov/Getty Images)
Uma importante proposta americana comercial é a criação de uma “Administração do Comércio”, que visa formalizar e suavizar as relações comerciais entre os países. Essa é uma ideia abertamente discutida, inclusive pelo representante do comércio dos EUA, Jamieson Greer, e inclui esforços para equilibrar o comércio bilateral, como a definição formal de bens prioritários de importação e exportação. A medida representaria uma evolução das medidas tarifárias, com pouca negociação, para mecanismos institucionalizados de mediação.
No tópico de mercado chinês, a questão de marcas de carro chinesas também pode ser um ponto importante, conforme o país busca mais acesso de carros elétricos chineses como a BYD – que, mais cedo esse ano, se tornou o maior produtor de carros elétricos do mundo – no mercado americano.
Além do comércio, questões geopolíticas mais amplas também afetam os laços, com a guerra americana-israelense contra o Irã no Oriente Médio, por exemplo, que complica as relações regionais da China com o Irã, cuja situação pré-guerra era otimista, com os países tendo assinado um acordo em 2021 focado em cooperação econômica, tecnológica e de segurança.
Apesar de suas vastas reservas de petróleo, capazes de sustentar o país mesmo durante a crise, a guerra no Oriente Médio ainda traz más notícias para a China: alguns de seus principais produtores viram seus custos de operação subirem em mais de 20%. Buscando um fim rápido ao conflito, o país assumiu o papel de mediador, juntamente com o Paquistão, apresentando inclusive um plano de cinco pontos principais para o fim da guerra.
Além disso, a situação com a Venezuela, outro parceiro histórico da China, também amarga as perspectivas para os EUA. A China providenciou, ao todo, mais de US$ 100 bilhões em empréstimos e petróleo para o país sul-americano.
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