Viajar de ônibus pode ficar mais caro com alta do diesel, diz Fipe
O diesel, principal combustível dos ônibus, vem sofrendo com a alta do preço do petróleo, que chegou a ultrapassar a barreira dos US$ 120 por conta da Guerra no Irã. O combustível está 16,91% mais caro desde o início do conflito. O resultado disso é que o preço das passagens podem ficar pressionado, já que o diesel corresponde a 25% a 35% do custo operacional do transporte rodoviário.
“É provável, sim, que tenha um impacto [nas passagens], mas ele deve ser menor do que poderia se imaginar num primeiro momento, os dados dizem isso, mas vamos aguardar o desenrolar desse conflito”, afirma Bruno Oliva, presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
A instituição, em parceria com a ClickBus, acaba de lançar o Índice do Rodoviário ClickBus (IRCB), indicador que irá acompanhar a inflação das passagens mensalmente. Neste primeiro momento, os dados mostram que o preço das passagens de ônibus realmente valorizaram abaixo do diesel.
Enquanto o combustível subiu 15,7% entre abril de 2025 e abril de 2026, as passagens rodoviárias subiram 7,5%. Já na série histórica, desde dezembro de 2017, o diesel acumulou alta de 119,4% no mesmo período, enquanto as passagens rodoviárias subiram 60,5%.
Isso indica que o setor absorveu grande parte do choque de custos sem repassá-lo integralmente ao passageiro — mas que isso pode ocorrer em algum momento. Para Phillip Klien, CEO da ClickBus, o cenário geopolítico é muito incerto. “Mas se tiver um aumento de tarifa, vai estar muito muito bem explicado o porquê”, diz.
Passagens de ônibus em diversos cenários
Quando olhado o cenário de passagens de avião, a inflação também supera a da passagens rodoviárias: 63,7% versus 60,5%, respectivamente. Nesses quase 10 anos, o Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA) subiu 54,5%. Enquanto o IPCA de transportes subiu 53,2%.
“Passagens rodoviárias estão para o viajante como a renda fixa está para o investidor, estável e confiável. Já passagens aéreas estão para o viajante como a bolsa está para o investidor, em um ano complicado”, comentou Klien. Entretanto, o executivo disse que ambos se complementam. “As pessoas vão de ônibus e voltam de avião, por exemplo.”
Outro achado da pesquisa é que, desde dezembro de 2017 até abril de 2026, a renda média do trabalho (PNAD Contínua/IBGE) avançou 77,6% (frente aos 60,5% das passagens rodoviárias), o que indica melhora do poder de compra relativo dos brasileiros no acesso ao transporte rodoviário.
No recorte por categoria de serviço, as viagens intermunicipais registraram avanço mais intenso, de 67,5%. Já o segmento interestadual teve aumento mais moderado, de 42,7%. Os dados indicam que os trajetos dentro dos estados sofreram pressões maiores de custos e demanda ao longo do período.
Ao olhar o tipo de abrangência, o levantamento aponta comportamentos distintos conforme a categoria de conforto das viagens. As passagens convencionais acumularam a maior alta, de 65,3% desde 2017, enquanto as executivas subiram 63,7%. Já as categorias semileito e leito tiveram reajustes mais contidos, de 43% e 43,2%, respectivamente. A categoria cama apresentou avanço de 60,3%, praticamente em linha com a média nacional.
O recorte por distância de viagem revela que os trajetos curtos foram os que mais encareceram no período analisado. As viagens de curta distância acumularam alta de 72,5%, acima da média nacional. As categorias média-curta, média e média-longa registraram aumentos de 64,2%, 69,7% e 67,3%. Já as viagens longas tiveram reajuste mais moderado, de 49,2%, indicando que os aumentos foram menos intensos nos deslocamentos de maior duração.
Por região, o Nordeste foi o local com maior avanço acumulado nos preços das passagens rodoviárias desde dezembro de 2017, com alta de 66,1%, seguido pelo Sudeste, com 64,3%, e Norte, com 61,5%. O Sul registrou aumento de 48,6%, enquanto o Centro-Oeste teve a menor variação entre as regiões, de 43,3%.
O Índice Rodoviário ClickBus (IRCB), desenvolvido pela ClickBus em parceria com a Fipe, é o primeiro indicador estruturado criado para acompanhar a evolução dos preços das passagens de ônibus no Brasil.
O índice foi construído a partir de mais de 100 milhões de passagens rodoviárias analisadas, permitindo monitorar de forma recorrente o comportamento tarifário do setor em diferentes regiões, categorias de serviço e perfis de viagem.
Segundo as empresas, o objetivo do IRCB é ampliar a transparência sobre os custos do transporte rodoviário no país e oferecer uma referência para consumidores, empresas, investidores e formuladores de políticas públicas.
Diferentemente de comparações pontuais de preços, o indicador foi desenvolvido para medir a variação média das tarifas ao longo do tempo, utilizando metodologia econômica aplicada e controles estatísticos que consideram fatores como origem, destino, categoria da passagem e distância percorrida.
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