Um clássico Almodóvar
Depois de estrear O Quarto ao Lado, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2024, e o primeiro longa-metragem falado em inglês do diretor, Pedro Almodóvar volta às telonas com Natal Amargo, todo em espanhol, que estreia no Festival de Cannes deste ano. A trama conta duas histórias paralelas. Uma é a de Elsa, uma cineasta esgotada que, um ano após a morte da mãe, começa a escrever um novo roteiro de um filme. Inspirada na própria dor e na história de pessoas próximas, ela se vê sozinha quando os amigos ao seu redor ficam descontentes com o uso do sofrimento alheio para a criação do roteiro. A outra é a de Raúl, roteirista obcecado que conta ao público a história de Elsa, seu alter ego. Ele mesmo vive uma crise com as pessoas mais próximas que o cercam e o inspiram.
É um filme dentro de um filme que, por sua vez, discute a escrita de um terceiro filme — esse que Almodóvar nos apresenta, autobiográfico, metalinguístico e corajoso.
Para detalhar esse labirinto criativo, poucos dias antes de embarcar rumo a Cannes, o diretor concedeu uma entrevista por videochamada, da própria casa, a veículos brasileiros selecionados, entre eles a Casual EXAME. Na tela, era possível ver em sua estante uma coleção de estatuetas, amontoadas como pesos de papel: um Oscar, um Bafta, dois Leões de Ouro. Durante a conversa, o cineasta mergulhou nos dilemas éticos que movem a trama.
“Falo aqui sobre ética e moralismo”, disse o cineasta. “É fato que a natureza de um escritor é ser egoísta; é quase impossível renunciar a uma ideia fértil, especialmente se ela vem de alguém próximo. O que tem mais poder naquele momento, porque é algo muito misterioso e extraordinário, é a própria ideia. Acredito, porém, que o ponto que deve servir de referência é tratar de não fazer mal a ninguém com o que você está fazendo.”
Esse ponto de partida também está no principal fio condutor do filme: o luto. A paralisia emocional que acomete ambos os protagonistas pode ser encarada, no fundo, como uma reflexão sobre as ausências. Em Natal Amargo, o peso molda as decisões de cada personagem — de Elsa, dos amigos e de Raúl, que encontram no isolamento um espelho para a dor. Foi a maneira que Almodóvar encontrou para refletir sobre como o sofrimento não deve ser mascarado.
“O luto é uma experiência necessária, porque nossa natureza nos leva a isso, de um modo ou de outro”, explicou o diretor durante a conversa. “É preciso saber vivê-lo, e não exatamente de uma forma negativa, mas conviver com ele sem cair na complacência. A dor tem que terminar ou encontrar um modo de ser mais leve. Espero que as pessoas reconheçam as próprias dores neste filme.”
Terror na tela
Inspirada no clássico de Scorsese, a série Cabo do Medo chega à Apple TV com Javier Bardem e Patrick Wilson
Cabo do Medo: 35 anos após o filme, Max Cady está de volta às telas (Apple TV/Divulgação)
O ano era 1991 e Martin Scorsese lançava o que seria um dos filmes mais intensos de sua carreira. Cabo do Medo, estrelado por Robert De Niro e indicado a dois Oscars, consolidou uma vilania icônica e um terror estilizado que marcou época. O resultado foi tão potente que uma sequência parecia fora de propósito.
Mais de três décadas depois, mesmo sem levar as estatuetas, o diretor viu espaço para levar o filme para a TV. Ele retoma o universo do longa agora como produtor-executivo, ao lado de Steven Spielberg, com a série Cabo do Medo, da Apple TV.
Criada por Nick Antosca, a produção traz Javier Bardem no papel que foi de De Niro. A trama enfoca Anna (Amy Adams) e Tom Bowden (Patrick Wilson), advogados que ajudaram a condenar o assassino. Com a libertação dele, mais de 25 anos depois, o bem-estar da família e dos filhos dos promotores entram em xeque, sob uma violência física e psicológica ainda mais sombria.
Com a mentoria de Scorsese e Spielberg, Antosca buscou uma abordagem mais íntima. “Queria recriar a sensação de catarse, de acordar de um pesadelo, algo que o filme de Scorsese me proporcionou como um sonho febril intensificado”, explicou o criador em entrevista exclusiva à Casual EXAME. “Ao ver os primeiros episódios, o próprio -Scorsese se surpreendeu com a -atmosfera que criamos.”
Na série, o terror escala na ambiguidade. “Gosto da dificuldade de interpretar um personagem complexo. Tom tem segredos, não se pode confiar nele”, disse Patrick Wilson à Casual EXAME. “Para chegar a isso, tive que ir pelo caminho contrário. Tentei fazer o público gostar de mim, sendo um bom pai e marido, parecendo fazer o bem apesar dos problemas da família. Você tem que fazer o seguro de forma muito segura para que, quando se torna aterrorizante, o sentimento seja ainda mais profundo.”
O papel de carregar a intensidade de De Niro de volta às telas coube a Javier Bardem. E a transformação do ator no personagem surpreendeu Antosca e Wilson. “Mitchum e De Niro são forças incríveis. Foi difícil encontrar alguém para o papel”, afirmou o criador da série. “Ninguém além de Javier nos vinha à mente, e fico feliz que ele tenha topado. É um cara doce, gentil, o que torna impressionante como se transforma para evocar a ameaça que Cady representa. É o ator mais imprevisível que eu conheço, no melhor sentido da palavra.”
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