Web Summit Rio: ser famoso é fácil. Difícil é ser influente

Por Marc Tawil 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Web Summit Rio: ser famoso é fácil. Difícil é ser influente

O Riocentro acordou diferente na segunda-feira, 8. Quarenta mil pessoas atravessaram as catracas do Web Summit Rio em seu primeiro dia. Mil e quinhentas startups montaram seus stands. Seiscentos e oitenta investidores circularam pelos corredores.

E, em meio a tudo isso – entre pitches, demos, painéis sobre inteligência artificial e o futuro do dinheiro –, ouvi três grandes influenciadores brasileiros que me disseram, cada um à sua maneira, a mesma coisa: alcance não é influência.

Como criador oficial do festival, meu trabalho é exatamente esse: encontrar as histórias que o dado não conta. E nesse primeiro dia, a história era sobre a distância entre aparecer e pertencer.

Jade Picon tem 24 anos e um Instagram que começou antes de ela entender o que era um Instagram. Seu irmão criou o perfil em 2012, quando ela tinha 11. Ela nem entendia direito. “Ele só ia postando e vivendo”, lembrou, sorrindo.

Hoje são 20 milhões de seguidores somente nessa rede, uma comunidade engajada e uma marca que fatura múltiplos milhões.

Jade é jovem e tem uma clareza impressionante sobre aquilo que entrega:

“A diferença, para mim, é a conexão que você consegue gerar com o público. Você vê pessoas com um alcance imenso, mas conversão e impacto pequenos. Por isso, é sobre realmente ter um valor e um propósito no que você quer. O que quer falar, a mensagem que quer postar... porque isso só fortalece o seu negócio e a sua imagem pessoal. Eu, como influenciadora, empresária, atriz, foco muito no ponto de partida, que é a Jade: a mensagem que eu quero passar, qual o conteúdo quero postar, como quero impactar a vida das pessoas – e isso permeia todas as minhas decisões”.

Jade fala de um lugar que poucos ocupam: o de quem cresceu sendo observada e aprendeu, na prática, que observada e influente são categorias diferentes. Quando ela fala em “ponto de partida”, está descrevendo um princípio que vale tanto para marcas pessoais quanto para instituições inteiras: coerência interna precede consistência externa.

A conversa foi fundo quando perguntei sobre as meninas ainda mais jovens que a seguem – a Geração Alpha, nascida a partir de 2010, que já consome, já admira e já se prepara para ser sua consumidora:

“Para mim é uma extrema responsabilidade. É nessa fase que a personalidade e as vontades do ser humano estão sendo moldadas. Mais do que pensar no produto que eu quero vender na minha empresa, eu preciso pensar nisso: em como vou impactar a vida dessa adolescente, muitas vezes de uma menina de 14, 13, 12, 10 anos. Qual a mensagem que eu quero passar? Por isso que eu prezo tanto por conteúdos de autoconhecimento, de esporte, sobre saúde. O meu grande filtro sobre o que eu quero compartilhar são coisas que me fazem bem”.

Um fenômeno construído

Juliette Freire é, na minha visão, o maior fenômeno de engajamento e de travessia entre TV e internet que vi nascer e se manter nessa década. No BBB21, saiu de 4 mil seguidores para 24 milhões em três meses, somente no Instagram.

Perguntei a ela sobre longevidade: coisa rara num ecossistema que produz e descarta influenciadores no mesmo ritmo que o algoritmo atualiza.

A resposta tem a economia de quem não precisa performar:

“Acho que eu nasci no universo digital, mas de uma forma muito orgânica e real. O digital era simplesmente o meio para ser revelado para o mundo. Mas a coerência, as bases que eu construí, foram determinantes para essa longevidade da minha carreira. Nem sempre o maior engajamento, mas talvez uma maior credibilidade e verdade”.

A palavra que ninguém no ecossistema de crescimento rápido quer ouvir é permanência. E é exatamente a única que importa quando você pensa em marca.

Quando questionei sobre comunidade – e como construir uma que se sustente no tempo –, Juliette deu a resposta mais direta da tarde:

“Construa bases que você possa carregar, que você possa alimentar e que você tenha certeza que tem coerência a longo prazo. Se você constrói bases que não são você, alimentando um público que não é verdade, isso não se sustenta. Por isso consigo alimentar o meu público até hoje – porque eu alimento com coerência e verdade. Muitas vezes não é o que eles querem, mas é o que eles precisam”.

Em um evento onde 688 investidores circulam atrás de produto-mercado fit, Juliette descreveu, sem usar nenhum termo de startup, o que é comunidade real: uma base construída com verdade que aguenta o tempo.

O comediante mais atento da sala

Fábio Porchat é apresentador, ator, roteirista – e provavelmente o observador mais calibrado que passou pelo Web Summit Rio nesse primeiro dia. Ele estava ali não para palestrar sobre tecnologia, mas pelo motivo mais simples e mais raro: queria ouvir.

“Estar em volta de gente interessada é bom. As pessoas que estão querendo saber o que está acontecendo, são pessoas que estão com a escuta aberta. Um evento como esse é fundamental para que todos possamos nos reconectar. E não só entre nós, mas com o nosso agora.”

Foi quando trouxe a IA para a conversa que ele entregou a frase mais afiada do dia, e talvez a mais honesta de todo o festival:

“Eu acho que a comédia é uma coisa que a IA ainda não consegue fazer. A IA entende, na teoria, o que é comédia. Mas a comédia é uma coisa tão humana – a ironia, a identificação. Porque para você rir daquilo, você precisa se identificar. Você precisa ter vivido aquilo, passado por aquilo, para entender por que é tão engraçado. A IA ainda não tem essa percepção. Porque ela nunca viveu aquilo. Então acho que a comédia é a única das artes que a IA ainda não consegue fazer de forma perfeita”.

Lázaro Ramos, que também passou pelo palco, havia chegado à mesma conclusão sem combinar. Dois artistas, universos diferentes, mesma resposta: a experiência vivida é o que a máquina não replica.

O que o primeiro dia ensinou

Quarenta mil pessoas. Quase mil e seiscentas startups. Seiscentos e oitenta e oito investidores. E três brasileiros que, cada um do seu lugar – da influência, da comunidade, da arte –, disseram a mesma coisa com palavras diferentes.

Ser famoso nunca foi tão acessível. Qualquer pessoa com um celular e uma conta pode acumular seguidores. O algoritmo amplifica, a viralização acontece, o número cresce.

Influenciar, no sentido literal da palavra, aquilo que muda comportamento, que constrói confiança, que permanece depois que o trending topic passa, isso continua sendo trabalho. Continua sendo escolha. Continua sendo renúncia.

O Web Summit Rio trouxe para o Brasil uma conversa que o Brasil precisa ter. E no primeiro dia, as respostas mais interessantes não vieram de um painel sobre machine learning.

Vieram de gente que valoriza responsabilidade, permanência e aquilo que a máquina ainda não alcançou. O evento continua no Rio. E eu também.

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