Visitamos o estádio mais caro da Copa — e descobrimos o desafio de trocar a NFL pela Fifa
LOS ANGELES — Em Inglewood, na Califórnia, o estádio mais caro do mundo se prepara para ser a casa do primeiro jogo dos Estados Unidos na Copa de 2026.
O SoFi Stadium custou cerca de R$ 27,53 bilhões (US$ 5,5 bilhões na cotação atual) — mais do que o triplo dos outros dois principais palcos do Mundial, MetLife, em Nova Jersey, e Mercedes-Benz, em Atlanta, cada um orçado em US$ 1,6 bilhão.
Para chegar até aqui, precisou ser desmontado por dentro, esvaziado de cadeiras, arrancado de seu gramado artificial e reinventado a menos de dois meses da estreia do torneio.
Na quarta-feira, 15, equipes de obras concluíram a remoção da última seção desmontável de assentos para abrir espaço para a construção do gramado. E, nesta quinta-feira, 16, a EXAME visitou o estádio, ainda sem grama ou traves. Mas, segundo os responsáveis pelo estádio, tudo corre como o planejado.
A hora da mudança
O campo do SoFi precisa mudar radicalmente para receber a Copa.
Isso porque um estádio de futebol americano tem campo de 54 jardas de largura. Já a Fifa exige 74 jardas para partidas internacionais. Para abrir esse espaço, centenas de assentos foram temporariamente removidos.
O gramado artificial que serve ao Los Angeles Rams e ao Los Angeles Chargers será substituído por um híbrido de grama natural e fibras sintéticas, tecnologia já usada por clubes como o Arsenal, na Inglaterra, mas ainda incomum nos Estados Unidos.
A instalação vai além de simplesmente jogar rolos de grama no chão. O campo será elevado cerca de 75 centímetros em relação à sua posição atual, com um sistema de drenagem permeável a vácuo instalado em camadas, como um bolo.
Em cima, a grama — cultivada em fazendas especializadas no estado de Washington e transportada em caminhões refrigerados, rastreados minuto a minuto. "É a grama mais gerenciada do mundo", disseram especialistas envolvidos no projeto ao Yahoo Sports.
SoFi Stadium: estádio do primeiro jogo dos EUA ainda não tem grama — e nem trave (Tamires Vitorio/Exame)
Como o SoFi tem uma cobertura que bloqueia 65% da luz solar, manter a grama viva exige outro artifício: luminárias de LED que simulam a luz do sol ficam ligadas até 18 horas por dia entre as partidas.
Mais de 30 funcionários (o dobro do necessário para manter um gramado artificial de time da NFL) serão responsáveis pela manutenção do campo durante todo o torneio. Haverá testes diários de solo, ajustes de irrigação e rolos reserva cultivados no estacionamento do próprio estádio, prontos para substituição de emergência.
A previsão é que, em cerca de um mês a partir de agora, o campo comece a parecer um gramado de futebol — o que deixaria o estádio pronto a 28 dias da abertura do torneio.
O nascimento do SoFi
O SoFi não nasceu como estádio, mas como hipódromo. Por 75 anos, entre 1938 e 2013, o terreno em Inglewood abrigou o Hollywood Park, uma das pistas de corrida de cavalos mais tradicionais dos Estados Unidos.
Quando a pista fechou, foi demolida para dar lugar a um dos projetos esportivos e urbanos mais ambiciosos da história recente americana: um complexo de 8,5 milhões de pés quadrados com hotel de luxo, restaurantes, cinema, espaços residenciais e, no centro de tudo, o maior estádio coberto do mundo.
O plano original era inaugurá-lo com Taylor Swift. Em julho de 2020, o Lover Fest seria o evento de abertura do SoFi. A pandemia cancelou tudo. O estádio ficou vazio por meses. Sua primeira grande celebração com público só aconteceu em maio de 2021, num concerto beneficente para promover a vacinação contra a covid-19.
Mas o SoFi compensou o atraso com juros. Em fevereiro de 2022, recebeu o Super Bowl LVI. Em agosto de 2023, Taylor Swift realmente estreou no estádio — não para dois shows como o previsto antes da pandemia, mas para seis. Os 70.240 ingressos foram vendidos todas as noites. No total, 420 mil pessoas passaram pelo estádio só para ver a The Eras Tour.
Taylor Swift: cantora se apresentou no SoFi Stadium em 2023 (Allen J. Schaben / Los Angeles Times /Getty Images)
O impacto foi estimado em US$ 320 milhões para o Produto Interno Bruto (PIB) do Condado de Los Angeles. Em uma das noites, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) instalaram sensores sísmicos dentro e fora do estádio e detectaram 43 das 45 músicas tocadas foram detectadas como um pequeno tremor de terra. Nenhum outro show naquele verão — nem Metallica, nem Beyoncé — produziu sinais mais intensos do que os de Swift.
O estádio também é protagonista em produções audiovisuais. Apareceu como a Frota Estelar na série Star Trek: Picard. Foi cenário de um episódio de The Idol. O primeiro filme-concerto da Eras Tour, exibido em cinemas no mundo todo, usa imagens gravadas nas três primeiras noites em Inglewood.
O dia mais esperado de todos
Na Copa de 2026, o SoFi — rebatizado temporariamente como "Los Angeles Stadium" pelas regras de patrocínio da Fifa — receberá oito partidas, incluindo o jogo de abertura dos Estados Unidos contra o Paraguai, no dia 12 de junho. Para o país anfitrião, aquele será o momento mais esperado do torneio. E o palco não poderia ser mais grandioso.
Mas o novo capítulo do estádio não para na Copa. Em 2028, o SoFi será o coração dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, sediando as cerimônias de abertura e encerramento. Para os Jogos, o campo receberá uma piscina olímpica — e tem a ambição de se tornar a maior arena de natação da história das Olimpíadas, com 38 mil espectadores.
É o tipo de versatilidade que só um lugar assim consegue entregar: hoje um campo de futebol americano, amanhã um gramado para a Copa do Mundo de futebol, depois uma piscina olímpica.
Em Inglewood, a menos de 30 quilômetros do centro de Los Angeles, uma antiga pista de cavalos virou o estádio mais caro, mais versátil e talvez mais sismicamente ativo do planeta. E a grama ainda nem chegou.
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