Entenda a nova crise entre EUA e Alemanha que pode levar à saída de tropas

Por Matheus Gonçalves 5 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Entenda a nova crise entre EUA e Alemanha que pode levar à saída de tropas

No fim de abril, falando com alunos de uma escola na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz disse que os EUA “claramente não têm uma estratégia” em relação à guerra no Irã e que estavam sendo “humilhados” pelos seus adversários em Teerã. O chanceler alemão é famoso por seus comentários bruscos, tendo criticado inclusive o Brasil após a COP30, mas uma rixa com Trump pode ter impactos mais profundos na segurança da Europa.

Em retaliação, Trump fez comentários sobre Merz nas redes sociais, retaliando tanto com ameaças quanto com palavras, dizendo que o chanceler deveria “ passar mais tempo consertando seu país quebrado e menos tempo interferindo com quem está se livrando da ameaça nuclear iraniana”, em um de seus muitos ataques verbais nas redes sociais.

Além disso, Trump ameaça retirar milhares de soldados americanos de bases espalhadas por toda a Alemanha, que atualmente abrigam 39 mil soldados estadunidenses. Essas forças atuam como importante dissuasão às ambições de Putin, que, segundo congressistas americanos, pode “receber o sinal errado” com a retirada das tropas.

Não é a primeira vez que Trump faz uma ameaça semelhante contra a Alemanha, tendo inclusive um plano em seu primeiro mandato que previa a retirada de 12 mil soldados americanos do país – uma ideia que enfrentou forte resistência no Congresso e foi posteriormente cancelada por seu sucessor, o democrata Joe Biden. Todavia, a ameaça renovada resultou em um comunicado do Pentágono anunciando a saída planejada de 5 mil soldados ao longo dos próximos seis meses a um ano.

Putin, Otan e os perigos da ausência americana

Por mais que Trump possa ver a remoção de suas forças como uma punição adequada ao que julga como falta de respeito, congressistas e funcionários do Pentágono, muitos dos quais alegadamente haviam sido deixados no escuro sobre o novo plano, insistem contra a ideia, com representantes dos comitês das forças armadas no Congresso, ambos republicanos, assim como Trump, dizendo estar “muito preocupados” com o que a remoção das tropas pode significar para a Europa, especialmente à luz do conflito na Ucrânia e das ambições que Vladimir Putin, presidente russo, pode ter para o resto do continente.

Além disso, a presença americana no conflito entre a Rússia e a Ucrânia diminui cada vez mais, não só porque Trump defende uma Europa que investe mais na sua própria defesa – alegando que os EUA carregam uma responsabilidade desproporcional de defesa dentro da Otan –, mas também devido às escaladas no Oriente Médio, que demandam cada vez mais tropas e armamentos na região, a milhares de quilômetros das linhas de frente europeias.

Por sua parte, políticos alemães estão ainda mais preocupados com outra decisão americana – a de cancelar um acordo assinado em 2024 entre Joe Biden e o predecessor de Merz, o chanceler Olaf Scholz, que previa a formação de uma “força-tarefa com múltiplos domínios”, que seria armada com três sistemas de mísseis de médio alcance. Esses armamentos incluiriam avançados mísseis hipersônicos que seriam uma importante dissuasão contra Putin e uma parte importante da segurança da Europa, especialmente à luz dos mísseis russos com capacidade nuclear instalados em Kaliningrado, um território russo entre a Polônia e a Lituânia, que agora parecem estar sendo direcionados ao Irã.

O acordo visava controlar a situação de segurança à medida que os países europeus investem em suas forças armadas. A própria Alemanha está investindo intensamente em seu exército, o Bundeswehr, ecoando os chamados tanto de Trump quanto de Merz, e as novas políticas estratégicas da Alemanha, que também enfatizam o desenvolvimento de capacidades de ataque a longa distância – algo que seria coberto pelos mísseis americanos a curto prazo.

Para piorar, a imprevisibilidade das decisões de Trump também afeta a Otan, apura a revista britânica The Economist, minando a capacidade de dissuasão do bloco conforme as decisões de seu país mais econômica e militarmente desenvolvido parecem não seguir a mesma lógica por muito tempo.

“Não importa se as forças são retiradas ou não, ou se as capacidades chegam ou não”, diz à Economist Christian Mölling, diretor da European Defence in a New Age, um think tank com sede em Berlim. “A dissuasão é um jogo mental, e capacidades sem vontade política são inúteis.”

Para piorar, o imbróglio ocorre em um período sensível para Merz, que enfrenta suas mais baixas taxas de aprovação a poucos dias de seu aniversário de um ano como líder alemão.

Aos 15%, sua cifra é menor ainda do que a de Trump, que passa por um momento semelhante em termos de aprovação nos EUA.

Em meio a uma coalizão fragmentada sobre políticas domésticas e a ataques da oposição – especialmente do populista de direita AfD, que agora pode conseguir maioria em um estado pela primeira vez –, a economia alemã passa por maus bocados, e sua previsão de crescimento para esse ano, que já era baixa, foi cortada pela metade devido à guerra no Irã.

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