Compass estreia hoje na bolsa e é primeiro IPO em cinco anos na B3
Depois de cinco anos de portas fechadas para novas empresas, a B3 voltará a tocar a campainha de oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) nesta segunda-feira, 11. A responsável por encerrar o maior jejum de aberturas de capital da história recente da bolsa brasileira será a Compass Gás e Energia, empresa do grupo Cosan, que estreia no Novo Mercado sob o ticker "PASS".
Mas mais do que a chegada de uma nova companhia ao pregão, a operação é vista como um teste simbólico para o mercado brasileiro. Em um ambiente ainda marcado por juros elevados, volatilidade global e seletividade dos investidores, a Compass conseguiu levantar R$ 2,825 bilhões e reabrir uma janela que permanecia travada desde 2021.
O toque de campainha que marca o início das negociações acontecerá às 9h, na sede da B3, no centro de São Paulo. A estreia encerra um intervalo de meia década sem IPOs que atravessou o fim da pandemia de Covid-19, a escalada da Selic para dois dígitos e uma mudança profunda no humor do mercado.
Desde 2021, ano em que 47 empresas abriram capital na bolsa brasileira, nenhuma companhia havia conseguido concluir uma oferta pública inicial no país. Naquele período, a combinação de liquidez global abundante e juros baixos impulsionou uma onda de estreias. O cenário mudou rapidamente nos anos seguintes.
Entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026, a taxa Selic saiu de 9,25% ao ano para 15% ao ano, tornando o ambiente mais hostil para empresas que buscavam acessar o mercado acionário. Nesse intervalo, as operações de equity passaram a ser dominadas pelos follow-ons, as ofertas subsequentes de ações realizadas por companhias já listadas.
Em 2025, as empresas levantaram cerca de R$ 22,9 bilhões via follow-ons, segundo dados da B3. Em 2026, até 10 de março, essas operações já somavam aproximadamente R$ 5,9 bilhões.
IPO da Compass deve movimentar R$ 3,2 bilhões
Foi nesse ambiente que a Compass conseguiu executar a primeira abertura de capital do novo ciclo.
A companhia confirmou, em Fato Relevante divulgado na noite de quinta-feira, 7, a precificação da oferta a R$ 28 por ação. A operação envolveu a venda de 100,9 milhões de ações ordinárias, incluindo papéis adicionais colocados após excesso de demanda.
Segundo a empresa, a procura superou em mais de um terço a quantidade inicialmente ofertada, permitindo o exercício da opção de ações adicionais. O mercado ainda poderá absorver um lote suplementar equivalente a até 15% da oferta inicial, cerca de 13,4 milhões de ações, voltado a operações de estabilização de preço até 5 de junho.
A oferta, porém, teve uma característica importante, já que foi 100% secundária. Ou seja, os recursos captados não entram no caixa da Compass, mas serão destinados aos acionistas vendedores, entre eles Cosan, Atmos e Bradesco Previdência.
A operação avalia a Compass em cerca de R$ 20 bilhões e foi coordenada por BTG Pactual, Bank of America, Bradesco BBI, Citi e Itaú BBA, entre outras instituições financeiras.
Mas em um fato relevante separado, a Cosan anunciou ao mercado a venda de 76,8 milhões de ações e que concedeu opção de lote suplementar de até 13,4 milhões de ações, equivalente a até 15% do total das ações da oferta base ao mesmo preço por ação. Neste caso, acrescentou a Cosan, o montante total da oferta poderá alcançar até R$ 3,2 bilhões, com a Cosan recebendo R$ 2,53 bilhões.
'Compass é o ativo ideal para testar reabertura do mercado brasileiro'
Para Fabio Nazari, sócio e head de mercado de capitais de renda variável do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), o perfil da companhia é determinante para tornar viável a retomada dos IPOs no Brasil.
"É uma transação de uma empresa no ambiente de utilities, com nível de previsibilidade de resultado bastante grande, porque boa parte dos ativos da Compass são distribuidoras de gás. Seja Comgás, seja os stakes nas empresas regionais. É um ativo grande, desalavancado", afirmou.
Na avaliação do especialista, a estrutura da operação também ajudou a reduzir riscos para os investidores em um momento ainda delicado para o mercado.
"A empresa não precisava de dinheiro. Quem precisava fazer a venda era de fato a Cosan, dentro da agenda de reestruturação de estrutura de capital dela. Quando você tem um ativo 'Estado da Arte', uma empresa muito boa e que não precisa de capital, é muito mais uma dinâmica de rearranjo da posição do controlador", disse.
Em sua análise, a companhia estreia na bolsa já com uma base considerada robusta de liquidez e investidores de longo prazo. "A empresa vai ter um free float de mais de R$ 3 bilhões, então ela já vai nascer relativamente líquida em mercado. Acho que essa foi a receita correta para a empresa que está reabrindo o mercado de capitais no Brasil depois de cinco anos".
A recepção dos investidores deve mostrar uma preferência clara por ativos considerados mais resilientes. E o caráter defensivo da empresa ajuda no apetite em meio às incertezas globais. "Esse é um ativo unique mesmo. É um ativo que aguenta chuvas e trovoadas. Isso ajuda em um ambiente onde o geopolítico ainda está atrapalhando", afirmou.
Quem é a Compass
Criada em 2020, a Compass atua como uma plataforma integrada de gás e energia, com presença em distribuição, infraestrutura, comercialização e biometano.
No segmento de distribuição, controla a Comgás, maior distribuidora de gás canalizado do Brasil, além da Sulgás e da Compagas. Por meio da joint venture Commit, com a Mitsui, controla ainda a Necta e possui participações em Ceg-Rio, MSGÁS e SCGÁS.
Já no braço de marketing e serviços, liderado pela Edge, a companhia atua em infraestrutura, logística on-grid e off-grid, comercialização de gás natural e biometano e desenvolvimento do mercado livre. Também opera o Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP), em Santos, e a Onebio, planta de produção de biometano localizada em Paulínia.
A abertura de capital ocorre após uma reorganização societária promovida pela Cosan para adequar a estrutura da companhia às exigências do Novo Mercado. Entre as mudanças estiveram a conversão de ações preferenciais em ordinárias e uma cisão parcial envolvendo a Cosan Dez Participações S.A.
Segundo Rafael Bergman, vice-presidente financeiro e de relações com investidores da Cosan, a operação transferiu patrimônio líquido de cerca de R$ 1,065 bilhão para a Compass. Após a reorganização, a Cosan passou a deter participação direta de 20% da companhia, equivalente a 142,8 milhões de ações ordinárias.
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