Ultraprocessados se tornam símbolo de infância feliz, mas rótulos são ignorados

Por Letícia Ozório 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ultraprocessados se tornam símbolo de infância feliz, mas rótulos são ignorados

Oito em cada dez cuidadores dizem se preocupar muito com a alimentação saudável dos filhos, mas metade das crianças comeu algum ultraprocessado no lanche do dia anterior à entrevista. Esse paradoxo está no centro de um estudo divulgado nesta terça-feira, 31, pelo UNICEF, que investigou os hábitos alimentares na primeira infância em comunidades de Belém, Recife e Rio de Janeiro.

A contradição tem explicação. Nas comunidades pesquisadas — Guamá, Ibura e Pavuna —, oferecer biscoito recheado, suco de caixinha ou salgadinho não é descuido: é, muitas vezes, gesto de afeto e símbolo de que a família conseguiu melhorar de vida. Ao mesmo tempo, o que as famílias entendem por "saudável" nem sempre corresponde à realidade.

Mais da metade dos entrevistados classificou o iogurte com sabor como um alimento saudável. Quase metade fez o mesmo com nuggets — desde que preparados na fritadeira elétrica. O estudo chama esse fenômeno de "falsos saudáveis".

A rotulagem nutricional frontal, que deveria ajudar a desfazer essas confusões, não chega a cumprir esse papel. Implantada no Brasil em 2022, a medida é ignorada por 55% dos cuidadores na hora de colocar produtos no carrinho. Parte deles sequer compreende o que os alertas significam.

"O estudo mostra, de forma clara, que escolhas alimentares não são apenas individuais, mas moldadas pelo ambiente", afirmou Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição no UNICEF Brasil. Segundo ela, fatores como contexto familiar, acesso, preço e qualidade da informação pesam tanto quanto a vontade de cada um — e por isso a construção de hábitos saudáveis precisa começar nos primeiros anos de vida.

Saúde e alimentação

A alimentação fora do padrão saudável é mais visível nos lanches do que nas refeições principais. Enquanto 50% das crianças consumiram ultraprocessados nesse intervalo, o índice cai para 27% no café da manhã e para 13% no almoço e no jantar — onde o arroz com feijão ainda resiste como base da dieta familiar. As escolhas alimentares das famílias não dependem só de informação ou vontade. Mães sobrecarregadas, que concentram a maior parte do cuidado com as crianças, frequentemente recorrem a ultraprocessados também pela praticidade, de acordo com a pesquisa. A  falta de redes de apoio deixa pouca margem para alternativas.

O mesmo vale para a atividade física. Nove em cada dez entrevistados reconhecem que se movimentar faz bem à saúde, e 57% dizem ter praças ou áreas de lazer perto de casa. Mas violência, má iluminação e equipamentos sem manutenção afastam as crianças desses espaços. As crianças chegam a usar as áreas dos bairros para brincar, mas sem rotina ou horário fixo. Onde existem, iniciativas comunitárias e redes de vizinhança são apontadas como fatores decisivos para viabilizar a atividade física.

Meninas enfrentam barreiras adicionais: desde cedo são direcionadas a brincadeiras mais sedentárias, como bonecas, e, com o tempo, acumulam tarefas domésticas que reduzem ainda mais o tempo disponível para se movimentar.

O resultado desse conjunto de fatores aparece nos dados de saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde, 13,5% das crianças de até cinco anos já tinham excesso de peso em 2023. Entre adolescentes, essa proporção sobe para 31,2%. A obesidade é hoje a forma mais comum de má nutrição entre crianças e jovens no Brasil, e tem crescido de forma acelerada.

Recomendações

Para reverter esse quadro, o UNICEF elenca sete frentes de ação. No campo regulatório, defende avançar na restrição da publicidade infantil de ultraprocessados, na tributação desses produtos e na criação de ambientes escolares mais saudáveis — com menos exposição e mais educação alimentar no currículo. Na estrutura pública, aposta na ampliação de creches e escolas em tempo integral, que além de garantir refeições mais adequadas ajudam a aliviar a sobrecarga das famílias, especialmente das mulheres. Nos territórios, a aposta é em espaços urbanos mais seguros e bem mantidos, que permitam o brincar livre e a prática de atividade física.

Nos serviços de saúde, o estudo recomenda ampliar o aconselhamento nutricional desde a gestação, para evitar a introdução precoce de ultraprocessados. Nas comunidades, sugere fortalecer hortas, feiras e projetos esportivos locais como caminhos concretos de acesso a uma alimentação melhor. E na comunicação, defende campanhas em linguagem simples que ajudem as famílias a identificar "falsos saudáveis" e a entender o que dizem os alertas da rotulagem frontal — incluindo o monitoramento da efetividade desses rótulos ao longo do tempo.

A Novo Nordisk e o UNICEF mantêm desde 2023 uma parceria global voltada à criação de ambientes mais saudáveis para crianças no Brasil, Colômbia, México e Indonésia, com meta de impactar ao menos 10 milhões de meninos e meninas nos quatro países. "A prevenção de doenças crônicas, como a obesidade, deve começar ainda na infância. Soluções efetivas precisam considerar os múltiplos fatores que influenciam o bem-estar de crianças e adolescentes", disse Patricia Byington, Head de Sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil, que financiou a pesquisa.

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