3 dúvidas de acionistas que a Berkshire, de Buffett, precisa responder

Por Mitchel Diniz 2 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
3 dúvidas de acionistas que a Berkshire, de Buffett, precisa responder

A "Woodstock do capitalismo" acontece neste sábado, 2 de maio, em Omaha, Nebraska. Desta vez, sem o seu protagonista histórico no palco. O encontro anual de acionistas da Berkshire Hathaway de 2026 será conduzido por Greg Abel, o canadense de 62 anos que assumiu o posto de CEO no início deste ano.  A sucessão ocorreu após o anúncio surpresa de aposentadoria de Warren Buffett, feito justamente na conferência de 2025.

Agora em 2026, Buffett estará presente, porém na plateia, junto com o restante da diretoria. O Oráculo de Omaha não deve responder às perguntas dos acionistas. O microfone agora é de Abel, executivo com quase três décadas de casa e profundo conhecimento operacional do conglomerado. O papel dele no encontro deste ano é fazer valor a confiança de milhões de investidores que, por décadas, compraram Berkshire para comprar Buffett.

O desafio é considerável. Desde o anúncio da aposentadoria, as ações da Berkshire recuaram cerca de 13%, enquanto o S&P 500 avançou 26% no mesmo período. A empresa vive seu pior desempenho relativo ao mercado desde a bolha das pontocom. Na avaliação de analistas, o investidor está digerindo a erosão do chamado "prêmio Buffett" , uma camada extra de confiança que o nome do investidor mais famoso do mundo adicionava ao papel.

É nesse contexto que Abel sobe ao palco do encontro anual de investidores da Berkshire Hathaway pela primeira vez como CEO. E há ao menos três temas chave que ele vai precisar esclarecer.

1. O que a Berkshire vai fazer com US$ 373 bilhões em caixa?

Ao final de 2025, a Berkshire acumulava US$ 373 bilhões em caixa e equivalentes, montante que equivale a 31% de todos os ativos da empresa. A posição, construída por Buffett ao longo de anos de cautela, é ao mesmo tempo o maior trunfo e o maior peso da empresa. É uma vantagem porque representa munição enorme para agir em momentos de crise. O lado negativo é que o dinheiro fica "parado", deteriorando o retorno do conglomerado.

Na crise financeira de 2008, Buffett usou um caixa bem menor para fazer negócios históricos com Goldman Sachs, Bank of America e GE. Com o dinheiro, adquiriu a operadora de ferrovias BNSF, uma das empresas mais  estratégicas do portfólio atualmente. Hoje, Abel tem poder de fogo muito maior. A questão é se e quando vai usá-lo.

Na sua primeira carta aos acionistas, enviada dois meses atrás, Abel trouxe explicações, sem dar muitos detalhes. "Muitas vezes na história da Berkshire, sugeriram que nossa substancial posição de caixa sinaliza um recuo dos investimentos. Não é bem assim." A mensagem foi lida pelo mercado como um sinal de postura ativa. Mas palavras ainda precisam se provar com ações e este sábado vai ser determinante para entender se o tema evoluiu.

2. Dividendos ou recompra de ações?

A Berkshire historicamente não paga dividendos. Buffett sempre defendeu que reinvestir o capital dentro da empresa gerava mais valor do que distribuí-lo. Mas com o caixa em níveis recordes e as ações em queda, a pressão por alguma forma de retorno direto ao acionista cresce.

No início de abril, a Berkshire voltou a recomprar ações após um hiato de quase dois anos, trazendo US$ 225 milhões em papéis de volta à companhia. Foi um sinal importante de que Abel enxerga as ações como baratas no patamar atual. Com novas quedas desde então, a empresa pode ter acelerado o ritmo. Os detalhes serão divulgados junto com os resultados do primeiro trimestre, justamente no encontro deste sábado.

O investidor que espera por respostas assertivas, porém, pode se frustrar. É mais provável que Abel não queira se comprometer publicamente com nenhuma forma específica de alocação de capital. A recompra, porém, tende a ser um caminho natural, especialmente com as ações negociando abaixo do valor intrínseco estimado pela própria companhia.

3. Quem, afinal, vai gerir o portfólio de ações da empresa?

Abel está no controle de praticamente todo o portfólio de ações da Berkshire, avaliado em cerca de US$ 300 bilhões. Todd Combs, que dividia a gestão com Ted Weschler desde 2010, deixou a empresa em dezembro para um cargo no JPMorgan Chase. Weschler permanece, mas responsável por apenas 6% do portfólio, relatam as agências internacionais.

O problema é que Abel não tem experiência formal como gestor de portfólio. Sua carreira na Berkshire foi construída no lado operacional. Assumir sozinho a gestão de um dos maiores portfólios de ações do mundo, enquanto ainda toca o dia a dia de um conglomerado com mais de 60 empresas subsidiárias, é um ponto que tem incomodado os investidores.

Analistas como Cathy Seifert, da CFRA, cobram clareza: "Gostaria de ver Greg Abel enfrentar os problemas e delinear um plano de melhoria de lucros e receitas", disse ela à Barron's, apontando que divisões como a BNSF e a Berkshire Hathaway Energy ficaram para trás em relação a concorrentes em métricas de rentabilidade.

Há, no entanto, quem aposte na virada. O investidor Christopher Davis, da Hudson Value Partners, chama as ações de "mola comprimida" e vê a Berkshire posicionada em negócios que a inteligência artificial dificilmente vai conseguir disruptar. O analista Brian Meredith, do UBS, compartilha do otimismo, destacando que os papéis estão atrativos em relação ao valor intrínseco e que o enorme caixa oferece proteção rara em um mercado volátil.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: