Zico: o Samurai de Quintino além das quatro linhas
A história de um ídolo do futebol costuma ser contada, em geral, em gols, títulos e estatísticas. Pelé fez história com três Copas do Mundo no currículo, Maradona é lembrado pela técnica, Messi já faz coleção de Bolas de Ouro e Cristiano Ronaldo já bateu recorde de gols.
Para Arthur Antunes Coimbra, o eterno Zico, no entanto, a contabilidade da vida é outra: é feita de superação, valores morais e uma disciplina que parece ter sido forjada tanto nos subúrbios do Rio de Janeiro quanto nos templos de honra do Japão.
Esta dimensão humana, muitas vezes ofuscada pelo brilho da camisa 10, guia Zico, o Samurai de Quintino, documentário dirigido por João Wainer (Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você) que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 30 de abril.
O projeto, que começou a ser filmado em 2023, ano do 70º aniversário do craque, faz um mergulho na intimidade do “Galinho de Quintino”. A produção teve acesso a um acervo até então guardado a sete chaves pela família: dezenas de fitas VHS e de filmes Super-8 gravados pelo próprio Zico, além de cadernos com anotações manuais e detalhadas de cada gol de sua carreira.
“Muitas imagens que nos levam ao passado e a momentos tão bonitos em que eu não pude estar tão presente por causa da minha profissão. Hoje, tento reviver isso até com os meus netos, coisas que eu não pude fazer com os meus filhos”, diz Zico. “Mas ainda bem que eles entendem isso. Ainda bem que tive pessoas em volta de mim. O filme está maravilhoso, realmente está emocionante, porque fala da minha trajetória, e não do jogador de futebol.”
O DNA de Quintino e o Japão
O título do filme investiga como o DNA de Quintino, bairro onde Zico aprendeu ética e humildade, se fundiu com a cultura japonesa. Em 1991, quando aceitou o desafio de jogar no Kashima Antlers (então um time operário da fábrica Sumitomo), Zico foi um evangelista do profissionalismo. Mas ganha força quando entra, de cabeça, na trajetória do jogador diante da história do futebol brasileiro.
“A falta de memória sempre foi um problema do nosso país, justamente porque não existem tantas obras sobre futebol como deveria haver, principalmente pelo que o Brasil representa, seja dentro, seja fora do campo”, explica ele. “Um país que ganhou tantas copas, tantos títulos de clubes, tem as maiores torcidas do mundo e realmente não preserva sua história. É bom que saiam obras como essa, para que a gente possa lembrar e mostrar para as novas gerações também.”
Além da trajetória de Zico e da escuta de familiares próximos, o documentário também desconstrói a ideia da genialidade como algo puramente divino. Depoimentos de nomes como Ronaldo Fenômeno, Maestro Júnior e Carlos Alberto Parreira mostram que o “dom” de jogador era, na verdade, alimentado por um perfeccionismo quase obsessivo, nem sempre tão amigável assim.
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