Da guerra aos rios: como conflitos globais impactam a energia em comunidades amazônicas
*Por Carla Fischer e edição de Natália Mello
Em comunidades ribeirinhas da Amazônia brasileira, o som do motor de um barco é comum e lembra um pouco o ritmo da maré, que viabiliza o acesso à escola, ao posto de saúde, escoa produtos e levam às cidades mais próximas.
Movidos a diesel, esses deslocamentos revelam uma dependência que vai além da logística e conecta diretamente o cotidiano da região a dinâmicas globais que parecem distantes, como guerras e disputas por petróleo.
Num mundo que fala muito sobre energias renováveis, em muitas comunidades também é a energia que faz funcionar geradores que garantem energia para a luz, para a conservação em geladeiras e equipamentos para acesso à internet, por exemplo.
Além dos impactos econômicos, os conflitos no Oriente Médio também têm consequências humanitárias profundas.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a instabilidade pode levar milhões de pessoas à fome aguda em razão da interrupção de ajuda humanitária e da alta no preço dos combustíveis.
Dados citados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) também apontam para a morte de mais de mil pessoas em decorrência dos confrontos.
A Superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Valcleia Lima, pontuou sobre o problema da energia na Amazônia em artigo publicado no site O Eco. No texto, ela apresenta dados do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), de 2019, que mostram que quase 1 milhão de pessoas na Amazônia não têm acesso à energia elétrica.
Pará e Amazonas são os Estados com maior déficit, sendo o primeiro com 409.593 e o segundo com 159.915 pessoas sem acesso à eletricidade.
"Os números demonstram a distante realidade da região Norte do país (...) Vale destacar que as comunidades que possuem geradores à base de diesel, combustível fóssil, além de poluente, gera um alto custo financeiro, que por muitas vezes não é possível manter mensalmente", comenta no artigo.
Mais do que o tanque do carro, alto preço afeta comunidades
Conhecendo essa realidade, onde o diesel ainda é a base da energia e do deslocamento em comunidades ribeirinhas, quilombolas, extrativistas e indígenas, as altas recentes elevam a preocupação, ainda mais numa região onde cada centavo realmente vale muito na conta total com o alto volume de diesel usado.
A Petrobras confirmou um novo aumento, de R$ 0,38 por litro para distribuidoras, refletindo a alta do petróleo no mercado global ocasionado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.
Assim, conflitos no Oriente Médio têm reflexos diretos na vida de quem depende do diesel para atividades cotidianas. Na Amazônia, esse impacto vai além das cidades: nos rios, o combustível move embarcações que garantem transporte, comunicação e abastecimento, enquanto, nas comunidades, sustenta geradores que fornecem energia de forma limitada e instável.
A percepção dos impactos também vem de quem atua diretamente nas comunidades. Para Rodrigo Souza, gestor de Núcleo de Acesso à Água e Saneamento do Projeto Saúde e Alegria (PSA), o aumento recente do diesel já tem efeitos concretos no cotidiano e na execução de atividades na região.
“A gente já está sentindo esse impacto na prática. O aumento do diesel encarece toda a logística, desde a implementação de ações até o acesso das próprias comunidades a bens básicos. Em regiões como Jacareacanga, onde tudo depende de transporte fluvial, esse custo chega ainda mais alto. Para as populações indígenas e ribeirinhas, o peso é maior, porque afeta diretamente a renda e o abastecimento das famílias. Além disso, muitas comunidades ainda dependem do diesel para gerar energia, com uso limitado ao longo do dia, o que torna essa situação ainda mais difícil. É um impacto que a gente já sente na pele, com mudanças rápidas e imprevisíveis nos preços.”
A continuidade do conflito pode agravar a crise, uma vez que o Estreito de Ormuz, diretamente afetado pelo conflito e com restrições de tráfego de navios petroleiros, é por onde circula cerca de 20% da produção mundial.
Energia solar ajuda a reduzir dependência
Para reduzir a dependência do diesel - e também como forma de mitigar (reduzir) as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) causadas pelo diesel e outros combustíveis fósseis -, algumas iniciativas buscam ampliar a presença de energia solar.
Um dos exemplos, mostrados em reportagem recente do Amazônia Vox, na série Lições da Amazônia, leva energia solar a comunidades de Santarém e da Floresta Nacional do Tapajós, propondo alternativas não só ao uso de combustíveis fósseis, mas também para reduzir a demanda por energia por hidrelétricas, que também deixam impactos socioambientais.
Outra iniciativa é desenvolvida pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), que há décadas desenvolve soluções adaptadas à realidade ribeirinha no oeste do Pará. Nos últimos anos, a organização tem ampliado a implementação de sistemas de energia solar fotovoltaica em comunidades do Tapajós, buscando reduzir a dependência do diesel e garantir acesso mais contínuo à energia, inclusive em serviços essenciais como saúde e conservação de alimentos.
Inclusive, o projeto tem promovido cursos e oficinas de eletricidade básica e energia fotovoltaica com jovens e mulheres.
Outro exemplo é o projeto Biolume, desenvolvido por estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA), que utiliza postes solares de baixo custo para levar iluminação a comunidades ribeirinhas. As iniciativas mostram que soluções locais podem reduzir a dependência do diesel, ainda que não resolvam, sozinhas, os desafios estruturais da matriz energética brasileira.
“Crises internacionais geram reflexos na vida cotidiana da região amazônica”, diz pesquisador da Unifap
Para o professor Paulo Gustavo Pellegrino Corrêa, doutor em Ciência Política e especialista em segurança internacional da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) coordenador do Programa de Pós-Graduação em estudos de Fronteira (PPGEF), conflitos internacionais costumam afetar diretamente as cadeias globais de energia, especialmente quando envolvem grandes produtores de petróleo.
Segundo ele, guerras em regiões estratégicas, como o Oriente Médio, provocam oscilações no preço do petróleo e aumentam a especulação no mercado internacional, com impactos que se refletem no valor dos combustíveis em diversos países.
Para o especialista, na Amazônia brasileira, esses efeitos chegam de forma indireta, mas com consequências concretas. Como muitas áreas dependem do diesel para transporte e geração de energia, variações no preço ou no fornecimento tornam essas populações mais vulneráveis.
“Crises internacionais que afetam o mercado de petróleo acabam tendo reflexos na vida cotidiana da região amazônica”, afirma o pesquisador.
Ele também destaca que, em regiões mais distantes dos principais polos de distribuição e com menor diversidade energética, esses impactos tendem a ser ainda mais intensos, ampliando desigualdades no acesso à energia e ao transporte.
1/16 default (Embarcação Rio Negro Queen)
2/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (O Rio Negro Queen tem terraço e jacuzzi com vista para o Rio Amazonas)
3/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (Espaço aberto do navio tem vista para o Rio Negro)
4/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (O bar do navio oferece coquetelaria internacional)
5/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (Espaço onde é servido o café da manhã no navio)
6/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (Espaço onde é servido o café da manhã no navio)
7/16 : A academia tem na parede camisas autografadas pelas seleções de futebol (A academia tem na parede camisas autografadas pelas seleções de futebol)
8/16 O restaurante oferece pratos que incluem ingredientes locais como a formiga Maniwa (O restaurante oferece pratos que incluem ingredientes locais como a formiga Maniwa)
9/16 Almoços especiais incluem paella com peixes amazônicos (Almoços especiais incluem paella com peixes amazônicos)
10/16 Os passageiros podem utilizar jet-skis para conhecer a floresta (Os passageiros podem utilizar jet-skis para conhecer a floresta)
11/16 Os passageiros podem utilizar jet-skis para conhecer a floresta (Os passageiros podem utilizar jet-skis para conhecer a floresta)
12/16 As suítes comportam até 30 passageiros (Uma das salas de conveniência com bar)
13/16 O bar do navio oferece coquetelaria internacional (Panela de paella na cozinha no navio)
14/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (O café da manhã é servido com frutas tradicionais amazônicas)
15/16 Experiencia no barco/ yacht Rio Negro Queen no rio amazonas Foto: Leandro Fonseca Data: 01/07/2025 (Corredor das 15 suítes aonde se hospedam até 30 pessoas)
16/16 (Por dentro de uma das suítes do navio)
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