Uma Embrapa para a biodiversidade brasileira
*Por David Canassa
Um recente estudo de pesquisadores do MIT revelou que a Embrapa, criada em 1973, elevou a produtividade agrícola brasileira em 110%, gerando um retorno de R$ 17 para cada R$ 1 investido, graças à pesquisa adaptada às condições ecológicas locais do país.
O Brasil deixou de ser um importador de alimentos, e a partir do final dos anos 1980, atingiu superávit e hoje é um dos maiores exportadores mundiais de diversos produtos do agronegócio.
Era senso comum antes da criação da Embrapa que o Cerrado brasileiro era improdutivo, assim como diversas outras localidades do país. Foi a pesquisa de laboratório e de campo, realizada com consistência ao longo de décadas, que possibilitou reverter esse cenário e criar inovações que geraram outras economias ao país, tal como a fixação biológica do nitrogênio.
Estima-se que somente na safra 2022/23, US$ 15 bilhões foram economizados em fertilizantes, pois as bactérias, que fazem parte da biodiversidade, fizeram esse papel.
Se essa revolução que impactou o mundo positivamente foi feita para culturas básicas como soja, milho e arroz, o que poderia ser feito direcionando esses esforços para o potencial da biodiversidade brasileira?
Há um primeiro nível de uso da biodiversidade, que vem da coleta de seus produtos. Temos muitos produtos nesse contexto, por exemplo, seivas e sementes. Dentre eles, podemos destacar como exemplo a castanha do Brasil (ou do Pará), um produto internacionalmente aceito, com mercado consolidado e cujo maior exportador é a Bolívia.
O país fatura algo em torno de US$ 150 milhões/ano, enquanto o Brasil chega em torno de US$ 40 milhões/ano, mesmo tendo seis vezes mais floresta amazônica.
Porém, esse é um exemplo que demonstra a falta de visão de governo e empreendedores para criar cadeias produtivas que funcionem de maneira eficaz. Nesse exemplo, não é tão necessário um desenvolvimento relacionado à pesquisa, pois a riqueza está disponível na floresta.
É uma questão de estruturar o funcionamento do negócio e gerar as oportunidades para uma região carente de negócios e desenvolvimento inclusivo. A castanha é somente um dos produtos conhecidos para uso direto. Quantos mais existem nos diferentes biomas brasileiros, que ainda não são de conhecimento amplo?
O segundo nível já implica em processar esses insumos da biodiversidade, aproveitando características para aumentar seu valor na cadeia de negócios. Apesar de desafios como regulamentação, exemplos como a extração de seivas, que são utilizadas para diversas finalidades, da indústria química, cosmética, farmacêutica e fitoterápicos, mostram o caminho.
Um dos exemplos é a copaíba, de onde o quilo in natura vale em torno de R$ 15, e seu extrato purificado pode ser utilizado como anti-inflamatório veterinário a valores que superam os R$ 5 mil/kg
Estima-se que na Amazônia existam em torno de 100 espécies conhecidas que produzem látex, resinas e gomas. Na Mata Atlântica, o número de espécies conhecidas gira em torno de 30.
Quando se verifica que existem entre Amazônia e Mata Atlântica, que são os biomas mais biodiversos que temos, que o total de árvores de diferentes espécies chega a mais de 7 mil, começa-se a notar o imenso potencial de pesquisa relacionada somente a produtos não madeireiros que não foi realizada, e quantos dos problemas mundiais poderiam ser resolvidos com esses insumos.
Para visualizar os níveis de valor agregado:
No nível 1, temos a castanha, que apresenta baixo valor agregado por ser comercializada in natura. No nível 2, aparece a copaíba, cujo valor agregado é alto, podendo chegar a cerca de R$ 5 mil por quilo quando purificada. Já no nível 3, encontram-se os genes do arroz, que representam um valor agregado revolucionário, com potencial de aumentar a produtividade em mais de 15%.
Além disso, deve-se observar que não é necessário pensar somente no extrativismo nas florestas. Há diversas experiências bem-sucedidas que mostram que a integração lavoura-pecuária e floresta, assim como outros sistemas agroflorestais, pode incorporar árvores com viés produtivo. São mais comuns as implementações para o potencial madeireiro e com árvores exóticas.
Um foco em pesquisa e desenvolvimento, integrado com cadeias de negócios, possibilitaria uma diversificação nessa situação, trazendo novas e rentáveis oportunidades para produtores. Além disso, outra frente quase não explorada é o potencial de enriquecer a reserva legal obrigatória das propriedades rurais com espécies de alto valor agregado.
Uma iniciativa como essa faria com que essa parte das propriedades rurais, que hoje é vista como um custo e um risco (principalmente relacionado a incêndios e invasão), se transformasse em atividade produtiva e assim contribuísse para o aumento do valor agregado do agronegócio. Algumas propriedades já estão usando essa possibilidade para produção de cacau.
A terceira possibilidade, que faz parte da discussão da Convenção da Diversidade Biológica da ONU e que está contemplada na legislação brasileira, trata do potencial da informação genética.
Determinadas características de alguns seres da biodiversidade podem resolver problemas diversos. Esse é um tema que gera debates acalorados, mas de fato já está acontecendo. A Embrapa foi protagonista em uma iniciativa de melhoramento do arroz cultivado, usando genes de outra espécie de arroz silvestre que ocorre no Pantanal e Amazônia.
A empresa desenvolveu linhagens híbridas que aumentaram em mais de 15% a produtividade, reduziram a incidência de doenças e a necessidade de agroquímicos.
Fazendo um comparativo com o projeto Genoma Humano, estima-se que esse mapeamento gerou para cada dólar investido entre US$ 65-178 em atividades econômicas, além de fomentar diversas cadeias de negócios que antes não existiam.
O quanto o mapeamento genético de nossas espécies pode trazer de retorno? E aqui não se trata somente de árvores, mas de fungos, todos os seres no solo e todas as espécies vegetais e animais.
Há exemplos louváveis acontecendo no Brasil nesse sentido, de buscar a valorização e geração de negócios com a biodiversidade. Em Belém, durante a COP Clima no ano passado, foi inaugurado o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, que é um laboratório junto com equipamentos para prototipagem e produção em pequena escala de produtos da biodiversidade.
Também é digno de nota o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que desde 1952 faz pesquisas com foco na conservação das espécies.
Claro, há desafios a superar, como combater a biopirataria, agilizar patentes e evitar o desmatamento. Mas esses obstáculos reforçam a necessidade de investimentos públicos coordenados, que protejam nossa riqueza enquanto geram prosperidade.
E essa é a questão: uma das formas de manter as florestas brasileiras, que prestam serviços para o agronegócio e para as populações das cidades (como a produção de chuvas), implica gerar valor por meio da biodiversidade, e para tal é preciso foco em pesquisa e desenvolvimento de cadeias produtivas.
E se criássemos uma "Embrapa da Biodiversidade" agora? Pois conservar não significa "não mexer". Como diz nossa legislação, conservar implica fazer o manejo sustentável da natureza, mantendo seus benefícios atuais e futuros.
*David Canassa é especialista em sustentabilidade estratégica, com foco em energia, mercados de carbono e capital natural. Fundador da David Canassa Strategy & Advisory, consultoria para líderes que transformam complexidade climática em valor competitivo.
1/29 Serra da Petrovina, no Mato Grosso, faz parte do Cerrado Brasileiro (cerrado-tig-microsoft)
2/29 O Cerrado ocupa 2 milhões de quilômetros quadrados, o que cobre 24% do território brasileiro, reúne 8 das 12 bacias hidrográficas do país e tem 330 mil espécies de plantas e animais. (From 'Cerrado)
3/29 (Cerrado)
4/29 (Lavoura de trigo irrigado no cerrado em MG)
5/29 Cerrado: bombeiros combatem incêndio em área próxima a Brasília (CANADA-4)
6/29 Bovinocultura no Mato Grosso, região do bioma Cerrado (39389970104_f64bfc65bc_c)
7/29 (BRAZIL-AGRICULTURE-NATIVE-CERRADO)
8/29 Deforested land for cattle near Xinguara, Para state, Brazil, on Wednesday, Oct. 6, 2021. Six European retail groups, including Sainsbury's in the United Kingdom and Carrefour in Belgium, are restricting Brazilian beef purchases due to new findings linking cattle production to deforestation in the Amazon, Cerrado and Pantanal. Photographer: Jonne Roriz/Bloomberg via Getty Images (amazonia-desmatamento-2022)
9/29 Vista do Cerrado (Vista do Cerrado)
10/29 A terra após a colheita da soja, no cerrado piauiense: o modelo de exploração precisa mudar (A terra após a colheita da soja, no cerrado piauiense)
11/29 (Cerrado)
12/29 Vegetação de cerrado (Vegetação de cerrado)
13/29 (fogo-cerrado2)
14/29 (fogo-cerrado)
15/29 (Incendio-Cerrado)
16/29 (fogo-cerrado3)
17/29 Queimadas no Cerrado (Queimadas no Cerrado)
18/29 Chapada dos Veadeiros, em Goiás (size_960_16_9_cerrado-chapada-dos-veadeiros460-jpg.jpg)
19/29 recomendação é que sejam implantados corredores ecológicos que conectem as áreas remanescentes do Cerrado, atualmente fragmentad (size_960_16_9_copaiba-jpg.jpg)
20/29 Vegetação do cerrado (Wikimedia Commons) (size_960_16_9_cerrado-wiki-460-jpg.jpg)
21/29 Cerrado (Wikimedia Commons) (size_960_16_9_cerrado-wiki-460-jpg.jpg)
22/29 Bird põe US$ 13 mi no cerrado brasileiro (size_960_16_9_cerrado-600-wiki.jpg)
23/29 Brigada voluntária que reduz incêndios por queimadas no cerrado (size_960_16_9_fundacao-grupo-boticario.jpg)
24/29 Uma árvore de Ipê Amarelo no Cerrado (size_960_16_9_ipe-amarelo-cerrado.jpg)
25/29 Cerrado (Wikimedia Commons) (size_960_16_9_cerrado-wiki-460-jpg.jpg)
26/29 Brigada voluntária que reduz incêndios por queimadas no cerrado (size_960_16_9_fundacao-grupo-boticario.jpg)
27/29 Fogo destroi vegetação da Área de Proteção Ambiental (APA) Gama e Cabeça de Veado, situada a 30 km ao sul do centro da Capital Federal (size_960_16_9_cerrado.jpg)
28/29 Bird põe US$ 13 mi no cerrado brasileiro (size_960_16_9_cerrado-600-wiki.jpg)
29/29 Serra da Canastra, em Minas Gerais (size_960_16_9_serra-canastra.jpg)
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