Crédito privado vive turbulência, com ou sem guerra, diz gestor

Por Clara Assunção 9 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Crédito privado vive turbulência, com ou sem guerra, diz gestor

A recente turbulência nos mercados de crédito privado, especialmente em infraestrutura, não é apenas reflexo da guerra no cenário internacional. Ela expôs um ajuste que já estava em curso e que, na avaliação de Jean-Pierre Cote Gil, sócio da Vinland Capital, ainda está longe de terminar.

Para o gestor, o movimento atual é técnico, mas incompleto, e indica que os preços dos ativos podem continuar sob pressão antes de uma estabilização mais consistente.

"Estaríamos vivendo um cenário não muito diferente, mesmo sem a guerra", afirmou, durante o 12º Brazil Investment Forum, realizado pelo Bradesco BBI, em São Paulo, nesta quarta-feira, 8.

Segundo ele, mesmo sem a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, o mercado já daria sinais de deterioração com uma "sucessão de eventos negativos". "Recuperação extrajudicial, judicial, empresa que solta resultado pior do que esperado", eventos que já vinha pressionando os preços dos ativos.

Nesse contexto, o conflito no Oriente Médio atuou como um fator adicional, "coroando" um ambiente que já era desafiado, em suas palavras.

Nos últimos anos, houve uma compressão significativa dos spreads, a diferença entre a rentabilidade de um título público e a rentabilidade de um título de dívida privada, especialmente em títulos incentivados de infraestrutura. Segundo o gestor, esses papéis foram levados a níveis considerados excessivamente baixos.

"Chegamos a ver mais de 400 emissões com spread negativo, um spread médio bem abaixo da média", afirmou. Em alguns momentos, segundo ele, o benefício tributário desses papéis ficava mais com os emissores do que com os investidores do mercado secundário, o que levou a distorções relevantes.

Agora, no entanto, ele diz acontecer um movimento "de correção desse exagero", com os spreads retornando a patamares mais próximos do histórico, ainda não elevados, mas também não mais nos níveis considerados extremos. Ainda assim, ele reforça que o ajuste não terminou. "A nossa visão é de que nós estamos no meio do ajuste", disse Cote Gil.

Leitura para o Brasil é mais construtiva mesmo com eleições

Isso significa que, na visão dele, ainda pode haver novas quedas de preços antes de uma estabilização mais clara. A incerteza sobre a extensão e a duração desse movimento reforça a necessidade de cautela por parte dos investidores, de acordo com o gestor.

Por outro lado, a leitura estrutural para o Brasil é mais construtiva. O sócio da Vinland Capital avalia que, na ausência de um cenário de ruptura, o mercado doméstico tende a ser resiliente, com capacidade de crescimento ao longo do tempo. Mesmo fatores como as eleições gerais, em outubro, não devem alterar de forma significativa essa trajetória de longo prazo.

"Entendemos que, independentemente do resultado da eleição, isso não deve mudar de forma relevante a solidez do mercado nem a sua capacidade de continuar crescendo. Claro que um cenário mais favorável pode melhorar as perspectivas para o ano que vem, mas isso não é condição para a estabilização", afirmou Cote Gil.

"A nossa visão é que há uma perspectiva positiva mais à frente, apostamos em um segundo semestre melhor. Ainda assim, o momento exige cautela, porque estamos no meio de um ajuste cuja extensão e duração ainda são incertas", finalizou.

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