Vitamina, creatina e whey: os suplementos são mesmo essenciais para a saúde?
Até pouco tempo atrás, cuidar da saúde parecia mais simples. Bastava ter uma boa alimentação, se exercitar com frequência, dormir bem e, em alguns casos, fazer terapia. Hoje em dia, essa lógica é só o básico. Dietas mais "otimizadas", com os famosos suplementos alimentares, andam sendo mais realidade do que exceção.
Se antes eram complementos pontuais, que permaneciam nas prateleiras até a chegada de uma recomendação médica, agora os suplementos passaram a ocupar um espaço maior na rotina. Estão nas farmácias, nos mercados, nas clínicas e, principalmente, nas casas das pessoas — que estão dispostas a desembolsar valores cada vez mais altos para garantir versões "otimizadas" de si mesmas.
É o que indica um levantamento da Soldiers Nutrition, feito com 2.735 brasileiros: 37,4% dos entrevistados gastaram mais de R$ 500 com suplementos apenas no primeiro semestre de 2025 — especialmente entre quem treina com frequência. Já um estudo publicado na Revista Brasileira de Nutrição Esportiva mostra que, em nichos como o fisiculturismo, 100% dos atletas consomem esses produtos, e mais da metade utiliza cinco ou mais por dia.
O 'vlog' com a 'rotina fitness' encapsulada
Dois fatores ajudam a explicar esse movimento, e eles caminham juntos. O primeiro é que as pessoas passaram a olhar com mais atenção para a saúde, especialmente após a pandemia. O segundo é que, ao mesmo tempo, a indústria acompanhou essa demanda e acelerou a oferta.
O avanço ganhou força, sobretudo, nas redes sociais — um verdadeiro oceano azul para o mercado. Sem as mesmas barreiras de outros canais, marcas e influenciadores passaram a apresentar rotinas, testar produtos e transformar o consumo em conteúdo. Além de aumentar o alcance e as vendas, isso implicou também numa maior variedade de formatos. Agora, os suplementos são encontrados em pó, pastilhas, gominhas, tabletes e até em spray.
No Brasil, a expectativa é que o mercado de suplementos avance, em média, 7,8% ao ano até 2036. Deve acompanhar uma tendência global do mercado, que pode atingir até US$ 478,7 bilhões em 2036, segundo relatório da Future Market Insights (FMI).
Nos Estados Unidos, a história é outra — até pelas diferenças de regulamentação. Lá, o mercado está mais avançado e, justamente por isso, começou a virar debate. O uso de suplementos saiu do básico e, em alguns casos, virou rotina pesada, com pessoas consumindo dezenas de produtos por dia. Isso tem levantado questões sobre até que ponto esses produtos ajudam de fato e quando passam a ser excesso.
Os 'stacks' de suplementos
A moda dos suplementos está tão presente nas redes que existe até um termo nas redes sociais para esse tipo de consumo: os chamados stacks — que, na tradução literal, significam "pilhas". E, na prática, faz sentido: os influenciadores vão "empilhando" suplementos ao longo do dia e fazem combinações de diferentes produtos em horários específicos, como um ritual que se adapta às necessidades do dia e aos objetivos daquela pessoa.
Esse tipo de rotina virou conteúdo. No TikTok, a hashtag #supplementstack já soma mais de 25 mil publicações. Muitas vezes, esses vídeos aparecem diluídos em formatos populares, como "o que eu como em um dia" ou "arrume-se comigo", por exemplo. No meio disso, também há publicidade — às vezes explícita, às vezes mais discreta.
É o caso de Kristin Leite, de 38 anos, que diz consumir mais de 20 suplementos por dia. Pela manhã, mistura pós e cápsulas; à tarde, repete a dose; à noite, completa a rotina com mais comprimidos — além de injeções de substâncias como NAD+ e glutationa. "Estou falando de provavelmente mais de 20 suplementos diferentes ao longo do dia", disse ao Washington Post.
Influenciadores e figuras públicas ajudam a amplificar esse comportamento. O biohacker Dave Asprey afirmou em um podcast que toma cerca de 150 suplementos por dia. Já o empresário Bryan Johnson disse, em vídeo, que consumia mais de 100 diariamente — número que, segundo ele, foi reduzido depois. O Secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., que prometeu "acabar com a guerra contra as vitaminas", afirmou em entrevistas que toma "uma tonelada" delas.
A oferta funciona como um cardápio que acompanha o dia inteiro. Tem suplemento para energia pela manhã, para foco ao longo do trabalho, para treino, para ficar mais bonito, para ficar mais forte, para relaxar e até para dormir.
Por que isso virou debate?
O que tem se discutido é, antes de mais nada, essa mudança no papel dos suplementos. O que antes era usado para corrigir deficiências específicas passou a ser vendido como parte indissociável de um estilo de vida saudável.
"É um novo vício que as pessoas desenvolveram", disse Mona Sharma, nutricionista de celebridades em Los Angeles, ao Washington Post. Segundo ela, muitos de seus clientes tomam mais de 15 suplementos por dia. Uma cliente chegou a consumir 70, seguindo orientações que viu online — sem perceber melhora no próprio bem-estar.
Em vez de reforçar o básico, muita gente passou a apostar nos suplementos como atalho, como se desse para controlar todo o bem-estar apenas por eles, mas não é bem assim. Por ora, a base para um estilo de vida saudável segue a mesma: alimentação equilibrada, rotina ativa e sono.
Outro ponto é a forma como esses produtos chegam ao consumidor. Por lá, suplementos não precisam de aprovação prévia da Food and Drug Administration (FDA) para serem vendidos. Ou seja, muitos entram no mercado sem uma avaliação mais rigorosa de segurança ou eficácia.
Ainda assim, o mercado cresce apoiado nessa promessa de antecipar problemas e melhorar a saúde. Nos Estados Unidos, a indústria já movimenta cerca de US$ 70 bilhões. Segundo o Washington Post, há pessoas gastando mais de US$ 1.000 por mês em combinações.
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