Você sabe quantas marcas chinesas já vendem carro no Brasil?
Mais uma marca chinesa está desembarcando no Brasil. É a Lotus, que, assim como a conterrânea MG Motor, recorre ao seu legado britânico — especialmente à sua relação com Emerson Fittipaldi, Ayrton Senna e Nelson Piquet na Fórmula 1 — como principal credencial.
Serão três carros vendidos inicialmente: o cupê Emira (com motor 2.0 turbo ou V6) e os elétricos Eletre (SUV) e Emeya (sedã). Os preços ainda não foram divulgados.
Assim como Volvo, Zeekr, Polestar e Lynk & Co, a Lotus também faz parte do Geely Auto Group. Mas, por aqui, terá operação própria de importação, distribuição, vendas e pós-venda, representada pela LTS Brasil, cujo CEO é o empresário e piloto mineiro Clemente Faria Júnior.
As duas lojas iniciais serão em um anexo do Shopping Cidade Jardim e em um condomínio de luxo no interior de São Paulo. Há planos de expansão para as principais capitais do País.
Quem já está no Brasil?
Desde outubro, a empresa monta em Camaçari (BA) os modelos Song Pro e Dolphin Mini no regime SKD, com kits parcialmente desmontados provenientes da China. Líder entre os modelos elétricos e híbridos, acaba de lançar o Sealion 7, SUV elétrico de R$ 339.990 derivado do Seal.
CAOA CHANGAN
Pioneiro entre os chineses no Brasil, o Grupo Caoa agora investe na Changan, que estreia no Brasil com a linha de luxo Avatr, com modelos que podem chegar a 710 quilômetros de autonomia. Há também o Uni-T, SUV compacto de R$ 174.990.
CAOA CHERY
Com esforços concentrados na Changan, o Grupo Caoa renova a linha de produtos da Chery com atualizações dos modelos Tiggo 5X, Tiggo 7 e Tiggo 8.
Marca de luxo da BYD, estreou por aqui em novembro com o imponente SUV híbrido B5, de R$ 436 mil. Na sequência, foi a vez da perua elétrica Z9 GT, de R$ 650 mil; na sequência, será a vez da D9, minivan de R$ 800 mil.
Depois de consolidar sua operação de caminhões, a Foton está apostando nas picapes Tunland V7 e V9, cujo diferencial está no porte grande com preço médio – inspiradas visualmente na Ford F-150 e na Ram 1500, custam respectivamente R$ 289,9 mil e R$ 309,9 mil.
Presente em mais de 70 países, desembarcou no por aqui em maio do ano passado com cinco modelos: os elétricos Hyptec HT, Aion V, Aion Y e Aion ES e o híbrido GS4, este com a mira apontada para o Toyota Corolla Cross. Sua última aposta é o SUV compacto GS3, de R$ 139.990.
Investirá com a Renault do Brasil – da qual detém 26,4% – R$ 3,8 bilhões no complexo fabril de São José dos Pinhais (PR). O montante será destinado à renovação de um produto existente da marca francesa e para a produção de duas novas plataformas: uma de veículos eletrificados da Geely (GEA), que dará origem a dois modelos da marca chinesa a partir do segundo semestre de 2026 (o SUV médio EX5 EM-i será o primeiro); e uma para um inédito produto da Renault, também eletrificado e previsto para 2027.
Maior empresa automotiva chinesa de capital 100% privado, chegou a 130 concessionárias no País em 2025, ano em que também inaugurou sua fábrica em Iracemápolis (SP), a primeira unidade produtiva da marca nas Américas. Com 1,2 milhão de m² de área total e 94 mil m² de área construída, a planta possui capacidade instalada para produzir 50 mil veículos por ano. Acaba de sair na frente das rivais com o novo Tank 300, primeiro híbrido plug-in flex do mundo, e confirmar o SUV elétrico Ora 5 para o mercado brasileiro.
Há tempos uma das primeiras chinesas a operar no Brasil desistiu de renovar sua linha de carros e apostar em vans e caminhões – daí sua oferta de modelos de passeio ser a mais defasada. Seu último lançamento, a picape Hunter, ainda é visão rara nas ruas.
Outra marca do Grupo Chery – sem conexões com a Caoa neste caso – que acaba de estrear no Brasil é a Jetour, que oferece os modelos S06 (R$ 199.990), T1 (R$ 249,9 mil) e T2 (R$ 289,9 mil). Todos combinam motor 1.5 turbo e conjunto elétrico do tipo plug-in, com autonomia de até 1.200 km.
Para algumas fabricantes tradicionais, mais lógico do que enfrentar a descomunal capacidade de produção chinesa é se beneficiar dela. É o que fez a Stellantis, que detém 51% da Leapmotor fora da China. Por isso, um dos modelos da marca será produzido no Polo Industrial de Goiana (PE), de onde saem atualmente modelos da Jeep, Fiat e Ram. Atualmente, vende as gamas B10 e C10.
Uma das marcas da gigante SAIC – que em 2025 vendeu globalmente mais de 4,5 milhões de carros –, tenta validar sua conexão com a Morris Garages original, de 1924, com o Cyberster, roadster elétrico de R$ 499,8 mil que entrega 510 cavalos de potência e quase 400 km de autonomia. Durante o Salão do Automóvel, anunciou que pretende montar localmente até o fim do ano, quando terá cerca de 70 lojas no País.
OMODA JAECOO
Duas recentes movimentações da marca do Grupo Chery demonstram suas ambições no mercado nacional. A primeira foi contratar como vice-presidente executivo Roger Corassa, ex-vice-presidente de Vendas e Marketing da Volkswagen do Brasil. A segunda, escalar o Jaecoo 7 como carro oficial Carnaval do Rio de Janeiro. Com mais de 70 lojas em 24 estados e quatro modelos em oferta, prepara o lançamento de mais três carros ao longo de 2026: Omoda 4, Jaecoo 5 e Jaecoo 8.
Estreou em outubro de 2024 com a perua 001, que chega a R$ 542 mil na versão Flagship. Depois vieram os SUVs X (R$ 338 mil) e 7X (R$ 448 mil).
Cabe mais uma?
Estudo inédito da Timelens (empresa da FutureBrand São Paulo) com base em mais de 110 milhões de menções online revela que o interesse dos brasileiros por marcas automotivas chinesas registrou um salto explosivo de 515% nos últimos cinco anos, tracionando um aumento de 112% no debate sobre veículos eletrificados no país.
A percepção bastante positiva se reflete no levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), apontando que 37,6% dos 498 mil importados emplacados no Brasil em 2025 vieram da China; tradicionais exportadores para o Brasil, México e Mercosul foram superados pela primeira vez.
Mas o que explica a recente ascensão meteórica da China na indústria automotiva, tradicionalmente dominada por europeus e americanos?
Para Rogelio Golfarb, fundador da consultoria Zag Work, a internacionalização da indústria automotiva chinesa é um projeto de Estado: “A intenção de globalizar essa indústria é do governo”.
Foram produzidos 34,5 milhões de veículos na China em 2025, número 45% maior que a soma da fabricação de automóveis, ônibus e caminhões nos Estados Unidos e na Europa no mesmo período; metade foi de veículos eletrificados, segundo cálculos da Zag Work.
“Eles começaram o processo de massificação da eletromobilidade com o híbrido e o elétrico. As marcas chinesas superaram as antigas restrições ao redor de qualidade e inovação e agora estão à frente de muitos. Isso mudou a percepção do consumidor”, avalia Golfarb, que também já foi vice-presidente da Ford na América do Sul.
O consultor Milad Kalume Neto acrescenta que “a China passou a desenvolver sua indústria na década de 1980, obrigando qualquer montadora ocidental interessada no mercado chinês a explorá-lo por meio de joint-ventures com empresas locais. Sem qualquer troca tecnológica, os chineses aprenderam o processo de manufatura. Em 2009, a China criou um plano de revitalização da indústria automobilística, estabelecendo as premissas da produção e do desenvolvimento de veículos elétricos”.
Nas contas de Kalume Neto, entre marcas e submarcas em operação, testando e homologando produtos, há 38 competidores chineses no Brasil. Mas nem todos tem espaço garantido no mercado brasileiro.
“Aquelas com maior poder de investimento e que derem mais atenção ao consumidor brasileiro permanecerão. Não há segredo, quem manda é o mercado: se o consumidor se sentir prejudicado, nunca mais terá uma marca chinesa, e ninguém quer que isso aconteça novamente. A cota de erros dessa indústria já foi batida”, analisa.
Quanto à chegada da Lotus, Kalume Neto destaca que a marca “se apoia ainda num espírito de tradição inglês, por mais que hoje a marca seja da chinesa Geely. Possui um DNA esportivo e técnico com sua filosofia originada ainda na época de Colin Chapman.
É uma marca de ainda menor volume em relação a outras marcas exclusivas como Ferrari e Porsche, garantindo exclusividade ao seu comprador”.
Esse DNA esportivo também se traduz nos planos de um V8 híbrido ainda para esta década, o que indica que para a empresa a eletrificação não é o único caminho.
“Entendo que no Brasil a marca pode ter bastante sucesso por justamente unir os fatores acima mencionados: status, nicho, exclusividade e tradição”, conclui.
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