Web Summit Rio 2026 decreta: a convergência venceu a especialização

Por Marc Tawil 12 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Web Summit Rio 2026 decreta: a convergência venceu a especialização

Quando o Web Summit nasceu, em 2009, na Irlanda, a proposta era relativamente simples: reunir empreendedores, investidores e empresas de tecnologia para discutir o futuro digital. Dezessete anos depois, ao caminhar pelos corredores da edição carioca, a quarta realizada na capital fluminense, fica difícil sustentar essa definição.

Não porque a tecnologia tenha perdido importância. Pelo contrário, a inteligência artificial continua dominando boa parte das conversas. Exatas 1.572 startups, recorde histórico do evento, apresentam soluções para áreas como saúde, educação, varejo, mobilidade e serviços financeiros. Seiscentos investidores circulam pelo Riocentro. Google, Microsoft, Amazon e OpenAI ocupam posições centrais na programação.

O que mudou não foi a relevância da tecnologia, mas a natureza da conversa.

Durante décadas, acostumamos empresas, universidades e carreiras a funcionarem a partir de uma lógica de especialização. O profissional de tecnologia cuidava da tecnologia. O profissional de marketing cuidava do marketing; o artista produzia arte; o pesquisador, conhecimento; e o executivo tomava decisões.

O que emerge do Web Summit Rio 2026 é quase o oposto disso: os problemas continuam complexos, todavia, as fronteiras que antes separavam disciplinas, mercados e competências estão desaparecendo em velocidade crescente.

O fim dos territórios isolados

A percepção ficou mais clara à medida que as conversas avançavam. Não importava se o interlocutor era um antropólogo, um produtor musical, um cineasta ou um executivo da OpenAI. Embora partissem de mercados, experiências e repertórios completamente diferentes, todos pareciam convergir para uma mesma conclusão.

Ao perguntar a Michel Alcoforado, antropólogo do consumo e escritor best-seller com "Coisa de Rico", de onde surgem suas ideias, tanto como autor quanto como colunista, ouvi uma resposta que dizia menos sobre criatividade e mais sobre a forma como o conhecimento passa a ser construído em um mundo cada vez mais conectado:

"A vida da Virgínia me interessa tanto quanto o último livro publicado pelo maior antropólogo da humanidade. E essa junção é que me interessa. Eu sempre falo para o pessoal que trabalha comigo que o sucesso está quando a gente mistura Anitta e Hegel. Se você está só preocupado com Hegel, fica chato. E se você só entende de Anitta também fica chato. O bom é quando a gente consegue enxergar os dois ao mesmo tempo".

A observação ajuda a explicar um fenômeno que ultrapassa a criatividade e começa a aparecer em mercados inteiros. À medida que informação, tecnologia e conhecimento se espalham com velocidade crescente, o valor deixa de surgir apenas da profundidade técnica e passa a aparecer também na capacidade de conectar referências que tradicionalmente pertenciam a universos diferentes.

Ao explicar por que um antropólogo ocupa hoje um espaço tão relevante em um dos maiores eventos de tecnologia do planeta, Alcoforado amplia o raciocínio: "Não existe nenhuma conversa possível em 2026 que não passe por tecnologia e inovação. Você está trabalhando e a tecnologia atravessa o seu trabalho. Você está consumindo e ela atravessa o seu consumo. Está construindo uma marca, aprendendo, se relacionando ou tentando entender comportamento e ela também está presente. O que esse evento faz é reunir pessoas tentando entender os dilemas que surgem dessa realidade".

Repertório virou infraestrutura

Poucas horas depois, encontrei a mesma lógica em uma conversa com Felipe Vassão. À primeira vista, seu universo parece completamente diferente. Produtor musical, criador de conteúdo e pesquisador da cultura digital, ele poderia ter passado meia hora falando sobre ferramentas, plataformas ou produtividade.

Não foi o que aconteceu. Ao descrever como utiliza IA, Vassão revelou uma abordagem que contraria praticamente tudo o que se tornou senso comum sobre o tema:

"Eu não peço para a inteligência artificial desenvolver uma ideia para mim. Eu peço para ela refutar a minha hipótese. Quero que ela me mostre onde estou errado, quais argumentos estou ignorando e quais referências contradizem aquilo que estou pensando. Eu não quero que ela facilite o meu raciocínio. Eu quero que ela aumente a dificuldade para que eu seja obrigado a pensar melhor".

Em um evento onde produtividade, automação e eficiência apareciam em praticamente todos os palcos, chamou atenção a ideia de utilizar tecnologia não para encurtar o caminho do pensamento, mas para torná-lo mais rigoroso.

Mais tarde, ao comentar a importância de eventos como o Web Summit, voltou ao mesmo ponto por outro caminho.

"A gente está vivendo uma época de hipertecnologização de tudo. Existe um risco de perder contato com coisas muito humanas, muito orgânicas e muito reais. O valor de um evento como esse não está apenas nas tecnologias apresentadas. Está em criar encontros improváveis, gerar atrito entre ideias diferentes e colocar pessoas de repertórios completamente distintos para discutir os mesmos problemas."

Kaique Alves, showrunner da KondZilla e diretor de cinema com reconhecimento internacional, descreveu fenômeno semelhante ao falar sobre entretenimento: "A gente tenta levar as nossas histórias para o máximo de formatos possíveis. Música, audiovisual, internet, documentário, série, podcast. No final, tudo está conectado. O objetivo continua sendo contar uma boa história, mas cada plataforma amplia essa história de uma maneira diferente e permite que ela alcance públicos diferentes".

Quando a conversa chegou à IA, a resposta seguiu exatamente na mesma direção.

"As ferramentas estão ficando muito poderosas, mas elas não substituem repertório. Quando alguém que tem bagagem, experiência, vivência e criatividade usa uma ferramenta dessas, o resultado pode ser extraordinário. Quando não existe repertório, a tecnologia entrega algo genérico. E as pessoas não criam conexão com o que é genérico", sentenciou.

Quando tecnologia deixa de ser departamento

Christian Rôças, o Crocas, líder latam de comunidades da OpenAI, trouxe a tecnologia menos como categoria e mais como comportamento: "A IA já saiu do território dos especialistas. Ela entrou nas rotinas de trabalho, na educação, nos processos criativos e na forma como as pessoas tomam decisões. A discussão deixou de ser apenas tecnológica. A questão agora é entender como essas capacidades serão incorporadas à vida real".

E completou: "O desafio não está apenas em desenvolver modelos cada vez mais sofisticados. O desafio está em integrar essas tecnologias à cultura das organizações, aos processos de trabalho e à maneira como as pessoas colaboram".

Foi ouvindo essas conversas que comecei a perceber um padrão. Nenhum desses profissionais citou apenas sua própria área de atuação. O antropólogo falou sobre tecnologia. O produtor musical mencionou o pensamento crítico. O cineasta trouxe sobre repertório. O executivo do tech abordou comportamento humano.

Todos pareciam descrever um mundo em que as fronteiras entre disciplinas se tornam progressivamente menos relevantes do que a capacidade de transitar entre elas.

Para mim, essa foi a principal mensagem emitida pelo Web Summit Rio 2026: a tecnologia continua protagonista, entretanto, deixou de ocupar uma sala específica dentro da empresa. Hoje ela atravessa marketing, comunicação, branding, cultura, estratégia, educação, entretenimento e consumo com a mesma intensidade.

Em um ambiente cada vez mais complexo, profissionais, marcas e empresas passam a disputar valor em um território menos definido pelas fronteiras tradicionais do conhecimento e mais pela capacidade de circular entre elas. Tecnologia, comunicação, cultura, comportamento, criatividade e negócios aparecem cada vez menos como especialidades independentes e cada vez mais como partes de uma mesma conversa.

Ao final de quatro dias de evento, a impressão que permanece é que as discussões mais interessantes do Web Summit Rio raramente estavam confinadas a uma única disciplina. Elas surgiam justamente nos pontos de contato, onde repertórios diferentes se encontravam para interpretar os mesmos desafios.

Quem sabe seja essa a transformação mais relevante acontecendo diante dos nossos olhos.

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