'Xiita' ou 'sunita': qual a diferença e a história dos dois grupos?

Por Da Redação 7 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Xiita' ou 'sunita': qual a diferença e a história dos dois grupos?

A geopolítica do Oriente Médio é frequentemente apresentada como um emaranhado de alianças instáveis e conflitos crônicos. No entanto, para além das fronteiras traçadas no século XX, existe uma linha divisória muito mais antiga e profunda: a cisão entre sunitas e xiitas. Mais do que isso, o que essas palavras significam e como se diferem.

O que nasceu como uma discordância sobre a sucessão do profeta Maomé, em 632 d.C., evoluiu para uma disputa de hegemonia que hoje define o preço do petróleo, o destino de guerras civis e a estabilidade do Golfo Pérsico.

Atualmente, essa divisão é personificada pela rivalidade entre a Arábia Saudita (maioria sunita) e o Irã (maioria xiita). De Doha a Teerã, a fé e o poder caminham juntos, e transformam diferenças teológicas em ferramentas de influência regional.

Qual a diferença entre xiitas e sunitas?

Após a morte de Maomé, a comunidade muçulmana dividiu-se em dois: sunitas e xiitas.

Os sunitas defendiam que o sucessor deveria ser escolhido por consenso entre os seguidores. O termo vem de Ahl al-Sunna ("povo da tradição"). Eles venceram a disputa inicial, e consolidaram uma visão mais ortodoxa do Islã. Hoje, formam a esmagadora maioria do mundo muçulmano (cerca de 85% a 90%) e dominam o norte da África, a maior parte do Oriente Médio e nações populosas como a Indonésia e o Paquistão.

Já os xiitas acreditavam que a liderança deveria seguir a linhagem sanguínea de Maomé, através de seu genro, Ali. O nome deriva de Shiat Ali ("partido de Ali"). Atualmente, representam cerca de 10% a 15% dos fiéis, mas possuem uma concentração estratégica no chamado "Crescente Xiita", que engloba Irã, Iraque, Bahrein e o Líbano.

A disputa foi selada com sangue na Batalha de Karbala (680 d.C.), onde o neto de Maomé, Hussein, foi morto por tropas do califado sunita. O episódio deu à fé xiita uma identidade marcada pelo martírio, pela resistência à opressão e por uma hierarquia clerical muito mais independente do Estado do que a sunita.

A instrumentalização do conflito

A divisão sectária ganhou contornos de "Guerra Fria" a partir da Revolução Iraniana de 1979. O regime de Teerã passou a exportar a ideologia, apoiando minorias xiitas em países vizinhos para expandir a influência. Em resposta, monarquias sunitas como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes intensificaram o financiamento a movimentos e governos sunitas.

A disputa hoje segue em guerras por procuração no Iêmen, onde a Arábia Saudita combate os rebeldes Houthis (apoiados pelo Irã); no Líbano, onde o Hezbollah (xiita) é o braço de influência iraniana na fronteira com Israel; e na Síria, onde o regime de Bashar al-Assad (de uma vertente xiita) sobreviveu com o apoio vital de Teerã contra grupos rebeldes majoritariamente sunitas.

O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, é o epicentro dessa tensão. Qualquer escalada entre o bloco sunita e o bloco xiita resulta em volatilidade imediata nas commodities.

Além disso, a distinção molda o ambiente de negócios. Países de maioria sunita tendem a ter sistemas jurídicos islâmicos mais codificados e ligados ao governo, enquanto no mundo xiita, a influência dos clérigos (como os Aiatolás) pode criar dinâmicas políticas próprias que desafiam a lógica diplomática convencional.

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